terça-feira, Janeiro 28, 2014

Casa de Santar: Outros tempos

As surpresas ainda surgem. Os estados de admiração, de contemplação acontecem, mesmo quando não estamos à espera. Por vezes, no meio do nada, aqui ou além, surge-nos pela frente algo que nos retém, que nos prende e que nos faz esquecer o que circunda em redor. 



Tudo se torna difuso, menos aquilo que prendeu a atenção. E a partir daí, nada mais conta. O interesse é canalizado para um único objectivo: viver, curtir, saborear e desfrutar, nem que seja por breves e efémeros momentos.



O resto pouco interessa, pouco nos diz, pouco valor tem. Queremos, enquanto dura, sentir o que nunca sentimos, pois sabemos que, num ápice, iremos regressar à realidade.

sexta-feira, Janeiro 24, 2014

SG: Sangiovese by Monte da Ravasqueira

Um post a pedido. A pedido de algumas pessoas que andam meio fartas e irritadas com as palavras que vou largando aqui por esta quelha. Os irritados e chateados dizem, e com razão, que não sabem ou não percebem se gostei ou não. Pois, então e a pedido, vamos lá regressar ao passado e escrevinhar meia dúzia de coisas que possam satisfazer os insatisfeitos. O vinho, perdoem-me, é que não tem culpa, porque há mais vida para além do prosaísmo de uma descrição.


É vinho alentejano baseado na casta sangiovese. Temos, assim, um argumento que poderá cativar aquele consumidor mais curioso: mais uma interpretação portuguesa desta casta transalpina.


É vinho com cheiros, perdoem-me, com aromas bem balanceados, capazes de cativar e acompanhar uma refeição ligeira ou, se preferirem, uma conversa sem grande complexidade. Serve de companhia.


Os sabores pareceram-me, razoavelmente, interessantes, com a acidez e taninos a darem alguma garra e vida ao vinho. Rematando e concluindo, fico com a ideia que estou perante um vinho que, independentemente do que achamos e sabemos da casta, cumpre (bem) o objectivo final: satisfazer em qualquer momento. E ficaram satisfeitos? Sou franco, já perdi o jeito para estas ladainhas.

 Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

terça-feira, Janeiro 21, 2014

1977

Permitam-me mais uma passagem pelo passado. O vinho, como sempre, o catalisador, o motor de arranque, foi o mote para rebobinar memórias. Em 1977 entrei para antiga escola primária. Três anos depois de uma outra criança, segundo consta a tradição, ter metido uma flor no cano de uma arma. 


Os ares que se respiravam, em 1977, ainda eram de turbulência, de muita indecisão, mas para um puto gorducho, de cabelo farto, meio loirado, os problemas eram decididamente outros. Na altura, entrava-se para a escola em Outubro e as estações estavam, ainda, bem definidas. Sabia-se quando era Outono, Inverno, Primavera e Verão. Cada coisa tinha o seu lugar.


A sala, relembro, estava repleta. Os putos apresentavam-se vestidos com aquelas camisas coloridas, de bicos largos e compridos, calças com boca de sino, de cabelos penteados, com a risca ao lado. Um mimo. Sobre a indumentária das meninas, perdoem-me, mas não me recordo de nada. Com aquela idade, puto que se prezasse, não olhava para elas. A professora, uma senhora robusta e alta, para mulher portuguesa, colocou-se estrategicamente em cima do estrado, em posição de comando. Tomou conta da minha vida durante dois anos. Ensinou-me a ler e a escrever. Depois desapareceu num ápice: o vinho.

segunda-feira, Janeiro 20, 2014

Piteira e as Talhas de Barro

Falamos à boca cheia que andamos fartos da normalidade. Há muito que deixei de enredar-me por falsos profetas, por falsos messias que anunciam um novo amanhã, bem diferente daquilo que temos. Mas a verdade é pessoal e a única que conheço é a minha. Deriva do meu olhar.


Este vinho ou este nome, que julgo ser de fácil acesso, conseguiu no espaço de pouco tempo agarrar num conceito, no mínimo, interessante: vinho feito segundo a tradição dos romanos, em que as talhas de barro são parte integrante da sua feitura.


