sexta-feira, Abril 30, 2010

Dona Berta Vinha Centenária Reserva Branco 2008

Já o disse uma vez, nestas bandas, que os vinhos que brotam da Quinta do Carrenho reflectem várias singularidades. Dentro deles são visíveis enormes semelhanças entre o homem, a terra e o vinho. Sem meios termos. Costuma-se dizer a terra dá, a terra tira. Tudo é vivido com intensidade, com paixão, com loucura. A dureza e a genuidade vão mantendo os Dona Berta numa viagem, apesar de discreta, coerente. Que assim continuem.

Este Vinha Centenária, na versão branco, não é excepção. Mostrou-se austero, corpulento, forte e tremendamente vegetal. Tal como os outros, está despido de exotismos, de floreados artificiais e coisas sem sentido.
A acidez enche o palato, ocupando todos os lugares disponíveis. O carácter seco e mineral impõe-se com aquela força que aprecio. Belo.  Nota Pessoal: 17

segunda-feira, Abril 26, 2010

Pera Manca para temperar, Primus para beber

Levei ao máximo uma prática culinária: Quando se usa vinho na comida, ele tem de ser bom! Foi isso que fiz para regar um portentoso pargo. Depois de ter sido provado e chumbado, na prova, o vinho foi usado para têmpero.

O pargo estava a precisar de qualquer coisa, e pareceu-me ser fantástico banhá-lo com um Pera Manca Branco de 2006. No momento em que o líquido chapinhava por cima da carcaça do animal, dei-me conta da importância do acto. Tinha que ficar registado em foto. 

O bicho, esse, ficou no ponto e acompanhou na perfeição com outro branco, do Dão, também de 2006. Este estava bem mais requintado, bem mais equlibrado. Um vinho que revelou um comportamento educado, com muita sauvidade e elegância. A fruta e a madeira pareciam a estar em núpcias. Tudo em puro equilibrio e em estado de graça. Nota Pessoal: 17

quinta-feira, Abril 22, 2010

O Top da AlaWine.com

Apesar de sabermos que as listas e os rankings carregam sobre si valores subjectivos e pouco relevantes,  não consegui deixar de ser assolado por uma valente enxurrada de vaidade.
Depois de, eu e o Copo de 3,  termos passado um largo período ausentes do 100 Top Wine Blogs, da responsabilidade  do blog AlaWine.com, voltámos a ser colocados no 100 Top.
Sejam quais forem as razões, que não interessam, estou verdadeiramente inchado de contentamento  (o João Pedro também deve estar). Ao fim ao cabo são coisas de putos.


E perdoem-me, pelo menos desta vez, a soberba. É que sabe bem estar, nem que seja num lugarzinho discreto, junto dos mais famosos.

quarta-feira, Abril 21, 2010

Às vezes acontece!

Estou, neste momento, a beber um vinho que nada tem a ver comigo. Curioso, não? Por vezes apetece-me beber, volto a repetir, vinhos carregados de características ou coisas, como queiram, que geralmente não aprecio. Pura contradição humana.

Hoje, e agora, no copo deambulam aromas e sabores pujentes, químicos, com fruta madura. É um vinho expansivo, corpolento. Exagerado, em que a madeira, essa, está bem vincada, com muito chocolate amargo e largando fumo por todos os lados.
Estupidamente não estou cansado e o corpo continua a pedir sistematicamente por mais um gole. Um completo desvairo, mas que interessa? Sinceramente nada. Simplesmente, estou a gostar.

domingo, Abril 18, 2010

Clos du Marquis 1998 & Domaine Grand Veneur 2008

Para quem, como eu, que pouco conhece do que se faz lá fora, é com enorme alegria e contentamento beber, sim beber, vinhos de outras paragens. Diria que caiem, sobre mim, inúmeros tiques próprios de uma criança. E continuo a deleitar-me com as listas, que surgem na rede, cheias de nomes estranhos? Deste mundo ou de outro?
Graças a um enófilo, com as mesmas raízes que as minhas, tive a oportunidade de enriquecer o meu portefólio. António Madeira, obrigado.

