domingo, Fevereiro 27, 2011

Enólogo vs Enólogo, um jogo bipolar?

Se calhar o assunto já foi repicado, na enolândia, mas ainda assim não vou coibir-me de retornar a falar dele.
Um produtor tem o seu enólogo, que é homem simples, jovem e dedicado, cheio de ideais, pouco burguês. O sonho é fazer um vinho diferente, com o tal carácter, que marque o povo. Começa, paulatinamente, a ter sucesso com o trabalho que desenvolve. Ganha.
Ao lado, outro produtor pede a esse mesmo enólogo que dê uma mãozinha, que ajude a relançar os seus vinhos. O enólogo aceita o desafio. É sinal de reconhecimento, a que ninguém fica imune. O tempo caminha, o enólogo começa a ampliar a sua influência por diversos locais e lugares, por mais recônditos que possam ser. Faz vinhos aqui, além, mais além, no outro lado, perto, longe.

O enólogo, outrora desconhecido, agora famoso, julga-se o melhor, quase divindade enológica. Conseguirá, ainda assim, avistar o que anda a fazer? Empenhar-se-á mais num lugar, com determinado produtor, que noutro sítio e com outro patrão? Não andará a jogar contra si mesmo, como se estivesse só, num jogo de xadrez, rodando o tabuleiro, à medida que vai mudando de jogador? Quer ganhar ou quer empatar? Estará a lutar contra si mesmo? Terá produtores preferidos? Terá terroirs amados? Ou, apenas, se resume, e bem, a ganhar dinheiro? Coisa mais estranha, quase doentia.

sábado, Fevereiro 26, 2011

Bom Karácter

Tal como as pessoas, dizem que os vinhos podem ter bom ou mau carácter. Ou, digamos, com fraco carácter, para ser um pouco mais cordial. Continuando a ajuizar por alto, e meio à toa, são aqueles que revelam carácter maleável, facilmente manipulável, umas vezes dizem sim, outras vezes afirmam não, que impacientam e exasperam a alma deste sujeito atoleimado.

Aqui com os vinhos, Tinto Reserva de 2007 e Branco Reserva 2009, a balança tende, sem margem para dúvidas, para o segundo. E recordando o percurso da VDS, o seu portefólio, foram, quase sempre, os vinhos brancos que ganharam a minha estima e, porque não, a minha admiração. Continua, por exemplo, em posição de destaque no meu álbum de recordações enófilas, o Castelo D'Alba Vinhas Velhas 2003. Vinho intenso, edificado com uvas retiradas de vinhas com mais 70 anos, e que a débil memória não me atraiçoe, da zona de Freixo de Espada a Cinta (canto que foi parte importante da minha formação, da minha estruturação como homem).

Posto isto, apraz-me dizer que temos dois vinhos do Douro, está lá a sua marca, coerentes com a prática da casa. Bem trabalhados, de fácil empatia, consensuais e disponibilizados a preços cordiais. Aqui para o caso, e mais uma vez, o branco ganha o mano a mano com o tinto. Tem, efectivamente, Karácter mais forte.

Post Scriptum: Vinhos disponibilizados pelo Distribuidor. 

sexta-feira, Fevereiro 25, 2011

Poças (Porto) Colheita vs Vintage

Um Colheita (1994) e um Vintage (1991). Ambos sem grande história, sem grande coisa para contar. Simplesmente dois licorosos medianos. 

Ainda assim, acabou por ser uma vitória fácil, e sem oposição, do Vintage. O Colheita saiu completamente humilhado.

quarta-feira, Fevereiro 23, 2011

Touriga Nacional (Dão) vs Touriga Nacional (Douro)

Gosto de Touriga Nacional. Bom, gosto de saber que o vinho tem Touriga Nacional. Dizendo de outra forma, sou adepto da Touriga Nacional, e quando confrontado com outras castas, de olhos vendados, às escuras ou às cegas, lanço uns bitates sobre a matéria, dizendo que está ali um vinho com Touriga Nacional. São flores, é a bergamota, são os toques silvestres. A vegetabilidade presente ou ausente.

