quarta-feira, Março 30, 2011

Devassidão

Comida boa acompanhada por vinhos bons. O alimento tinha perfil tradicional. Galo, de porte altivo, assado no forno, aparelhado com arroz e batata. Temperos prosaicos, cozedura simples, meio a olho, mas com mão. Havia, portanto, a necessidade de empaturrar a barriga que coisas destas são raras. Pegaram-se nos nacos, levaram-se à boca, escorrendo gotas de um molho viciante. Calcou-se com pão. Uns espigos de grelo de nabiça, condimentados com alho, ajudaram a cortar a gordura. Gula e mais gula.


Puro cenário de opulência, de estroinice, de devassidão, cheio de diabretes devorando sofregamente e ruidosamente o bicho. Nada adequado a individuos susceptíveis.

Os vinhos, esses líquidos orgíacos, serviram para limpar a boca, lubrificaram as beiças, fazendo puxar por mais uma garfada. Avidamente foram sendo consumidos, um atrás do outro, como se não houvesse amanhã. Cada um melhor que o outro. Bom, gostei mais de um.

terça-feira, Março 29, 2011

Continuo sem nada, de jeito, para dizer!

E lá continuo sem nada de jeito para dizer. Por isso virem a página e saltem para outros blogs. Neste momento, e porque não surge nada de interesse no horizonte, sou incapaz de traçar uma única linha que valha. Depois não quero voltar a cair no pote dos indeferenciados e replicar o mesmo. É o preço a pagar por esta estranha forma de estar. Longe de tudo e de todos.

Fico-me, para já, com uma modesta indicação. Bebi há pouco tempo o Niepoort Vintage 1997 e pareceu-me, salvo erro ou lapso, preparado para ser apreciado e consumido, neste momento. E como a vida anda estranha e o futuro não augura nada de bom, vale mais ir toldando a mona por forma que a coisa não seja, e não fique, mais dura ainda.

quarta-feira, Março 23, 2011

Nada para dizer!

São apenas fotos. De que vale, a pena, estar a relatar descritores, mais ou menos, programados, comuns em tantos outros lugares? Já, agora, os bloggers PT deram conta da repetição de termos, palavras, expressões e vinhos que replicamos na rede? Tudo idêntico, sem destinção aparente, extremamente maçador e despido de qualquer profundidade. Por vezes, e às vezes, surgem à nossa frente provas de vinhos iguais, separadas apenas por exíguos segundos. Uma tola corrida. Eu vou publicar antes de ti! Já pensaram que, em muitos casos, soa a lixo!

Lembrei-me, agora, de outra: Fazem a mínima ideia de quantas pessoas compram vinho a partir dos conselhos que largamos aqui?

terça-feira, Março 22, 2011

Riesling segundo Niepoort

A actividade em si tem/teve a sua graça. Em breves minutos, e suficientes, colocaram-se, lado a lado, quatro riesling nascidos em território Niepoort. Para os amantes da causa, e do preceito, foram servidos às cegas (segundo alguns, a mãe de todas as provas - esta tirada faz lembrar um tal cacique que pontificava em terras do crescente fértil)  e em jeito de prelúdio para o que vinha à posterior. A título pessoal, serviu, de uma assentada, para perceber como estavam de saúde uma quadrilha de vinhos que ainda guardo em casa, religiosamente, até um dia dar na veneta e serem abertos, todos, sem controle e desenfreadamente, como se o mundo acabasse amanhã. Na verdade, dia após dia, vou dilapidando o meu parco espólio, a um ritmo nada consentâneo com a capacidade, actual, de reposição. Crise obligé!

Agora, só, para os aficcionados e dependentes de narrações, estados de evolução ou descritores, diria que tínhamos quatro vinhos, Projectos Riesling, que se pautaram pela elegância e harmonia. Líquidos, que grosso modo, estavam calmos, aparentemente equilibados e saudavelmente frescos. Um mais lácteo e com fruta madura (Dócil 2007), outros mais melados (Colheita de 2004 e 2005) . Outro, ainda, com carácter seco, mais terroso e mais austero (Colheita 2007). As diferenças, a bem dizer, não eram significativas. Meramente questões de pormenor e de gosto pessoal. E sendo assim, preferi o Não Dócil de 2007.

domingo, Março 20, 2011

Quinta da Pellada e Álvaro Castro

Período antes da Ordem de Trabalhos
E este bipolar blog teima em não encontrar o porto derradeiro, continua a navegar ao longe, mirando quezílias caducas, que vão desgastando os parcos recursos. O final, visto daqui, não será vanglorioso. Neste momento, o cheiro que circula indicia uma derrota humilhante. Findo tudo, sobrará apenas, e apenas, uma absurda sensação de vazio, de oportunidade perdida. Neste momento, solicito o levantamento de outros.