O primeiro, isto é o tinto, apresentou-se no copo de forma cordata, revelando uma postura muito equilibrada. Perfumado, seco e com nobres sinais de evolução. Cheio de especiaria, carregado de impressões clássicas que reportavam a memória para os prosaicos armários velhos, limpos com cera. Fruto seco, açúcar em pó. Sabor macio, distinto e bem vestido. Nota Pessoal: 17
O branco exibiu, ao povo presente, um conjunto de comoções florais. Em termos de comparação, a imagem mais correcta seria a de uma mancha de flores brancas e amarelas. Estão a ver o cenário? Levemente doce e penetrante. Fruta a pender para a pêra e o vegetal a sugerir hortelã. Toque de aniz.
Corpo com alguma gordura, com alguma compleição. Com mais um poucachinho de acidez e de vibração teria bebido mais outro trago, ainda assim simpatizei com o dito. Nota Pessoal: 16

domingo, Abril 11, 2010

Vinhos Fundação Abreu Callado

Conheci, em tempos este produtor, não por causa dos seus vinhos de mesa, mas devido a um curioso licoroso que produzia (ou produz). Em abono da verdade, e recordando o meu passado enófilo, era um vinho interessante que não envergonhava ninguém, muito menos quem o fazia. Depois, tive uma ou outra incursão pelos vinhos desta Fundação Alentejana situada em Benavila (Avis).
De grosso modo, esta instituição existe no mundo como ideia de Cosme Abreu Callado. Para alcançarem um pouco melhor a história e filosofia desta casa, nada melhor que ir vasculhar no site institucional.

Os vinhos, cinco no total, reflectem, no seu conjunto, uma singular simbiose entre a tradição e a modernidade. Tentam, assim pareceu, avançar para dentro de século XXI, sem perder a raiz, o carácter mais tradicionalista. Os rótulos são um exemplo disso, reflectindo aspectos importantes da organização em questão. É de louvar quem opta por não esquecer os seus pontos de partida, o seu tronco de procedência.

Abreu Callado Tinto 2007 será, eventualmente, o vinho com a matriz mais rústica, desde o rótulo ao conteúdo. Desenhado a partir das castas aragonês, touriga nacional e alicante bouschet e com estágio de seis meses em barricas de carvalho francês. Mostrou-se regular em aromas e sabores, revelando fortes nuances vegetais e frutadas. A acidez estava puxadinha. Para beber, sem enormes preocupações.
Subamos no portefólio com Abreu Calado Cadeira da Moira Aragonês 2007. Frutado e sumarento, surgindo no espectro aromático uma curiosa sensação a lagar. Mais uma vez, notaram-se impressões vegetais enriquecidas, agora, com cheiros florais. Fresco, sauve e com a madeira bem enfiada lá no meio. No outro degrau aparece Abreu Callado Horta da Palha Touriga Nacional 2007. Agradável e aprazível. Numa linha muito semelhante ao Aragonês, com a barrica bem incorporada.

Quase no popo da escadaria surge Abreu Callado Reserva 2008 criado a partir de um blend com touriga nacional, aragonês, e alicante bouschet, tendo passado seis meses em barricas de carvalho francês. Mais gordo, com mais compleição que os anteriores. Balsâmico e fumado, compotas e alguma doçura que o tornavam consensual e jovem.
Finalmente lá no cimo Abreu Callado Dom Cosme Reserva 2006 que foi, de longe, o vinho que mais apreciei. Apresentou um conjunto de argumentos bem mais consistentes. Fumo, fruta, mineralidade e tosta confundiam-se, formando um bloco com valor e importância. O paladar era amplo, gordo, mas bem suportado pela acidez. Terá, no entanto, um enorme incoveniente: o preço pedido. Num mercado duro, muito competitivo, e abastado de ofertas bem mais conhecidas, vai ser complicado pegar nele.

Post Scriptum: Os vinhos foram enviados pelo Produtor.

sábado, Abril 10, 2010

Quinta Mendes Pereira: O Dão da Raquel!

Mendes Pereira é um espaço de recorte mais moderno, mais actual, mas não menos interessante. Quinta ampla, espaçosa em que as vistas estão desimpedidas e desafogadas.

