terça-feira, Outubro 30, 2012

Porta dos Cavaleiros: Manifesto anti-pindéricos

É surpreendente não se (voltar) falar destes vinhos. Aponto algumas razões para tal: fora de moda, não são modernaços no rótulo e podem ficar mal numa mesa. Depois qualquer pretenso enófilo pindérico, teso que nem um carapau, acha, na sua brilhante cabeça, que beber um vinho com este nome, com este rótulo ou por este preço (menos de três euros) é algo que quer esquecer, apagar com corrector. 


Por que para se ser respeitado, outros vinhos terão de se beber, mesmo que a carteira fique hipotecada. O interesse é mostrar o maior número de novidades aos amigos. Tipo galões ou medalhas. Quantas mais melhor.


Pois então, este vinho, um clássico do Dão das Caves de São João, surpreendeu e muito. Vinho fresco e tenso, seco e extremamente citrino. Vinho com elegância. 


É ligeiro, mas presente, com estilo. E tudo por meio tusto. Não estão contentes? Epá, eu estou muito. E digo mais! Até guardaria algumas garrafitas para ver no que dava. 

sexta-feira, Outubro 26, 2012

O Frei João, as Medalhas e o Pingamor

O Pingamor diz o seguinte aqui: "Quanto vale uma medalha? São muitos os vinhos que ostentam medalhas nas garrafas. Algumas delas parecem mesmo marechais mexicanos de tanto rótulo que lhes colam." É verdade, sim senhor. Acrescentaria, ainda o seguinte: Onde está o rótulo? Mais adiante, o mesmo Pingamor questiona a razão, porque o fez,  que levará, ainda, alguém comprar um vinho por causa de uma reles condecoração, vulgo medalha? Eu respondo. Eu! E ele, o Pingamor, apesar de negar, também compra. Todos os pindéricos consumidores de casta mais elevada.



Este vinho, das Caves de São João, apresenta uma medalha que diz o seguinte: Medalha de Ouro - Concurso: Os melhores vinhos da Bairrada. Diz, ainda, mais qualquer coisa: Confraria dos Enófilos da Bairrada. Uma, portanto, das razões que levou à sua compra. Mas não só. As outras foram: o preço estupidamente baixo (menos de três euros) e a percentagem avassaladora de chardonnay (cinquenta por cento do lote). Logo, medalha, preço e lote influenciaram a minha escolha.


E conclusões? Sobre a medalha, que é de ouro, nada a dizer. É por que a mereceu. O preço é um grande chamariz. O lote que é, no mínimo, curioso - Chardonnay (metade do lote), Bical e Maria Gomes (com quinze por cento) - tornam este branco muito citrino, bem ácido, muito seco e saudavelmente descomplexado.

quarta-feira, Outubro 24, 2012

Bairrada: Quinta das Bágeiras vs Quinta de Baixo

Foram vinhos, simplesmente, usados para acompanhar a comida, como tal vou afastar-me de pretensas odes à Bairrada e aos vinhos da casta Baga. É cousa de que se fala, quase, todos os dias. Acho que já o disse, se não o fiz, volto a fazê-lo. De um momento para o outro, meia dúzia de carolas, incluindo eu, começou a elevar aos píncaros as virtudes da região e da casta, a Baga. Curiosamente, esquecemo-nos que, no passado, diabolizámos ambos: a região e a casta. Memória curta, portanto.


Em jeito de overture, começou-se com um prosaico Quinta das Bágeiras, Reserva de 2005, segundo o que o rótulo dizia. Vinho bem composto, com carácter, maduro quanto baste. Depois, o extraordinário da cousa, outra vez, é o seu magnífico preço. Parece que é cousa para cinco euros. E ainda por cima, longe da mortalha

O acompanhamento foram umas simples bochechas de porco, bem estufadas, bem macias, bem apaladas. Naturalmente by Solar dos Pintor.