Soltam-se, então e sem controle, um chorrilho de lugares comuns, de conjugações, que no mínimo, soarão a tolice enófila. Porque também fico afectado por tiques de pseudo entendido no assunto em causa. Quem lê ou ouve, ficará completamente rendido com desmedida sabedoria. Simplesmente o rei do rua.

Ao fim de não sei quantas linhas (reparo que os meus textos andam muito reduzidos), encalho no propósito do enunciado. Uma jogatana entre dois Tourigas Nacionais, desculpem-me os anti-tn, que por uma razão ou por outra têm merecido alguma atenção por parte da populaça.

Exercício simples, nada de grandes preceitos e com regras simples: duas colheitas (2007 e 2008), duas regiões (Dão e Douro), dois produtores (Quinta das Marias e Quinta do Vallado), servidos à toa e, para os apreciadores da coisa, às cegas.
Dão mais austero, mais químico, mais terroso, mais vegetal. Com tanino vivo, mais irrequieto. Douro mais redondo, mais trabalhado, com menos arestas, mais moderno, mais adequado ao consumo na urbe e pelos urbanos. Findo desafio, a balança pendeu para o Dão. Que novidade!

Post Scriptum: Os vinhos da Quinta das Marias foram enviados pelo Produtor.

sexta-feira, Fevereiro 18, 2011

Barão de Nelas, a arte de apaziguar!

Semana encerrada. Foi dura, atribulada, cheia de enviesamentos. Abastada de truques perversos. Malvado jogo que não tem regras limpas, claras. Vivemos uma guerra de atiradores furtivos, que não disparam olhos nos olhos. Abatem por trás, covardemente.
Cai, bendito, o vinho no copo. Amacia o corpo golpeado, relaxa o espírito, adormece a dor. Desperta, atiça outros estados. Faz-nos ver que a vida pode ser doce, melodiosa.

De mão dada, o vinho leva-me por cantos e recantos decorados, discretamente, com flores, com muitos apontamentos vindos da natureza. Pura! Sem manipulações, sem estradas, sem o digital, sem a fibra, sem plástico. Um suspiro, um cerrar de olhos! Tudo tão simples, tão simples. Correndo o risco de reincidir mais uma vez, digo que andamos tão distante destas coisas. Estoiramos os poucos minutos, as poucas horas, a pouca vida que temos, em volta de matérias sem sentido. Estupidez!
O vinho, esse, foi desaparecendo da garrafa e do copo, sem que alguém desse por isso. Findo, a saudade acentua-se, faz desesperar.

Post Scriptum: Vinho disponibilizado pelo Enólogo.

quarta-feira, Fevereiro 16, 2011

Quem é ele?

É o reduto de um produtor. É o local onde idealiza as próximas tiradas, onde magica no que vai fazer na próxima colheita. Da cabeça dele saíram alguns dos vinhos mais marcantes da minha vida como enófilo. Durante muito tempo, segui-lhe todas as pegadas.

Dobrado o ano de 2000, e sem qualquer razão aparente coloquei de lado, fui esquecendo, quase desprezando, o que surgia das mãos deste homem. Parecia que, eu, andava meio desencantado. Suspirava pelas colheitas antigas, aquelas dos anos 90, do século passado. Vinhos para aprender e ensinar, por vezes ingénuos. Em alguns casos, autênticos produtos da natureza. Francos, duros e de feição camponesa.

Agora, e apesar da distância que ainda existe entre mim e os vinhos dele, é impossível esquecer o papel que desempenharam na sua terra. Outros, depois, começaram a correr atrás.

segunda-feira, Fevereiro 14, 2011

Campolargo (Bairrada) Cerceal e Pinot Noir

Vinhos provados e bebidos, porque não, com enorme satisfação. Digo, lá do alto da minha sobranceria e sapiência, que estão aprovados e com distinção. Merecem, ambos e sem qualquer margem para dúvida, entrar no quadro de honra de qualquer enófilo.
Dois vinhos que devem ser falados e consumidos pelo povo. Um é branco, cimentado com Cerceal (mais Bical e Arinto). Sabores e aromas fortemente vegetais. O tinto, edificado com o Pinot Noir, revela-nos que é, ainda, possível criar vinhos diferenciadores e prazenteiros.

