terça-feira, novembro 30, 2010

Malvasia de Colares, segundo Casca Wines

Será ou já o é, com toda a (in)certeza pessoal, um dos vinhos brancos mais desavindos, desusados que provei neste ano de 2010. Provém do Universo Casca Wines, um produtor jovem, com gente jovem, que faz vinho com uvas de quase todo o lado. Diria que são ariscos, mexidos e frenéticos.
A produção, deste Malvasia, apesar de exígua, quase holográfica, consegue proporcionar-nos alguns momentos de saudável convívio. Momentos em que o timbre da conversa passa ao lado da normalidade habitual. Não será certamente amado por todos. Creio, até, que terá mais gente a desapreciá-lo do que apreciá-lo. Mas para mim, e para os meus botões, é irrelevante. O meu estado de espírito enófilo alinha junto daqueles, provavelmente poucos, que encontram muitas qualidades neste Malvasia de Colares.

É um vinho que pede por copo amplo, é um branco que pede tempo, necessita de ambiente selecto, distante de frugalidades pós-modernas. Bem evoluído, com o álcool baixíssimo: são 11,5% de graduação alcoólica. ProvocatórioVeste rótulo simples, arrumadinho, limpo e arejado. Sem, e ainda bem, adornos desnecessários. Tem, no entanto, um senão: o preço a que é vendido. Os 30€ pedidos por este protótipo afastam inevitavelmente potenciais interessados. Infelizmente nada, ou quase nada, é perfeito nesta esfera terrestre.
O que interessa, para o caso, é constactar que temos aqui qualquer coisa que foge a todos os preceitos modernos, em que a barrica usada não é nova, e em que finura e equilíbrio definem bem o modo de ser deste Colares. 

Post Scriptum: Vinho disponibilizado pelo Produtor.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Desilusões

E quando pensamos que temos um vinho que, durante anos esteve a enriquecer na garrafa, a refinar, a evoluir com dignidade, esperando calmamente pelo fatídico momento em que irá ser extinto?
E quando reparamos que todo aquele trato, toda aquela espera resultou em nada, dando meramente originem a um líquido amorfo, sem cheiros, sem sabores, sem histórias para contar? 

A ira acerca-se de forma violenta e bruta. Ficamos irascíveis, possessos por ver que o vinho que estava dentro daquela garrafa não mereceu nenhum dos carinhos dados ao longo da sua vida. Estupidez a nossa.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Deboche Enófilo

Existem dias, horas, minutos de pura devassidão enófila. São momentos em que as badaladas provas cegas não deviam contar, nem interessar. Deviam ser afastadas para bem longe da vista. Deviamos beber os vinhos e comer os rótulos. Ambos sabem bem, demasiado bem. Quando assim é, a estroinice é imensamente grande, quase opressiva e irrecusável para andarmos alucinadamente à procura de quem é quem. Uma perca de tempo. Quem consegue virar a cara, simulando que não quer beber às claras? Corremos o risco, no fim, de divagarmos, inutilmente, sobre a razão do estado de saude dos vinhos.

Existem, de facto, vinhos que não devem ser bebidos às escuras. Perde-se metade, se não totalidade do prazer. São ícones. Tapar-lhes a cara é o mesmo que compará-los a algo de trivial, ausente de culto e desejo carnal. Somos homens, caçadores de troféus. Gostamos de mostrar ao povo os despojos de uma longa lide. No fim, e apesar do cansaço ser imensamente grande, sobra uma enorme satisfação. Provas cegas, sim claro, mas com a dose certa e com sentido.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Caves de São João (Beiras) Reserva 2007, a confirmação do Renascimento?

Nota-se algum tempo a vontade e o querer de voltar a nascer, de regressar ao mundo dos vivos. Percebe-se, pelo que vamos lendo nos escaparates ou pelos comentários de quem os visita, que as Caves de São João mostram desejo em tornar a serem faladas pelo povo. Perceberam, as Caves, que viver  dos lucros e glórias do passado acabaria por acentuar o esquecimento e a sua decadência. Nada volta a ser como era.

Num relance observo que estão, também, a mudar os rótulos. Não perderam o classicismo. São sóbrios, quicá, longe da urbanidade. Sem tiques de pós-modernismos sem sentido e sem lógica. Gostei francamente.
O vinho, uma combinação de Baga da Bairrada com Touriga Nacional do Dão, tenta recriar no presente, perspectivando o futuro, quiçá, os Reservas que tanto enófilo recorda com nostalgia.

É um tinto fresco, cheio de  humidade, com fartas sugestões de terra molhada, com muito mato. Com cheiros de flores, com a fruta suculenta coberta por um pouco de fumo. Um toque de pedra dá-lhe rusticidade. Tosta muito suave, baunilha discreta. Depois é curtir e não pensar nos imbróglios da vida mudanda.
Paladar seco, certo e sincero. Nada de esmagamentos ou impressionismos. Feito para acompanhar, estar ao nosso lado, sem protagonismos. Que saudades disto.
Enófilos de outras eras, se andais cansados da moda, juntai-vos em redor deste tinto. É, efectivamente, um clássico renascido. Nota Pessoal: 16,5

domingo, novembro 21, 2010

Quanto custa um vinho?

