sexta-feira, Dezembro 31, 2010

Abrunhal, o Espumante Tinto da Serra!

P'ra fechar o ano, pra deixar este ano de 2010, p'ra começar o novel ano de 2011, brindo com vocês com um espumante tinto do Dão, da sub-região da Serra da Estrela. Diria que é, de grosso modo, um produto regional, focalizado para o consumo das gentes locais. Um espumante com comportamento rural, de aparência campestre, próprio para ser bebido no campo, com comida de tacho e panela. Comida grossa, sem requintes urbanos e pós-modernistas que malfadamente proliferam na urbe maior. Ao fim ao cabo, são prazeres que procuro incessantemente, com o intuito de interpretar as raízes.

O vinho, em causa, fora desta envolvência, estou defronte à lareira com as montanhas nas costas, perde carácter, personalidade. Fica descontextualizado. É para ser bebido aqui e não noutro lugar. Será, assim, melhor interpretado, melhor compreendido. Um puro exemplo de etnicismo enófilo.

Post Scriptum: Este produtor foi, em tempos, sócio da Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazem e alguns anos atrás tomou a opção de seguir um caminho autónomo, com a ajuda do enólogo bairradino Rui Moura Alves

terça-feira, Dezembro 28, 2010

Des-Construção, Re-Alinhamento

Ultrapassados meses após as últimas alterações, efectuadas no Pingas no Copo, surge novamente no meu horizonte vontade de proceder a novos alinhamentos. São sinais, espero, de amadurecimento, de crescimento. É, também, o fim da inocência, é a chegada da idade adulta.
Por cada dia que passa, por cada mês que avança, as dúvidas evoluem, crescem, aumentam alucinadamente. Não consigo ter, agora, certezas de quase nada.
Reflecti, nos últimos dias, sobre o papel da blogosfera e a importância que este prosaico espaço desempenha na eno-rede. Contas feitas e encerrados inúmeros dossiers, chego à saudável conclusão que tudo se resume a uma questão de ego e egocentrismo. E ambos são inversamente proporcionais à dimensão do Pingas no Copo
Basicamente o Pingas no Copo tem sido uma montra de vaidade pessoal, de estimulação enófila, usado para alimentar a soberba voraz de um homem que se senta por detrás da tela.
Irei, entretanto, abandonar as classificações. A sua importância, neste momento, é nula, reduzida. O seu valor, para mim, é desprezível. Tentarei, assim, reforçar o jogo de palavras, das simbologias usadas, das comparações, do meu gosto pessoal. Pretendo, ainda mais, intensificar a vertente individual, tentando escapar à enganosa sensação profissionalizante que caiu sobre este lado da barricada.
É necessário amadurecer e ponderar sobre o que andamos a fazer neste mundo digital, cheio de malhas sociais. O que interessa saber se um vinho vale X, X+0,5 ou X+1? Defende-se, recitando, que as classificações servem como bússola íntima. Porque não ficam, então, na intimidade?
A confusão é gigante, dada a quantidade de notas e classificações circundadas pelas mesmas vedações. É muita gente a jogar de igual maneira, usando estratégias equivalentes, a lançar a bola para o mesmo lado. O centro do terreno enófilo está, portanto, muito lotado. Há que procurar novas porções de terra desocupadas.
Espero, durante o próximo ano, continuar a viver esta paixão de forma mais livre, dizendo o que penso, o que acho e o que desejo neste fortim! Quero fazê-lo de forma ligeira, com menos fantasmas, mas inflamada, tentando ainda cortar com velhas teorias da conspiração.

segunda-feira, Dezembro 20, 2010

Quinta das Marias (Dão) Rosé 2009, porque não um Rosado de Inverno?

Não será certamente prática usual ou tradicional pegarmos em vinhos rosés em épocas chuvosas, com o frio a bater nas ventas e na porta ou, se em Portugal, a entrar por todas as frestas e fisgas que pontificam pelas nossas casas. O tempo exige algo com mais substância, com mais corpo, bem mais completo que um simples rosado.
Pois bem, um rosé estruturado, com grau elevado e bebido à temperatura ambiente, estamos no Inverno, ou levemente refrescado poderá tornar-se numa curiosa aventura enófila.

Um rosado bem carregado na cor, com a componente vegetal pujante, de trato meio rústico, levemente camponês pode propocionar alguns duetos eno-gastronómicos dignos de ficarem registados na memória. E já que estamos na época natalícia, porque não experimentar com bacalhau cozido? O carácter seco deste tipo de rosados irá entrelaçar-se bem com a gordura do bicho. Aventurem-se que existem rosés para além do Verão.

Post Scriptum: Vinho enviado pelo Produtor.

domingo, Dezembro 19, 2010

J.P. Roxo

Vale pela curiosidade. É um licoroso. Tentei perceber a sua idade, mas não tive qualquer pista. Assim, resta-me solicitar à rede ajuda na tarefa. Pelos dados, fáceis de encontrar no rótulo, será, eventualmente, um Moscatel Roxo ainda do tempo da existência da J.P. Vinhos S.A. - Pinhal Novo.

Interessante, ainda, é observarmos que não refere a menção Moscatel de Setúbal, ficando-se apenas pelo atributo Vinho Licoroso. Razões?

quarta-feira, Dezembro 15, 2010

RAYA

Vem da Beira Baixa, Cebolais de Cima, de uma região com fraca tradição vitivinícola, o que torna este pequeno projecto, fundado no ano de 2002, numa peleja desafiante, tal é a ordem de contrariedades, com a falta de reconhecimento da região, por parte do consumidor, a tomar a dianteira.
Escolheram-se as uvas das castas Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz que foram fincadas, seguindo os preceitos da agricultura biológica, numa única parcela de vinha (1,5 ha) assente em solos de encosta, xistosos e com exposição a Sul.