E porque os corpos ainda estavam insatisfeitos, reclamando por mais vinho, nada melhor que continuar na Bairrada. Sem meias medidas, pediu-se um Quinta de Baixo, também Reserva, mas agora de 2001. Por menos de dez euros, preço de restaurante, continuámos com a orgia bairradina. Vinho bordalês, perdoem-me os expert, saboroso, bem evoluído, também bem composto e também longe da mortalha.
Dois vinhos que souberam pela vida e que por tusto e meio, conseguiram dar (muito) prazer, fazendo parecer tudo tão simples.

domingo, Outubro 21, 2012

Soalheiro: Alvarinho ou Sauvignon Blanc?

Será, por certo, das maiores bacoradas que alguma vez pronunciei aqui nesta tarimba blogueira e como tal, acredito piamente que será momento de elevado grau de comicidade para quem estiver a ler o sermão de hoje. 

O dito
O nome que titula a homilia, como todos deverão saber, é respeitado entre vinhos brancos, na generalidade, e entre alvarinhos, em particular.


É, também, vencedor crónico de provas, concursos e actividades similares. Desejado e admirado por todos nós, sendo-lhe reconhecida a elevada relação entre a qualidade e o preço que custa. 

Alguns dos pares em competição.
O dito
A porca torceu o rabo para mim, por isso referi bacorada lá atrás, é que tal vinho confrontado com outros pares, também vinhos brancos varietais, foi baptizado insistentemente de Sauvignon Blanc, tal era, julgava eu, a quantidade de cheiros e sabores com sotaque francês que o dito exibia. Tinha que o ser, não podia ser outra coisa. A teima, que não era só minha, durou até à derradeira revelação do rótulo, caindo, então, sobre a mesa, uma expressão de desilusão, de desalento, o que seja: Era mesmo um Alvarinho e eu fiquei baralhado.

sexta-feira, Outubro 19, 2012

Fonseca Guimaraens 1984

Sou assumidamente um abécula no que respeita a vinhos do Porto, Moscatéis, Madeiras, Colares e outras coisas mais do género. Chumbaria, por certo, neste capítulo, se alguma vez, participasse num exame de enofilia ou quizz, como agora se diz.


Não percebo e, como tal, bebo apenas. Evito, deste modo, desempenhar papel de maninelo. Parece suficiente ou não?

Uma valente tarte de maçã made by As Colunas
No entanto, e sem qualquer reserva, atrevo-me a dizer que há muito não bebia um Vintage, com alguma idade, com tanto agrado como este.


Este Fonseca Guimaraens sugeria pertencer a uma linha mais vetegal, mais austera. E que mais deveria dizer? Hum...que bebi o copo todo e pedi mais um pouco. Pouco digno? Que seja, que seja.


quinta-feira, Outubro 18, 2012

Porquê?

Será, com toda a certeza, assunto com bolor. É tema de conversa, na certeza, que preferimos não discutir ou, na melhor das hipóteses, assobiar para o lado, enfiando as mãos nos bolsos. Nem queremos ouvir tal coisa. Queima.
Porque raios não pegamos em passagens de outros, não confrontamos as nossas opiniões publicamente com a de outros, porque não citamos argumentos com que não concordamos? Por que não?


Porque temos vergonha, porque vivemos no meio de uma paz periclitante, mal cheirosa, e sem coragem para dizer que não estamos de acordo. A discussão fica sempre por fazer, porque em PT discordar é o mesmo que não gostar de alguém, como tal arreda-se para o lado e fingimos que somos todos amigos. Doentio.

quarta-feira, Outubro 17, 2012

Câmara de Provadores TWAwine

É segunda edição da Câmara de Provadores TWAwine. Sem muito para dizer, ou melhor com pouco para acrescentar ao post do Wizard, apraz-me, ainda assim, referir que este ajuntamento, este grupo, esta câmara, que orgulhosamente pertenço, é o exemplo  puro e representativo em como a sociedade civil, sem conhecimentos técnicos, e sem qualquer cátedra enológica, pode junto de determinado produtor ou enólogo, discutir potenciais estilos ou experiências que eventualmente possibilitarão perspectivar outros caminhos, outras orientações.



A riqueza destes grupos é, assim sugere, a sua diversidade, a sua pluralidade o que per si é uma mais valia. Sem qualquer conhecimento de causa diria que é projecto pioneiro.