Eventualmente este post servirá para pouco, no entanto seria útil que alguém passasse por aqui, mesmo de relance, e partilhasse o seu ponto de vista, lançasse hipóteses, esclarecesse, se conseguir, a plebe.
Num acto normalíssímo de consultar, pela manhã, a correspondência electrónica, deparo-me com o preço, alto, de um vinho, que apesar de reconhecer-lhe elevada qualidade, pareceu-me algo despropositado.
Perante tal confrontação sou assaltado por uma enxurrada de dúvidas e nenhumas respostas. Faltam-me dados palpáveis, que permitissem concretizar e limpar, de uma vez por todas, algumas das crenças falaciosas que vão ganhando raízes no meu paradigma enófilo.

Como se constrói o preço de um vinho? Que é preciso para que determinado vinho custe X, Y ou Z? Seguindo uma abordagem perfeitamente ligeira, e sem qualquer sustento argumentativo, diria que um produtor, um distribuidor, uma loja terão que pensar em meia dúzia de factores, como a história do vinho, o número de colheitas, o rótulo, a garrafa, a rolha, o estágio, ... , os outros competidores, internos ou externos. Um sem número de variáveis que não consigo quantificar. Quanto custa, por exemplo, uma vinha? Quanto custa a manutenção dessa mesma vinha? A mão de obra? As ideias quanto custam? O Ego quanto custa? O nome da região demarcada entra neste jogo? Será por isso que o Douro e o Alentejo sofrem cronicamente do síndrome do preço alto? Será por isto que em outras regiões, menos badaladas, comecem a expelirem, timidamente é certo, vinhos a preços elevados?

Não quero crer que propor, simplesmente, um vinho a valor elevado seja uma estratégia importante para conseguir crédito, fama, respeito perante os seus pares e sucesso comercial. É, mesmo, necessário para um produtor ou outro sujeito qualquer ter no seu portefólio um produto caro? Não quero crer que exista gente a viver, ainda, segundo aquela lógica arcaica: eu tenho o melhor vinho do mundo.

quarta-feira, novembro 17, 2010

Vinhos do Dão

Será, de certeza, o post mais promocional alguma vez escarrapachado neste Blog. Na verdade, o caminho feito pelo Pingas no Copo, resume-se à promoção de vinhos bem ou mal amados.
São seis vinhos do Dão. São seis vinhos do Dão que custam ao consumidor menos de catorze euros. São vinhos que andam longe das tribunas, caminham afastados das escolhas mais imediatas e que, apesar desse distanciamento, revelam ser capazes de proporcionar prazer, a baixo custo, oferecendo alguma diferenciação, algum carácter, alguma identidade.

Quinta de Nespereira Vineaticu 2007, Quinta do Escudial VV 2006, Quinta da Ponde Pedrinha VV 2007

Pedra Cancela Touriga Nacional 2008, Vinha de Reis Wine Note Touriga Nacional 2008
São outro olhar, outras maneiras de ver o vinho do Dão. Uns são vegetais, outros mais rústicos, outros mais clássicos, outros são simbióticos. Uns com madeira, outros sem. Ajudam-nos a compreender melhor o trabalho árduo que alguns jovens enólogos vão realizando, isoladamente, em algumas pequenas aldeias irredutíveis lusitanas, no meio de um vasto Império Romano acossado pela globalização. Foram provados, desculpem bebidos, e farão parte da minha garrafeira.

sábado, novembro 13, 2010

Coitado do Consumidor!

Consumidor, esse ser indiferenciado e influenciado pelos críticos, que pouco ou nada pensa e que, sistematicamente, é manipulado por esse bicharrão chamado Sistema. Escondem tudo ao consumidor, fazem-lhe trapaças. Enganam-no.
Coitado do consumidor que não pensa convenientemente. Malditos aqueles que insistem em não divulgar a verdade, em não revelar a realidade. Mas quem quer?
Preverso este mundo, empaturrado de homens de negro encarregues de, à mínima suspeita, impor o silêncio aos que corajosamente arriscam gritar contra os dogmas do Sistema.

O consumidor, esse papalvo, olha para os dois lados da barricada e pressagia que se trata de uma contenda, simplesmente, entre dois Sistemas. Nesse duelo, por vezes combinado, a regra é simples: Um quer fingir substituir o outro, mantendo o consumidor bem longe do poder. Pelo meio, terra de ninguém.
Revoluções? Há muito que o consumidor deixou de acreditar. Crê, antes, na individualidade.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Bétula Regional Duriense Colheita 2009

Segunda edição deste vinho branco regional duriense (Viognier & Sauvignon Blanc). Segunda tentativa para mostar o que vale. A primeira, a título muito pessoal, ficou aquém do desejado. Algo incerto, indeterminado. Depois, ainda, pareceu-me algo curto na frescura, na vivacidade.

Com a colheita de 2009 deu mostras, ou vontade, de quer fazer mais. O vinho, agora, tem mais tensão, mais força, está mais irrequieto. Revela mais frescura, com carácter vegetal mais vincado, felizmente mais seco, com a madeira mais entrosada. Em conclusão, bem mais conseguido. Dá vontade de dizer: continuem!