Resta-me, por ora, dizer que temos aqui um verdadeiro filão enófilo, digno de ser explorado até à exaustão. Comprem, em quantidades razoáveis, e bebam.

sexta-feira, Fevereiro 11, 2011

Peleja Enófila!

Dou o mote: proponho, como anfitrião, uma peleja enófila!

Um encontro, com padrinhos a escolher por ambas as partes, em local aceite por todos. Um frente a frente, olhos nos olhos, sem pudor e sem receio. De peito aberto.


Objectivo: Discutir face a face todas as diferenças que existem na Blogosfera! Quem perder, paga a conta!
QUEM ESTÁ INTERESSADO?

quinta-feira, Fevereiro 10, 2011

Saudades do Dão

Malvadas saudades que tenho da terra. Estou há demasiado tempo sem cheirar o ar. Sem sentir o movimento em volta do corpo. Ele é diferente. Ele tem outro sabor. Ele é mais intenso, mais rude. Faltam-me os odores e as cores do sítio. Começam, desgraçadamente, a sumir-se das minhas memórias. Os espaços em branco são desmedidos, tal fotografia amarelecida.

Coriscos para isto, apetece-me desprender-me de tudo, largar a urbe, a polis, despir esta roupa cortesã e retornar ao meio da tribo. Eles continuam pacatos, serenos, vivendo segundo regras diferentes. Beber o vinho da terra, cortar, de forma grosseira, a tripa ensacada com carne. 
Por enquanto, vou alimentando esse desejo, que consome, com cenários captados pela máquina ou metendo na goela largos e pujantes tragos de vinho. Recordam-se da simplicidade? Facínora! Deixa-me despojado de palavras. Nunca pensei que pudesse ser coisa com nobreza.

Post Scriptum: Vinho oferecido pelo Produtor.

quarta-feira, Fevereiro 09, 2011

Padrões, não científicos, da blogosfera, por TWA

Para ler e comentar sem rodeios, sem medo e sem pudor, aqui. Eu, parte integrante, concordo e assinei por baixo.

Continuo acreditar que é por dentro que as mudanças acontecem. É pela necessidade, ou não, que se renova a vida. É quebrando, chocalhando que colocamos a descoberto as diferenças, as mais variadas formas de ver o problema. Ataquem, disparem, ribombem!

terça-feira, Fevereiro 08, 2011

Quinta do Noval Colheita 1968

Tawny seco, cortante. Fruto seco, grão de café, iodado, levemente vinagrado. Porto que serve para acalmar a alma, o espirito desinquieto. Espírito e alma desassossegados, sem rumo e desnorteados em travessia pelo mar revolto. Onda para cá, onda para lá. Rocha aqui, rocha acolá.

Metem-se mais uns goles no bucho. Auxiliam a passagem, ajudam a transpor tormentos. Ao longe ribombam, sem norte, os canhões. As canhoeiras, essas, navegam quase sem governo. Formam-se alianças. Arremessam umas às outras beijos de fogo. Horizonte em flamas. A minha tripulação espera por ordens. Que fazer!? Partilhar mais uma soberba concha daquele vinho e seguir em frente.

domingo, Fevereiro 06, 2011

Sideways e Pinot Noir

Não vou pôr-me a falar de assunto que não sei. O que interessa para o caso, agora, é constatar que um simples filme consegue influenciar, mexer com o consumidor de forma mais inesperada. Repeti, mais uma vez, o visionamento do Sideways e, a dada altura, vi-me cercado por um forte impulso, por uma enorme pressão consumista. Estava a sofrer do Efeito de Contágio. Tinha que pegar num copo, para rapidamente acalmar o vício e para isso precisava de desencantar qualquer coisa que me colocasse no meio daquele enredo que estava assistir.

