segunda-feira, junho 28, 2010

Quinta da Murta (Bucelas)

A visita foi sendo adiada sistematicamente, caminhando perigosamente para a impossbilidade. Corria o risco de estar ali tão perto e ao mesmo tempo tão longe.

Consequência de uma conjugação quase impossível de diversas variáveis, consegui pegar no calhambeque e zarpar para o outro lado do rio.

A entrada do Vale impinge-me a falsa sensação de distância em relação à betanização, ao tamponamento do nosso país. Como seria possível, ter ali ao pé de tanta degradação paisagistica, meia dúzia de lugares recônditos, aparentemente afastados de uma maligna realidade?  Cheirava, em demasia, a incongruência.

A estrada até ao âmago da Quinta da Murta estava ladeada por ciprestes. Estranha árvore para um cenário daqueles. A vida pululava por todos os lados. Seriam um presságio, um indício de que algo, não muito bom, acabará por acontecer?

A vinha, essa, estendia-se suavemente pelas encostas. Um pedaço aqui, outro pedaço acolá. Imagens graciosas, cheias de verde, empaturradas de arbustos, ervas, árvores. Montanhas abauladas.

Muito do tempo disponível foi gasto a mirar, a vasculhar os sítios mais escusos. Por momentos e enquanto a conversa ia fluindo com o ideólogo da Murta, quase que desprezava o vinho. Tive que ser chamado à razão.


Os vinhos, esses, que foram caindo no copo, tentavam transmitir o pensamento, os sonhos do fantasista da Murta: frescura, genuinidade, a sinceridade do homem, da terra e da vinha. A ideia pareceu-me, simplesmente, ofececer diferenciação e carácter. A técnica, o tecnicismo, a manipulação, a tão desejada receita enológica regra de três simples, segundo as palavras do sonhador, estavam colocadas em segundo plano, em posição menor. Tenho que admitir, que senti coragem, pressenti ideias afincadas e persistentes. Que o sonho não descambe por terra ou fique enterrado debaixo do cimento. Eu agradeço! Mais alguém?

sexta-feira, junho 25, 2010

Discussão em The Wizard Apprentice. Participem!

Porque é um blogger, porque é uma pessoa que também gosta de discutir e porque, tal como eu, é um insatisfeito, façam o favor de ir até aqui e participem na conversa. Não se acanhem. Eu vou andar por lá, enquanto tiver, ou não, alguma coisa para dizer.


Estamos atravessar, julgo e desejo, um período de acérrima discussão sobre alguns assuntos. Será o principio do fim? Estaremos a descontruir? Estaremos a encerrar uma era e dar início a outra?
No final, talvez façamos um relatório sobre algumas ideias mestras.

domingo, junho 20, 2010

Masculinidade e vinhos brancos

Serve só para deixar uma foto, marcando o momento. Não tem mais nenhuma utilidade.
Pertenço a várias pandilhas enófilas e uma delas raramente tem coragem para beber vinhos brancos. Alguns homens, desse bando, dizem que preferem os tintos, que não entendem os brancos. Depois ficam impacientes só de olhar para um mosaico decorado com cores douradas. Será que a masculinidade fica diminuída?

Teve que ser a única mulher a ditar as regras e a interromper, por breves momentos, o domínio dos tintos. Os ditos homens beberam e calaram. Valente e autoritária.

sábado, junho 19, 2010

Oremus Tokaji Late Harvest 2002

Líquido ligeiro, de fácil empatia. Bebe-se sem pesar e sem enjoar. Não era um estrondo de complexidade, não era um gigante, mas cumpriu correctamente o seu papel.

Os especialistas dirão que pertence ao grupo dos fracos e que será, eventualmente, perca de tempo andar atrás destas coisas. É possível que seja, mas pouco interessa. Cabe-me, apenas, a função de provar ou beber, consoante a perspectiva. A classificação, por agora, parece-me pouco relevante. Só sei que foi sendo engolido até não ficar nenhuma sobra e isso basta-me.

domingo, junho 13, 2010

Olho no Pé (Douro) Colheita Tardia 2007

Fazia tempo que não falava sobre um Colheita Tardia. Na última vez que falei deste tipo de vinhos preferi um menos famoso em detrimento de outro bem mais estrelado, bem mais nobre. Acabei por ser assaltado e empurrado contra a parede pelas inúmeras dúvidas colocadas por quem leu o post no momento. Tinha, ao fim ao cabo, relegado para segundo plano o Grandjó Late Harvest e preferido coisas com menos estirpe. Apenas encolhi os ombros, pedindo desculpa pelo sacrilégio.