Um terraço coberto de videiras, em que o verde insiste tingir, mais uma vez, o cenário. Tal como nos outros antros, também aqui as árvores, as flores, os buxos e o mato, convivem paredes meias com as vinhas. Sem conflitos e aparentemente habituados a viver em parceria.

Depois de um dia, quase inteiro, a calcorrear meia região, somos recebidos por uma personagem feminina e com sotaque do outro lado do oceano. Num ápice, e sem mais nem menos, passámos de uma dimensão tradicionalista, tipicamente beirã, para uma mais exótica, quiçá mais tropical. Permitindo-me abusar, era um Dão abrasileirado. Custou-me realinhar a bússola e perceber que, afinal, não tinha saído para outro lado qualquer. Ainda andava por terras da Lusitânia.

A adega, construída com o bendito granito, é um mimo. Um belo exemplo de reutilização e reciclagem do património edificado. Estão lá todos os artefactos necessários à laboração. Lagares, inox, barricas e depósitos de cimento, agora, revestidos de epoxy. Tudo simples e, mais uma vez, sem luxos.

Sentados à mesa, trocaram-se algumas impressões sobre os vinhos e acerca da filosofia da casa. Também aqui as palavras ressoaram, em consonância, com que tinha sido ouvido noutros poisos.

Os tintos e brancos não fugiam da vertente mais tradicional. Austeros e sisudos. Vegetais, minerais e mentolados. Vinhos que pedem desesperadamente por tempo e paciência e, como já disse mais que uma vez, fartos em recortes de coisas antigas.

Epilogo

E encerro, para já, a minha caminhada pelo Dão. Foi o resultado de múltpilas coincidências da vida que levaram-me a penetrar num mundo diferente, imensamente discreto e que vagueia, infelizmente, longe dos holofotes da glória, das passarelas.
Uma realidade quase anacrónica, despida de modernidade, mas apostada em querer fazer vinhos com paixão e alma.

quinta-feira, Abril 08, 2010

Casa Aranda: a pedra, as vinhas e os vinhos!

Ao entrar pelas portas da Casa Aranda somos assolados por um sentimento de nostalgia que custava a definir. Sentia-se no ar, qualquer coisa carregada de medievalismo. Talvez fosse a pedra, presente por todos os lados. Havia um curioso corte com o presente. O que faz uma simples portada.

O aspecto do espaço estava despido de qualquer fausto, de ornamentos decorativos. Respirava-se, simplesmente o granito, por todos os cantos e recantos do prédio. Silêncio e decoro.

Em redor as vistas revelam aspectos conhecidos do Dão. Árvores, arbustos, flores. Os talhões de vinhas, algo irregulares, estão circundados por outras espécies. O verde tingia a visão. O nariz abarrotava com cheiros balsâmicos. Caruma e folhas de eucalipto eram desviadas, para o lado, para dar espaço à passada. A passarada fazia barulho.

Percorremos os caminhos, olhámos para as vides. No chão, onde estavam assentes, estendia-se um manto de flores.Tudo bem cheiroso.

Ao entrar na adega, simples e despida de tecnologias desmesuradas, abriram-se os olhos de espanto. Numa mão cheia de barricas descansava um lote de Syrah com Cabernet Sauvignon. Diabos, que fazia aquilo ali no Dão? Provou-se o líquido com enorme desconfiança e, apesar de tudo, reconheceu-se potencialidade na mistura.

O enfoque para mim, no entanto, é outro: Os brancos! Clássicos, pouco modernos. Secos, despidos de exuberâncias ou intensidades tropicais e completamente inadequados para um consumo rápido e  displicente. Pedem, ainda, para ser bebidos em copo amplo e a temperaturas mais amenas. Riquezas escondidas dos olhares do povo anónimo.

Os tintos, esses, são descobertas recentes. Sugeriram ser vinhos cheios de acidez, agradáveis e vivos. Olharei para eles, mais tarde e com paciência.

terça-feira, Abril 06, 2010

Quinta da Fata: as fotos, os vinhos e a terra!