Parece-me bem conseguido o argumento criado, podendo cativar aqueles que buscam, sei lá, aquele toque de Midas que transforma o vinho em algo nunca bebido. E a sensação, que tive, foi precisamente essa: algo incomparável, sem semelhantes ou algo parecido. Tudo era inusitado, deslocado dos parâmetros habituais: os meus.


Cheiros, sabores e cor surgiram-me completamente irreais, para lá dos extremos do intervalo em que todos coabitamos. Será um (puro) exemplar do que se fazia há dois mil anos atrás, como alude o contra-rótulo? Não sei. Sei, isso sim, que é vinho que devemos conhecer, interpretar e reflectir, principalmente para quem quer abrir um pouco mais as vistas. Depois se gostam, ou não, isso são outras cantigas. Fica ao vosso critério.

sexta-feira, Janeiro 17, 2014

Momento

Já falei dele e por que há muita gente que faz isso de falar de vinho, repetidamente, venho pela calada da noite, já enclausurado em trajes pouco dignificantes, apenas para dizer coisa nenhuma. Talvez, e só, para dizer meia dúzia de desvairos pessoais, de reflexões que pouco vos dizem. 


O vinho, sem qualquer nota de prova ou descritor, classificação ou treta parecida, pegou em mim e levou-me por entre recordações. Recordações de momentos, de um momento em especial, um momento que perdura, na memória, vezes sem conta. Um momento que se quer repetir, como se não houvesse fim, como se a vida não fosse finita. 


O vinho apenas reviveu o que estava adormecido, o que andava a esconder, inutilmente. Bendito vinho que, apesar do barulho, da confusão, do nada, acalmou e lançou-me, em contramão, para meio de tanta coisa, para o meio de tanta ilusão.

segunda-feira, Janeiro 13, 2014

Contraditório: Sai um Trinabrancus!

Do blog Amável Vinho que, par da A Palheira do Ti Zé Bicadas, é um dos blogs mais interessantes para ler, e por causa de um Prova Régia, que não é certamente o melhor exemplo, diz-se o seguinte:



Há dias, bebericando com desconsolo o Prova Régia de 2012 (o ex-Bucelas, se não já o anti-Bucelas — não desfazendo), lembrou-me este texto do mestre MEC. Piquinho e tudo. «Enquanto os tintos somam novas glórias, esperanças e curiosidades com cada mês que passa, os brancos tornam-se cada vez mais parecidos uns com os outros; mais adamados; mais frutados; mais parecidos com refrigerantes. Se calhar é bom para quem gosta de beber fora das refeições e quer uma coisa fresquinha e pouco calórica com saborzinho a uva, a um breve passo do recente desmame de Trinaranjus, com a vantagem de se poder passar, à vista desarmada, por figurante do Sexo e a Cidade(...) O vinho branco tornou-se, entre nós, numa bebida de senhoras; num instrumento dietético; num sumo de uva com piquinho; numa desgraça.» Miguel Esteves Cardoso, em Com os Copos (2007).


Apraz dizer, sem grande fundamentação que não estou, em nada, de acordo. Pode ter sido uma verdade, já não recordo, a memória anda cada vez mais caduca, na altura em que o MEC ditou o que ditou. 


Os tintos, sim, têm estado iguais entre si, semelhantes em aromas, em cheiros, em sabores, sendo necessário pagar, por vezes, uns largos euros para ter alguma satisfação de jeito. A normalidade nos tintos tem sido quase dilacerante e cansativa. Os brancos dão (a mim dão) muito mais prazer. São multifacetados e servem tanto para comida vermelha como para comida branca. E depois bebem-se num ápice e fica-se muito mais alegre. Depois ainda há uma snobeira de todo o tamanho em redor do tinto que me parece injustificável.. Isto para não falar que o vinho branco, segundo muita gente, faz azia.

domingo, Janeiro 12, 2014

Encontro e Desencontro

Uma verdade de La Palisse: na treta da vida, andamos sempre com vontade, com aspiração que aconteça aquele Encontro ou Reencontro, há muito esperado, há muito desejado.


