A visita foi sendo adiada sistematicamente, caminhando perigosamente para a impossbilidade. Corria o risco de estar ali tão perto e ao mesmo tempo tão longe.
Consequência de uma conjugação quase impossível de diversas variáveis, consegui pegar no calhambeque e zarpar para o outro lado do rio.
A entrada do Vale impinge-me a falsa sensação de distância em relação à betanização, ao tamponamento do nosso país. Como seria possível, ter ali ao pé de tanta degradação paisagistica, meia dúzia de lugares recônditos, aparentemente afastados de uma maligna realidade? Cheirava, em demasia, a incongruência.
A estrada até ao âmago da Quinta da Murta estava ladeada por ciprestes. Estranha árvore para um cenário daqueles. A vida pululava por todos os lados. Seriam um presságio, um indício de que algo, não muito bom, acabará por acontecer?
A vinha, essa, estendia-se suavemente pelas encostas. Um pedaço aqui, outro pedaço acolá. Imagens graciosas, cheias de verde, empaturradas de arbustos, ervas, árvores. Montanhas abauladas.
Muito do tempo disponível foi gasto a mirar, a vasculhar os sítios mais escusos. Por momentos e enquanto a conversa ia fluindo com o ideólogo da Murta, quase que desprezava o vinho. Tive que ser chamado à razão.
Os vinhos, esses, que foram caindo no copo, tentavam transmitir o pensamento, os sonhos do fantasista da Murta: frescura, genuinidade, a sinceridade do homem, da terra e da vinha. A ideia pareceu-me, simplesmente, ofececer diferenciação e carácter. A técnica, o tecnicismo, a manipulação, a tão desejada receita enológica regra de três simples, segundo as palavras do sonhador, estavam colocadas em segundo plano, em posição menor. Tenho que admitir, que senti coragem, pressenti ideias afincadas e persistentes. Que o sonho não descambe por terra ou fique enterrado debaixo do cimento. Eu agradeço! Mais alguém?




