A entrada longa, ladeada por oliveiras, faz-nos penetrar num mundo que, quase, não existe. Era a verdadeira Beira. Uma Beira nobre, clássica e distinta.
Há muito que estava marcado no meu mapa enófilo uma visita a este canto. Na verdade, tenho infindáveis X marcados na carta de orientação (ainda não aderi ao GPS). Espero, em tempo útil, atingir todos esses lugares.

As cores eram suaves, os recantos da Fata iam revelando pequenos tesouros, imagens, passagens em que o ritmo da vida decorre de acordo com as necessidades do homem. Nã há pressas, não existem modernidades desnecessárias. O relógio torna-se, fatalmente, um utensílio infrutuoso.
Lá no fundo, junto à casa, estava uma figura discreta à nossa espera. Eurico Amaral, personagem que conheci alguns anos atrás, recebeu-nos com gentileza pouco comum nesta realidade.

Ao som das palavras, das perguntas e das respostas ia disparando a máquina. Tinha que fixar aqueles cenários quase bucólicos. Por momentos esquecemos o vinho. Que importa!

Espaços simples, vinha tratada, quase jardim. Pinheiros, eucaliptos, mimosas pontificam em todos os lados. Encoaram novamente palavras repetidas na Ponte Pedrinha: Terra, lagar, alma. Receita, quase, ideal para construir um vinho, quase, quimérico. Reforça-se a ideia que pouco é preciso para fazer, basta seguir os passos da Natureza, deixá-la decidir.

É preciso ter uma enorme coragem para defender uma filosofia, um modo de estar pouco consentâneo com as modas actuais, em que tudo se manipula. Este homem e outros defendem esta filosofia até às unhas, às últimas consequências.

Enfiados num lugar, e sentados junto dos toros em chamas, fomos molhando a boca com os tintos da Fata. Desde o prosaico Clássico da colheita de 2006, passando pelo Reserva e Touriga Nacional das colheitas de 2007 percebia-se que havia ali qualquer coisa feita com paixão, vestidos com sobriedade e genuinidade. Sem madeiras curvilíneas e sem acrescentos bacocos.

Eram simplesmente o reflexo da terra e pouco mais. Quase puros. Ao fim ao cabo, são vinhos sem aqueles sabores e cheiros usados, incessantemente, nesta época estranhamente despida de valores. Por isso não beba. Sobra, mais, para mim e agradeço.

sábado, Abril 03, 2010

Foi o vinho que os juntou!

Algures no Douro, perto de Sabrosa, e ao fim de inúmeras curvas e contracurvas cheguei ao ponto de encontro, ao X marcado no mapa. A ideia, simples, era dar um abraço a um compincha, a um companheiro de súcia internáutica. Fazia tempo que não debatíamos, não gesticulávamos,  ao vivo.

Vão já alguns anos que um homem, timidamente, se juntou à pandilha bloguista na York House. Foi dos poucos que, sem preconceito, se uniu a um bando que vai percorrendo, quase ostracizado, as quelhas da rede.  Recordo com saudável nostalgia os nossos primeiros debates. Esse momento tornou-se, indefectivelmente, o ponto de partida para uma rija amizade.
Mais um exemplo da riqueza acumulada, por mim, durante estes anos de labuta enófila.  É essa a razão de ser do Pingas no Copo.

As fotos colocadas aqui, à mão de semear, reflectem a conversa, a pândega enófila que decorreu durante algumas horas.
Percorremos alguns vinhos velhos do Dão e da Bairrada cheios de aromas complexos, distintos. Inebriantes. Recordámos, ainda, o Quinta da Manuela 2000 (fiz as pazes com este vinho) e sem ninguém esperar, veio para mesa um estreme Malvazia Fina 2009 do Douro. Fresco, seco e muito disponível para acompanhar peixe. Uma curiosidade.

Depois, e num acto despido de qualquer interesse, foram enfiados nos copos dois Portos de Família. Um deles, de 1930 e em honra à mãe, deixou-me estarrecido, não de medo, mas de admiração dada a beleza do líquido em causa.
Resta-me, simplesmente, usar esta publicação para prestar homenagem ao António José Serôdio (AJS).

Epílogo

Foi o vinho que nos juntou.