Para que conste nos preciosos arquivos deste blog digo-vos que foram discutidas três amostras de arinto da Quinta da Murta, da colheita de dois mil e nove, provenientes de cubas diferentes, apontando para uma abordagem (muito) pouco consensual e extremamente desalinhada, com níveis de acidez, secura e austeridade bem vincados. Puros ensaios extremados.




A segunda testagem acontece com mais três exemplos: Quinta da Murta (leveduras nativas), Quinta da Murta Clássico (com rolha sintética) e Quinta da Murta Clássico (com rolha de cortiça). Todos provenientes da colheita de dois mil e nove. O primeiro pareceu ser um puro Bucelas, fresco e citrino. Cheio de nervo e longe da mortalha. As outras, duas, curiosamente tamponadas de modo diferente, resultaram em vinhos curiosamente diferentes. O que possuía rolha artificial, talvez por sugestão ou sabe-se lá mais o quê, apresentava cheiros e sabores mais presos, pouco definidos, em contrapartida o da rolha de cortiça, baptizada por rolha natural, mostrava-se bem mais complexo, mais maduro, mais desafiante, com uma paleta de aromas e sabores bem mais alargado.


A aula terminou com os tintos da Quinta das Carrafouchas, apresentados num spot de três amostras (duas de dois mil e nove e outra de dois mil e dez): Uma com estágio de barrica, ocorrido entre trinta de Junho de dois mil e dez e dezasseis de Novembro de dois mil e dez; outra sem qualquer contacto com a madeira e apenas com um ano de vida em inox. Finalmente um engarrafamento, de dois mil e dez, só com Touriga Nacional. Não querendo entrar em análises descritivas extensas, julgo que não terão interesse para o caso, diria que gostei, muito, da pureza do segundo exemplar, encontra partida com a possível dureza do primeiro.



A surpresa foi, e para mim, pois claro, a Touriga Nacional. Limpa, fina, bastante delicada. Num estilo que não cansava, que apelava mais um copo, a mais uma cheiradela, a mais qualquer coisa. Foi, também para mim, vinho sério e (muito) bem conseguido. Eu apostaria nele.

domingo, Outubro 14, 2012

Terra Larga

As palavras que surgem pela frente são decididamente: assombro e admiração. Um vinho que que conheci, simplesmente, por causa das redes sociais, tal era o desconhecimento que possuía de tamanho objecto, acabando por cair sobre ele uma espécie de áurea de produto de culto.


Trata-se de um velho branco Ribatejano, da colheita de 1999, que combina o Arinto, o Fernão Pires e a Trincadeira das Pratas. Um lote bem português, sem qualquer tique estrangeirado.


A combinar com os excelentes petiscos do Solar dos Pintor.
Cor linda, apaixonante, que prende o olhar de um homem qualquer, ficando hipnotizado ou agarrado tal viciado. Com cheiros e sabores bem amadurecidos pela idade. Vinho para interpretar, desfrutar e sonhar. E por muita volta que dê ao (meu) texto, as palavras estão a sair forçadas e pouco dignas. Custoso.


Foi vinho que desapareceu num ápice, com uma velocidade estonteante, que se houvesse mais, bem mais, seria bebido sem qualquer constrangimento. E é simplesmente, como puderam reparar, vinho nacional e desconhecido. Apraz-me dizer em jeito de saudação: Que viva Portugal!

quinta-feira, Outubro 11, 2012

Chocapalha

Não é de todo normal, apesar da presumível, mas duvidosa, demanda por vinhos com alguma idade por parte das hostes enófilas, desculpem-me os seguidores mais fanáticos, surgir pela frente um vinho branco de dois mil e nove. Não é, ainda, habitual entre nós. 


É que entre o falar e o conhecer existe, pelo meio, apenas um conjunto de preposições debilmente sustentadas por uma carrada de pretensos conhecedores. A maior parte (de nós) não sabe o que é um vinho branco com (alguma) idade. Eu não sei. Imagino, apenas.


Vinho, da Quinta da Chocapalha,  que revelou-se muito especiado (de especiaria), de pendor bem outonal, apto para noites de brisa mais fria. Aconchegante e saudavelmente gordo. 