Ordem de Trabalhos
Ponto Único - Álvaro Castro
Após ter largado, não há muito tempo, palavras que aludiam ao distanciamento entre mim e o homem que meteu, posso dizer isto, o Dão a caminhar por outras veredas, sou surpreendido com uma sessão de vinhos da Quinta da Pellada. Oferenda de enófilo. Veio à mona os tempos em que passava horas de volta dos vinhos deste idealista beirão.
Percorreram-se cinco vinhos da colheita de 2000 e um da colheita de 1999. Uma viagem nostálgica a lugares que definhavam perigosamente na minha memória.

Belo Jaen de 2000. Mineral, pedregoso. Com fartas sugestões a terra, com flores. Um chorrilho de emoções e sensações vindas da natureza. Coisa lindaGrande Baga de 2000 que surgiu silvestre, amplo, fresco a mostrar, quase na perfeição, a simbiose entre o moderno e o clássico. Valha-nos Deus. Passo ao Pellada, continuo com a colheita de 2000simples e de lote. Difícil no começo. Duro, fechado. Aguerrido, másculo. Vinho para homem. Largava um miscelânea de coisas. Tabaco, café, lavanda, pimentas. Menta. Está para durar e ainda bem.

Viro-me, depois, para uns indecisos, estranhamente doces e banais Touriga NacionalTinta Roriz Estágio Prolongado, ambos de 2000. Irão morrer facilmente e sem glória. Termino sereno com um calmo e sedoso Tinta Roriz da colheita de 1999. Fiquei em paz e contente com a vida

quinta-feira, Março 17, 2011

Serenidade Alentejana

Entardecer tranquilo. A linha do horizonte ondulava suavemente. Estrada livre, desimpedida. Há que circular, chegar ao destino marcado o quanto antes. Um lugar algures no Alentejo. Os tachos, esses, estavam abastados de animais de penas. Fervilhavam, no meio do molho, largando no ar cheiros de mato e temperos. Soltam a gula dos homens. Cortam-se umas rodelas de queijo. Cabra e ovelha. Pasta mole, meia cura, curado. Nacos de pão de tamanho graúdo servem de base. Desembucha-se com um Antão Vaz.

O corpo prepara-se para o desenrolar da estória. Regressa-se ao fogão. Dão-se uns toques derradeiros, para a empada e para o arroz. Nada de grandes subtilezas, técnicas ou fusões. Ao estilo das avós, das mães, das tias. Apenas mãos despidas e senso comum.

Retorna-se ao vinho. Dá-se, agora, primazia aos tintos. Estilos diversos. Mais ou menos frutados, com mais ou menos madeira. Modernos e tradicionais. Escoltam uns dedos de conversa. Temas do povo, da vida que se leva e que não se leva. Desejos.

Ouve-se, finalmente, uma voz (feminina) a ditar ordem de sentar à mesa. Os homens, calados e obedientes, cumprem escrupulosamente a sentença.  Circulam pratos, rodopiam vinhos. Fala-se mais alto. São as mulheres, são os homens e as crianças. Todos querem dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto. É uma mesa com gente.

Lá fora, há muito que o breu caiu sobre o caiado das casas. Afundam-se as discussões e as polémicas adensam-se. Todos querem levar avante. Teimosos! Uns levantam-se para desimpedir mais uns gargalos. As gargantas secam e há que manter o corpo aquecido para a luta.

Outros, com um copo de tinto nascido na montanha, viram-se para as brasas, já definhar, e adormecem. Querem lá saber dos problemas.

terça-feira, Março 15, 2011

Xisto (Douro) 2005 vs Xisto (Douro) 2005

Exercício simples, proposto por um compincha de longa data. O mesmo vinho, proveniente de magnum, é servido, às cegas, a uma plateia de enófilos inveterados de duas maneiras distintas. Uma parte decantada, deixada a descansar durante uma hora, antes de ser servida. A outra metade aviada, também em decanter, mas sem tempo para sossegar.
Na primeira opção, surge um vinho amaciado, com fruta evidente, redondado. Com sugestões e toques a chocolate com leite. Fresco, limado na boca. Fácil.
Na segunda opção, aparece mais arisco, irrequieto, com mais aresta. Impressão a cera, forte. Fumo. Vegetal. Mais intenso, mais pujante e pujente. Musculado.