Mas o que nos sobra, nos surge pelas ventas são uma porrada de desencontros, de caminhos mal feitos, de decisões erradas por culpa própria, de indecisões que nos tramam. Acabamos por desencontrar-nos, mais uma vez, em algum momento da vida.


A sorte, porque dizem que a esperança é a última a morrer, é que continuaremos a sonhar, a desejar que surja, de uma vez por todas, aquele Encontro ou Reencontro. E enquanto andarmos por cá, assim será.

quinta-feira, Janeiro 09, 2014

Quinta do Carmo: A Bastardização

Perdoem-me a mal disposição, perdoem-me o vinagrete do dia, mas não vou conseguir evitar. Logo aviso, em jeito de precaução, que poderá haver excessos de linguagem, conclusões precipitadas e sei lá mais o quê.



Abri este vinho. Aliás, comprei e bebi no próprio dia. E por causa disso, ainda procuro razões plausíveis para tamanha atitude e não as encontro. Talvez tenha sido por saudosismo: Quinta do Carmo. E pouco mais.



Abriu-se a garrafa e saltou rolha sintética, coisa bem adequada para um vinho que ostenta nome grande. Tudo, como disse, adequado. Sobre o resto, pareceu-me um vinho que bastardiza o nome, que o vulgariza, que lhe dá um ar de comum e pretensioso, tal nobre teso, trivial e sem grande graça. Pior é que custa mais de sete euros.

domingo, Janeiro 05, 2014

Quinta das Maias: Verdelho

Na senda da repetição exaustiva que tenho feito nos últimos tempos, aludindo à importância da subjectividade, das ligações afectivas, do que não se consegue justificar, hoje e em honra à minha filha mais velha, dedico-lhe um vinho. 



Um vinho que nasceu no mesmo ano que ela. Um vinho que veio de uma Quinta que ela conhece pela estrada, de uma terra, de um espaço que, não sei porquê, também gosta e vive. E não sei se a história se repete, mas convivo com alguém que, como eu, deseja a Beira Alta, a Serra, a Pedra, a Chuva e a Neve.

sábado, Janeiro 04, 2014

DRUIDA: O ENCRUZADO DOS CELTAS

Devemos assumir que há nomes bem esgalhados para determinados vinhos. E digam o que disserem, vociferem de forma que entenderem, mas nome e rótulo são importantes no acto da escolha. Talvez não devesse ser assim, mas é. Mas há remédio pra isso: gastem um pouco de tempo para pensar no nome e no rótulo, que a coisa é capaz de ajudar um pouco.


Feita a introdução, devo dizer-vos que sou um seguidor apaixonado da cultura celta, de tudo o que rodeia este povo que, segundo consta, também povoou o território de Portugal, principalmente nas regiões a norte do rio Tejo (digo eu). E este vinho com o nome de Druida alude, sem dúvida, ao imaginário celta: ao rei Artur, ao Viriato, a William Wallace, a Boudica, ao Astérix que também era celta.



A própria estória montada em redor deste vinho ajuda a aumentar, ainda bem que o faz, o desejo em consumi-lo, em bebê-lo, em conhecê-lo. E quem diz que uma boa estória não ajuda, perdoem-me, estará redondamente enganado. Será antes, perdoem-me mais uma vez, sinal de incompetência.


O vinho, tal poção mágica feita por tais homens sábios, é revigorante, profundamente elegante e, porque tinha que o ser, enigmático.

quarta-feira, Janeiro 01, 2014

Condessa de Santar: A não comemoração

No último dia do ano, repeti mais uma não comemoração. Não comemorei o fim, nem o início. Deixei-me estar em silêncio, pensando em nada ou em tudo. Não havia tempo, nem vontade, para qualquer comemoração. Na verdade, irrita-me o ritual. Desejos infrutíferos repetidos vezes sem conta. Ano após ano, as palavras são as mesmas, porque, no fundo, sabe-se que vai ficar tudo igual: meras replicagens do que aconteceu no passado. 




Façamos por isto tudo, em jeito de provocação, uma não comemoração. Escolham o melhor espumante, que tenham por perto, levantem o copo façam um brinde a nada. Façam o gesto, vezes sem conta, até ficarem ébrios. Ficarão em paz, sem qualquer ansiedade e sem pensar naquilo não irão ter.