Vinho que se poderá beber (acho) simplesmente sem acompanhamento ou, porque não, com uma digna garoupa, ou outra coisa do género, assada no forno, banhada em azeite, cebola, alho, tomate e sei lá mais o quê. Imaginemos algo de sustento, untuoso e sem grandes malabarismos de confecção. Acreditem que irá resultar bem.

 

quarta-feira, Outubro 10, 2012

As Vindimas

Um regresso. Mais um. Nesta altura poucas palavras terei para acrescentar, mas adiante.


É simplesmente local que conheço (muito) bem. Ainda assim, por cada nova investida, há sempre um pormenor novo, qualquer coisa que antes não estava e que agora está. Não há, por assim dizer, um dia igual.

Um relógio de sol. O tempo felizmente não parou.

O passado decadente é imagem distante.

A adega preparada para receber as uvas.

Em plenas vindimas, o cheiro dos lagares, da uva esmagada pulverizava as cercanias. Na vinha, mulheres e homens em ritmo cadenciado iam colhendo as uvas: Baga, Alvarelhão, Trincadeira, o que fosse.

A labuta em redor da Vinha que é Velha.


Alinhadas à espera de bagos.

Tractor: o único meio mecânico presente e autorizado no meio da Vinha.

A selecção feita por mãos que sabem (muito).

A Tinta Roriz e o Alfrocheiro em lagar.

Trincaram-se bagos, sentiram-se as diferenças: uns mais doces, outros menos. Uns mais ácidos, outros mais neutros. Indiciavam, aqueles que vinham da Vinha Velha, boas perspectivas. Teremos, pois então, bom vinho.

Bagos maduros, de castas diversas.
Salta-se para a adega. Hora de prova, do que está em cuba, em casco, em depósito. O que houver. Os brancos estão, assim pareceram, mais tensos e mais frescos. Firma-se a ideia que serão no futuro vinhos menos polidos e mais austeros.

Promete.

Com cheiro inebriante.

Somontes? ou Passarella?
A Tinta Roriz, ainda vou ficar adepto, revelou-se pujante e fresca, com garra e com tanino. Aguardemos, pois então que fiquei com a pulga atrás da orelha.

Cor bonita, brilhante a mostrar nervo.
Fechou-se este ciclo, com um inusitado vinho rosé. Vinho precedente de Vinha Velha. Vinho que tentará ser diferente, a cambiar entre um palhete, um clarete e um tinto. Gosto do conceito, é sinal de risco, de inquietude.


Observem as cores. Basta olhar.
Acescento ainda: E deve o homem respeitar.

Aguardemos, agora, o desenlace desta colheita, com paciência e sem pressas.

terça-feira, Outubro 09, 2012

Vallado vs Vallado ou Sousão vs Touriga Nacional

A época enófila começou para o famoso, aliás famosíssimo e sem igual, grupo de Prova de Portugal. Espero que não haja qualquer dúvida nesta matéria. A parada é sempre alta e as discussões são sempre inconclusivas. O Núcleo Duro, voltou a reencontrar-se, às escondidas de tudo e de todos, no As Colunas, com o objectivo de sempre: comer e beber até mais não.


Por entre garrafas e mais garrafas, surge-nos pela frente um duelo bem interessante. Dois vinhos da Quinta do Vallado, da mesma colheita, mas de castas diferentes: Sousão e Touriga Nacional.

Pernas de pato brilhantemente assadas no forno. Pedaços de puro pecado.
Vinhos que emparelharam de forma quase perfeita com comida de pendor robusto e untuoso. Em tempo algum destoaram, morreram ou fartaram. Costuma-se dizer: que mais houvesse comida e vinho.


Dois vinhos que taco a taco marcaram a noite, longa, pela qualidade elevada, pela forma como prenderam a atenção. Um, o Touriga Nacional, mais consensual, mais trabalhado, mais objectivado, quiçá mais urbano. O outro, o Sousão, mais impositivo, mais duro, mais agreste, menos imediato. Mas ambos bons, muito bons.


Dupla, que tirando questões de gosto ou  inclinações pessoais (preferi por uma unha o Sousão), merecem destaque (o meu). A dica está dada.