Não sou versado em Pinot Noir, já que as gotas que provei são infimamente pequenas para poder largar mais umas babelas, por aqui, e não sei se este da Casa do Cadaval espelha fielmente os genuínos, os legítimos vinhos francófonos. Sendo assim, resta-me falar dele como se tratasse de um simples vinho português. E partindo desta premissa, apraz-me referir que temos aqui um tinto, do Ribatejo, de carácter seco, com forte impacto vegetal e em que a fruta surge, nas ventas, fresca. Sugere, ainda, que fica bem junto de comida e eu simpatizei com ele. Posto isto, bate certo? Ou está desfocado?

sexta-feira, Fevereiro 04, 2011

Casal Branco (Ribatejo)

Sou tradicionalista na abordagem aos vinhos. Olho, reparo muito, para o lado mais cultural, para a face mais terrena, mais humana da enófilia. Assumo, perante o público, que não aprecio grandes mudanças. Acho, em termos genéricos, que cada região deve ter um registo próprio, um modo de pensar exclusivo, sem repetição, sem clones. Com isto não quero dizer que pensamentos e actos fiquem estáticos, enclausurados por regras, por pressupostos, deslocados de qualquer sentido de realidade ou qualidade. 

Acho, sou eu achar, que neste jogo em que participamos, deve haver alguém que seja capaz de domar a loucura que se instalou no meio dos enomaníacos. A facilidade em seguir em frente, a leviandade com se escolhe qualquer coisa nova é tão veloz que não deixa espaço (penso na loucura que existe em redor dos vinhos estrangeiros) para olharmos para outros vinhos, nossos, merecedores de outro cuidado na abordagem.

Ribatejo, desculpem-me os pregoeiros do Tejo, é terra que aprendi a gostar. Vivo paredes meias com ela. Basicamente sou, agora, influenciado por tradições, por hábitos bem diferentes dos meus. É porção de terra, a par do Dão, que tento compreender. Quero perceber as suas idiossincrasias, o seu modo de actuar. É, segundo crenças próprias, sítio certo para nascerem vinhos com perfil muito próprio. Os brancos serão, porventura, um dos seus maiores engodos.

Falcoaria, branco cimentado na casta Fernão Pires, é puro exemplo de vinho com personalidade, com estirpe distinta, meio afastado de conceitos baseados em imediatismos. Austero, duro por vezes, seco e pouco dialogante. Levemente envelhecido, vagamente tocado pela oxidação, oferecendo um conjunto de sensações sóbrias, pouco dadas a exuberâncias sem sentido. Provem!

quarta-feira, Fevereiro 02, 2011

Anima, a diferença continua a existir!

Fala-se à boca cheia que o povo enófilo, aquele que se julga mais encartado, mais douto que o resto, anda enfastiado de vinhos iguais entre si, sem alma (definição complicada para os não crentes em ciências religiosas), sem terra (conceito complicado, dado que a vinha que se conhece não assenta em água ou atmosfera). Depois roga-se, aos prantos e de joelhos, que produtores e enólogos façam qualquer coisa o mais desavinda possível. Sem respostas, muitos viram-se para os vinhos estrangeiros, como se tratasse de terra prometida, tal Moisés ao chegar a terras de Canaã. O vinho nacional passa, então, a ser produto sem pedigree e dominá-lo não é garante de conhecimento enófilo, porque ele é igual entre si. É, simplesmente, mais uma meada que precisa ser desemaranhada.

Independentemente do que está acontecer na vinolandia portuguesa, nunca é de mais apontar ao tal povo que existem homens capazes de criar, construir, oferecer vinhos diferenciadores, que proporcionem um agrupamento de estímulos, de comoções, deslocados da tal realidade padronizada, que no passado desejámos, e que tantos agora apregoam ser maldita. Por isso, teimo. Quem são os maus? Quem são os bons?
Sem qualquer pudor, e com toda a parcialidade que se pode exigir, volto a indigitar o Anima L4 como um dos vinhos mais desconexo, e sem paralelismo, que se vai fazendo por aqui. Após o hiato que foi o L5, mais mundano, o L6 e L7 regressaram ao estilo do primogénito. Merecia sair, com todas as honras enófilas, da penumbra a que foi, estranhamente, submetido. Posto isto, vou verter mais uma porção para o copo.