O vinho, com um nome a orientar-nos para regiões junto à fronteira portucalense-castelhana, mostra carácter franco, descomplicado e aprazível. É limpo e, se me permitem o abuso, cristalino. A fruta apresenta-se sem máscaras e sem artefactos. Oferece-nos, simplesmente a natureza. Madeira bem enfiada, sem sobreposições. É um vinho de vida, para a vida e para ser vivido. Tudo apresentado de forma tão simples e verdadeira.
Ao fim ao cabo são estes pequenos achados que vão animando, por momentos, esta enfadada enofilia. São o resultado da abnegação de uma mão cheia de ideólogos que vão criando vinhos em lugares mais ou menos obscuros, longe da vista de todos nós. Ainda bem que o sonho comanda a vida. Ainda bem!

Post Scriptum: Vinho enviado pelo Produtor.

segunda-feira, Dezembro 13, 2010

Simplesmente, deixaram esta vida!

Dois Portos.  Um Late Bottled Vintage e um Vintage. Ambos com respeitável idade. Se no primeiro o factor idade podia influenciar negativamente, no segundo não era provável, de todo, que fosse factor decisivo. Havia, justificadamente, esperanças.

Ficou a ideia, no entanto, que ambas as garrafas resguardavam vinhos que há muito tempo deixaram esta vida. Naturalmente o desapontamento foi maior no segundo, com as expectativas completamente defraldadas. Restavam apenas vagas lembranças do que podiam ter sido no passado. Simplesmente, estrelas caducas, dignas do cinema mudo.

quinta-feira, Dezembro 09, 2010

Cossart Gordon Madeira Bual 1969

Estou rendido, absolutamente siderado. Por cada trago, a dependência aumenta de forma exponencial. Sem qualquer dúvida, da minha parte, diria que os vinhos da Madeira matam homens, passam por eles, de forma altiva e afirmativa. São um puro exemplo de engenharia enológica, de manhas, de técnicas, usos e costumes aparentemente descabidos.

Os vinhos, esses estranhos, sofrem tormentos, verdadeiras amarguras enquanto são delineados e pensados na adega. Nenhum outro vinho, dito de forma ligeira e simplória,  passará pelo mesmo sofrimento. Ficam, deste modo, preparados para a vida, para aguentar a inclemência do tempo. Surgem-nos, passados anos, como a pele esticada, brilhante, viçosa, sem qualquer ruga e sem qualquer sinal de decadência. Procurar cheiros e sabores é tarefa inútil e despropositada. Sem qualquer sentido. Resta-nos, apenas, assumir a nossa inveja mortal!

quinta-feira, Dezembro 02, 2010

O Pingus gostou mais destes! (Os eleitos de 2010)

Mais uma pequena selecção de vinhos que partilho com vocês. É, como tem sido sempre, uma mera e vulgar lista constituída por vinhos que obtiveram classificação superior a 17. A publicação deste cardápio serve, apenas, para memória futura do blog e para, também, alimentar o meu insaciável Ego. Qualquer tentativa de extrapolação está, ou estará, fatalmente tolhida de sentido. Existem outros assuntos bem mais interessantes em que vale a pena perder alguns minutos. Não aqui! 
 
Quantos aos critérios, tal como nas selecções passadas mantêm-se os mesmos: quase nenhuns. Não são tidos, nem achados, mais uma vez, outros vinhos que eventualmente bebi ou que vocês beberam. Não teria, mais uma vez, qualquer sentido mencionar nomes que não foram falados e/ou não foram classificados no Pingas no Copo. A tendência em classificar vinhos tenderá, no futuro, a ser desvalorizada. 
Sobre os vinhos em causa, como costumo dizer, em alguns casos se os voltasse a beber a minha opinião poderia ser, eventualmente, outra. Reflectem, meramente, o momento. Nada mais. Tal como nos outros anos, cada vinho tem um link para o respectivo texto.

Douro
Redoma Reserva Branco 2005
Abandonado 2004
Quinta do Noval Labrador Syrah 2007
Dona Berta Vinha Centenária Reserva 2008
Dona Berta Vinhas Velhas Rabigato 2008

Dão

Alentejo

Estrangeiros

quarta-feira, Dezembro 01, 2010

Myrtus, o esquecido

Num acto de contrição pública, assumo que ando constantemente desalinhado do grupo e dos grupos. Maldito hábito, desde tenra idade, em preferir, talvez por questões de romantismo ou heroísmo sem sentido, o lado mais fraco, ou aqueles que andam esquecidos. Eventualmente, esta propensão terá uma interpretação bem mais prosaica, bem mais simples do quero fazer querer ao mundo.
Com os vinhos passa-se o mesmo. Escolho amiúde aqueles que não caiem no goto dos restantes. Inaptidão? Alienação? Senso pessoal deslocado da realidade? Será tudo.

Myrtus será, com toda a probabilidade, mais um vinho que andará, incompreensívelmente, abandonado pelos cantos deste mundo. Os olhares estão, inexplicavelmente, virados para o Clássico. Sem o merecer. São dois vinhos com estilos díspares, é certo, antagónicos, com pouco em comum. O primeiro, o Myrtus, é vinho mais austero, menos exuberante, menos imediato. Fala menos, desafia mais. Um branco com maioridade, orientado para um consumo lento e nada frenético. O segundo, o Clássico, rege-se por outras cantilenas. Com lingotes de doce. Será da madeira exacerbada? Opulento, gordo. Incomodativo, por vezes.
Venha, portanto, o Myrtus que ficarei satisfeito e o mundo continuará a rodar como sempre. Em volta do Sol.

Post Scriptum: Vinhos disponibilizados pelo Produtor.