Nota de encerramento: Qual vantagem conceber vinhos com castas não portuguesas, numa região como o Douro? É simples a minha dúvida, sem nada escondido.

Post Scriptum: Vinho enviado pelo Produtor.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Vinha de Reis (Dão)

Produtor discreto. Vinhos quase desconhecidos. Quando foram testados, pela primeira vez, revelaram carácter, força e intenção de fazer qualquer coisa de interessante. Depois, e assim interessa para mim, são do Dão. À minima oportunidade, e sempre que posso, são caçadas as garrafas do Dão que, eventualmente, possam despertar alguma curiosidade.

Reservas de 2006 e 2008. Nota-se o fio condutor. Tintos com tensão, nervo, com força. Com lagar, com pedra, com ardósia, químicos. Azeitona preta, café em grão, tosta, chocolate. Cedros. Frescos, suculentos, mastigáveis e secos. Bem trabalhados.
Reflectem uma abordagem simbiótica entre o tradicional e o moderno. Eventualmente indefinidos, a vaguearem na orla de dois mundos distintos, quiçá de propósito. Talvez percam, um pouco, por causa desta incerteza.
Antes de fechar a edição, por hoje, falta mencionar outro factor relevante: custam menos de 10 euros. Notas Pessoais: 16

segunda-feira, novembro 08, 2010

As Colunas, um mundo cheio de vinho

Diria que é um espaço talhado para um enófilo compulsivo ao meu género. Mesmo que não seja para comer, o local merece uma visita. As paredes estão repletas de vinhos, alguns deles desconhecidos, antigos e esquecidos, e destilados. Todos os recantos, cantos e sítios, mais ou menos escusos, estão cheios de garrafas. A vontade de pegar em qualquer uma delas é perigosamente enorme.


Não bastando os expositores estarem abarrotados, e para atiçar ainda mais a inveja do visitante, surgem pilhas de caixas com os vinhos mais desejados do momento. Caramba, uma autêntica loja de brinquedos. Maldita magreza de carteira.

domingo, novembro 07, 2010

Francisco Machado Albuquerque Bual 64

Irei usar palavras comuns, eventualmente carregadas de futilidade, incapazes de definir na plenitude mais um distinto vinho da Madeira. O vinho, esse, não permitiu ao vulgar humano, que sou, qualquer veleidade. A sua opulência, o seu perfume, o seu espírito encarregaram-se de colocar nuas, e à vista de todos, as debelidades deste homem. Faço figura triste quando pedem, a este plebeu, que articule qualquer coisa que possa caracterizar este tipo de artefactos.

Erro, enorme erro! Cousas destas não são feitas para serem desmontadas, para serem decifradas por gente rude e grossa. Seria idiotice, pura, colocar-me no púlpito e largar para a audiência um chorrilho de adjectivos vagos e sem nexo. Serviriam, apenas, para ridicularizar, ainda mais, o orador e desprestigiar os homens que fizeram o líquido. Nota Pessoal: 18,5

sexta-feira, novembro 05, 2010

Terras de São Miguel, um Dão recôndito!

Adoro vasculhar nos meandros mais ocultos, ignorados, da enofília. É puro prazer, pessoal, enfiar-me no meio de lugares estranhos, longe de tudo e de todos, perseguindo os mais estranhos e desusados vinhos. Pura mania. Verdadeiramente o meu enfoque anda longe, por diversos motivos, dos notáveis, daqueles que ficam bem em festas, em revistas. Aproveitando a deixa, já notaram que os nossos eno-folhetos comportam-se, por vezes, como publicações cor de rosa, apresentando as casas, as vidas, os desejos, as virtudes e defeitos de gente famosa? A diferença cifra-se, acho, no copo que está na mão, na vinha que aparece lá atrás, na pose mais ou menos combinada. As meninas, essas, vão surgindo nas páginas da PUB.

Posto isto e só para constar aqui no meu pasquim fica a apresentação de mais um vinho do Dão, um Dão recôndito, estranho, completamente desconhecido. Nascido em Fornos de Algodres. Trato felizmente ligeiro, limpo e acídulo, talhado para a bucha vespertina. É coisa, ao fim ao cabo, que não entra nos cânones estabelecidos. Nota Pessoal: 14

segunda-feira, novembro 01, 2010

O Outono no Dão

Acabado de retornar. Foi, infelizmente, uma curta passagem pelo Dão. Fui ver mortos e vivos. O pouco tempo disponível para o vinho cifrou-se num périplo em redor de Gouveia e Seia. Nada foi provado, pouco foi bebido. Mais para a frente, se apetecer, falarei alguma coisa sobre isto. E sobre o assunto, direi que esta região, com o cair da crise em cima do povo, tem ou terá enomes potencialidades, podendo oferecer ao consumidor vinhos de carácter a preços bastante decentes. Arrisquem agora!

Para relembrar, mais tarde, fui fixando na máquina o Outono nas vinhas do Dão. Paisagens pitorescas.