Agora salta para arena outro Colheita Tardia, nascido no Douro.
Estilo melado e untuoso. Cheiros e sabores empachados de laranjas e limas caramelizadas. Melão maduro, meloa madurona. Passas e frutos secos. Gordo e doce. Algo deficitário em frescura, carente em alegria e equilíbrio. Para quem gosta de coisas deste género, avance. O preço, esse, parece-me puxadote. Nota Pessoal: 15

quarta-feira, junho 09, 2010

Glen Carlou Cabernet Sauvignon 2005

Bom, serve apenas para aumentar o meu ranking internacional. Sempre anima, também, o ego e mostra aos amigos a grandiosidade da pretensa capacidade para conhecer este mundo e o outro. O gajo até prova vinhos lá de fora
O vinho, este, é Sul Africano e por consequência iremos estar por breves instantes dentro da moda e alinhado com as diversas reportagens que se vão fazendo a partir da África do Sul
Avancemos com o suposto artigo a partir de mais uma desejada nota de prova, tanto ao gosto dos nossos detractores.

O cheiro que exalava era composto, ou não, por um conjunto de partículas que colocaram a mona a cismar com notas herbáceas, fazendo-a pensar nos nossos saudosos pimentos. Apimentou-se, ainda mais, com uma enorme carrada de especiarias indiferenciadas. Como o povo costuma dizer: para todos os gostos e feitios.
Com o aprofundar do contacto, o exotismo adensou-se, apagando a eventual probabilidade de ser português. Havia, ali, muita coisa que não era nossa (acho). Falta falar da fruta: tez completamente negra, sumarenta e escorreita.
O sabor revelou-se gordo, manteigado, amplo. Fresco, ao mesmo tempo. Guloso e quase viciante. E acho que o mais importante já foi dito. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum: Se quiserem saber mais, sigam para aqui.

segunda-feira, junho 07, 2010

Independent Winegrowers Association 2010

No passado dia 1 de Junho de 2010, marquei presença do Ritz com o intuito de testar as novas colheitas do grupo IWA (Independent Winegrowers Association). Este ano a equipa subiu ao terreno desfalcada, com o encerramento do projecto Quinta da Covela
Porque irão surgir, certamente, mais relatos sobre o evento, não perderei tempo com enormes considerações ou artigos de larga extensão. O tempo que irá desenrolar-se até meados de Setembro não é o mais indicado, pelo menos para mim, para dissertações profundas ou narrações pormenorizadas. Abriu a época baixa.
Para retamar definitivamente o preâmbulo, direi que apenas tocarei nos vinhos que mais marcaram.

Casa de Cello. Os Quinta de Sanjoanne revelaram frescura, acidez, carácter vegetal. Colheita 2009, Escolha 2004 e Superior 2008 apresentaram-se ao povo em bom nível. Cada um deles com a sua função bem definida. Para encerrar um Passi de 2008. Curioso e bem trabalhado.
Vegia 2008 ofereceu fruta e um anacrónico toque fumado. Sabor vivo e fresco.  O Quinta da Vegia 2006 carregado de nuances balsâmicas e minerais. Quinta da Vegia Reserva 2007 num estilo mais requintado, mais nobre. Para beber sem pressas.

No Douro, constatou-se, mais uma vez, a enorme qualidade que os vinhos de Domingos Alves de Sousa manifestam. As minhas atenções viraram-se para o Abandonado da Colheita de 2007. Aparentemente bem mais fresco e menos exótico que os anteriores. Pareceu-se mais português, menos estrangeiro
O Quinta da Gaivosa Colheita de 2007, esse, continua a revelar um perfil distinto, carregado de elegância e finura. O Vinha do Lordelo da Colheita de 2007 pertence ao lote dos superlativos. Um vinho exacerbado, pujante, gordo e amplo.

Luis Pato apresentava, na sua tabanca, um conjunto de novidades. Os Moleculares estavam lá. O espumante Vinha Formal, agora da Colheita de 2009,  deu boas indicações. Será, certamente, um caso sério e que merece uma abordagem bem mais atenta. De qualquer maneira, tomem nota e não se esqueçam.
Nos tintos, as minhas atenções recaíram sobre um Tinto Cão da Colheita de 2009. Vinho de filigrana pura. Fumado e frutado. Venham mais vinhos assim. E não esqueçam, também, este.
Antes de mudar de agulha, registo mais duas curiosidades: O Vinhas Velhas Branco, também da Colheita de 2009, que dispensou completamente a madeira. Está vivo, leve e refrescante. TrePA 2008 que é, nada mais nada menos, que uma mistura de Tinta Roriz com um lote de Vinha Pan.


Quinta dos Roques/Quinta das Maias. Destaque para o Verdelho da Quinta das Maias, da Colheita de 2009. Um branco perfumado, bem comportado e equilibrado. Um feliz regresso. 
Nos tintos, e não querendo esquecer o resto da trupe, fiquei surpreso com o Jaen, também das Quintas das Maias, e da Colheita de 2007. Um vinho desafiante, botando frescura por todos os lados. Marcante.
E para não destoar, encerrei com um Flor das Maias, da Colheita de 2007, cheio de estrutura e complexo. Porque ninguém lhe liga? 

Quinta do Ameal. O reino da elegância, da acidez, da secura. Para quem procura estimulos pujentes e pujantes, mude de lugar. Os vinhos reflectem, de forma genuína, um conjunto de sensações que são, efectivamente, raras. A aposta recai sobre aromas e sabores vegetais. Depois, e ainda por cima, não viram a cara a um envelhecimento digno.


Para o ano, haverá certamente muito mais.