Um único vinho e duas faces díspares. Com uma vulgar decantação, mais ou menos prolongada, e temos a falsa sensação, ou não, que estão, ali, dois vinhos diferentes à nossa frente. Um simples acto e tudo se altera. Coisa gira, não é?
Para constar em memória futura, preferi, gostei mais do segundo modo  como se apresentou!

quinta-feira, Março 10, 2011

Alfebre do Mato Colheita Particular de 1937

É uma relíquia. Coisa que não conhecia. Um vinho branco, alentejano, datado de 1937. Basicamente uma curiosidade. O vinho, em si, é procedente de uma zona alentejana, Alcáçovas, sem grandes tradições, que eu saiba, na feitura de vinho. Só por este facto, merece alguma atenção por parte dos enófilos.

O líquido, esse, mantinha-se na garrafa, não foi provado. Eventualmente, seria uma experiência desoladora, capaz de quebrar, com demasiada facilidade, o simbolismo do objecto, reduzindo-o meramente a algo sem vida, sem cor, sem cheiro e sem interesse. Manteve-se, por isso, fechado, para que o misticismo perdure pelo tempo. Fica a foto.

domingo, Março 06, 2011

Detesto que façam isto!

Colocar numa mesa vinhos com pedigree díspares, com preços posicionados nos antípodas,  pode ser encarado, para muitos, como uma provocação, uma brincadeira de mau gosto e sem sentido. O risco da coisa correr mal é grande, porque à partida será uma peleja desigual, com um vencedor já talhado.
Mas nem sempre a coisa corre como o esperado. Por diversos momentos, apontei o dedo, isto é preferi os mais modestos. Coisa estranha, não?
Após uma lide, mais uma jogatana, sou confrontado com dois vinhos, do Douro, de valor pecuniário bem diferente. Um (Chryseia 05) destinado à nobreza, aos oligarcas, às castas mandantes e reinantes. O outro (Castello D'Alba 08), mais popular, é produto para o povo, maltrapilhos, para a gente suja e ruidosa.
Pois bem, o segundo, representante da plebe, jogou de igual para igual com o primeiro, embaixador da nobreza, sem dar sinais servilismo. A vitória do primeiro foi dura, ficando a sua honra manchada pela incapacidade de deitar ao chão o segundo. Foi por pontos.  Os espectadores, esses, ficaram boquiabertos e nada satisfeitos com o que tinham acabado de presenciar. Quem gosta de assistir a um espectáculo destes?

sexta-feira, Março 04, 2011

Château de Pressac

Vou armar-me em conhecedor e tentar internacionalizar, mais um pouco, este rochedo pregado no mar, frente à praia onde estão em animada conversa. Malditas ondas que não deixam ir ter com aquela gente. Eles parecem contentes. Entretanto, e enquanto o mar não acalma, mantenho-me no meio do escolho, orgulhosamente só. Luto comigo mesmo. Debato-me obstinadamente contra os meus diversos eu's.
Para falar do vinho, em causa, poderia começar com o terroir, e depois alongaria-me em enunciados replicados, mesmo que não soubesse o que estaria a recitar. Sempre dava um ar de entendido na matéria. Para ser franco, e devido à preguiça e desorganização pessoal, perceber vinhos franceses é coisa que parece ser hercúlea. Irra...Adiante.

Vinho, esse, é extremamente vegetal, com fortes impressões a lagar. Distante do habitué. Molhado, húmido, com pedra,  cheio de verde. Sem ponta de chocolate, sem cheiros de tabaco. Sem coco, despido de compotas. Perfumado por flores pequenas. Campestre no trato. Seco no sabor, espigado por vezes. Destinado a ser consumido junto de comida, forte, e por quem anda chateado com a normalidade. Simplesmente natural. Faltam, apenas, as perguntas inevitáveis: Que vinho é este? Não sei! É famoso? Não sei! Sei, apenas, que gostei. Simples, não é?