quarta-feira, março 31, 2010

João Pires Late Harvest 1988

Está religiosamente guardado a sete chaves em casa de um bloguista. Independentemente do estado de saúde do líquido em causa, não deixa de ser uma preciosidade enófila que merece ou merecia ser provada.
No dia em que peguei nela, tentei levemente e com delicadeza que fosse testada naquele momento, mas o fiel depositário não abriu qualquer excepção.


Tive, apenas, direito a registar o momento, através de foto. Rapidamente mudámos de assunto, continuando a verter para o copo outras coisas. De qualquer modo, o vinho em causa irá dar, um dia, motivos para muita conversa.

Post Scriptum: Gostei particularmente da expressão: Botricised.

domingo, março 28, 2010

Quinta do Noval (Porto) Vintage 2004

Sobre a Quinta do Noval, apenas tinha passado pelo meu goto o Silval que será, provavelmente, a marca para o povo (nem todo).

Chegar ao Vintage principal é tarefa hercúlea. Pedem por ele, um saco cheio de dobrados que só os nobres possuem. A sorte do plebeu é ter alguém, por perto, que por uma razão ou por outra espete em cima da mesa vinhos, ou nomes, de luxo. Abençoados.

Este pareceu-me, no arranque, algo vago em cheiros e sabores. Havia, no copo, coisas que não compreendia. Custou a abrir. E já a noite caminhava para a madrugada quando se descortinaram sensações roxas, azuis e verdes. Mirtilos, amoras e cerejas, esteva.
O paladar, ainda assim, revelou-se largo, seco, e com algum veludo e macieza. Estranhamente polido.

Estaria a padecer daquela fase estranha e indefinida por que passam os vintages, em determinado momento das suas vidas? Que falem os entendidos... Nota Pessoal: 16

quarta-feira, março 24, 2010

Douro de Luxo!

Uma tripla destas merecia estar na minha garrafeira em quantidades aceitáveis. Infelizmente, e a coberto da inveja que tenho, nem uma habita na cave. Coisas da vida.
É puro gozo (não acham?) traçar umas quantas linhas opinativas sobre vinhos deste calibre. Qualquer que seja o vocábulo utilizado pelo autor, fica a ideia que o objectivo principal da narrativa é meter pirraça ao povo.  Depois, e por momentos breves, parecemos verdadeiros criticadores, tal como os da RV, Wine e similares.

São, portanto, três brinquedos (Lembram-se da novela dos brinquedos caros?) produzidos, em 2004, com o máximo cuidado, cheios de extras, vendidos a alto preço e com reduzida tiragem. Puros topos de gama que ficariam bem em cima de um capô e ao lado daquelas figuras curvilíneas que vão rodopiando em redor das potentes máquinas.
Escolher um, em detrimento de outro, resume-se simplesmente a questões de circunstância e pouco mais.

O Pintas mostrou ser, no copo, um vinho potente, cheio. Coberto de sensações minerais e com uma valente carga vegetal. A indiciar possuir estrutura mais que suficiente para crescer e amadurecer. Nota Pessoal: 17,5
O Charme apostou noutros argumentos. Elegante e clássico no trato. Aquele toque fumado é facilmente caçado, mesmo às cegas. Cheiros de terra e fruta, num registo penetrante e subtil. Um toque de menta, quiçá hortelã, dava-lhe frescura. Nota Pessoal: 18
O Abandonado é um daqueles vinhos superlativos, com muita coisa levada ao extremo. Exótico, diferente. Mentol, especiarias, chá, madeiras de outros mundos e outras coisas. É dado à imaginação e a comparações mais ou menos absurdas.  Vale por si mesmo e dispensa qualquer acompanhamento. Nota Pessoal: 17,5

Termino com um pedido: Existirá, nesta imensa rede, alguém que queira oferecer-me novamente esta tripla ou outra parecida?

domingo, março 21, 2010

Espumantes Brasileiros

Antes de mais, tenho que mencionar neste pasquim, que não é todos os dias que somos confrontados com uma colecção de espumantes vindos de outro lado. Oriundos do outro lado do Oceano. Deve-se tudo ao esforço de um homem que fez das tripas coração para que alguns bloggers portugueses (Pingas no Copo, Copo de 3 e Pingamor) pudessem medir o pulso ao que se faz nas terras verde e amarelo.

Não irei alongar-me em articulados extensos ou notas de prova, mais ou menos monótonas, porque o que interessa marcar são meia dúzia de considerações rápidas e directas.

A ideia, em termos gerais, era fazer um comparativo com alguns dos nossos espumantes (Quinta do Cabriz 2007, Vértice Gouveio 2004, Murganheira Super Reserva 2004, Caves Montanha Arinto&Chardonnay Super Reserva 2003, Kompassus Blanc de Noirs 2006 e Quinta de Baixo Bruto Natural 2006).

A título pesssoal, estava bem mais interessado no que vinha de longe: Villaggio Grando Brut, Cave Geisse Nature 2007, Miolo Millésime 2006, Ponto Nero Reserva Extra Brut, Salton Evidence, Chandon Excellence Cuvée Prestige, Valduga 130 Brut. O resto serviu simplesmente para encher a mesa.
Uma panóplia de espumantes brasileiros que, apesar das diferenças inerentes a cada um deles, pautaram-se pelo equilibrio, pela graciosidade e frescura. Alegres e bem trabalhados (não estava à espera). Destinados ao aperitivo, à comida ligeira. Ideais para serem ingeridos com uns acepipes ou, simplesmente, para acompanhar dois, três ou mais dedos de conversa.

Quando a empresa terminou, já pela madrugada, percebia-se que o Miolo Millésime era o vencedor.  Eu, embrenhei-me com ele, de tal maneira, que esqueci, durante algum tempo, o que se passava em redor da mesa. Raios, era um belo vinho, um belo espumante. Fino no trato, com uma delicadeza e apuro capazes de cativar o mais desatento. Como disse uma vez: Mandem para cá que eu compro.

Post Scriptum: Gostei, e muito, de um patinho feito chamado Caves Montanha e fiquei desiludido com o Kompassus Blanc de Noirs. O Vértice Gouveio é um espumante para a comida. Pujante e fresco.

quarta-feira, março 17, 2010

Quinta do Seival Tinto Fino Seco Safra 2005

Irei, com toda a certeza, exagerar nos elogios ou no uso de adjectivos pacóvios, mas o que interessa, na verdade, foi o arroubamento que tive quando se encaminharam, para o nariz e boca, as impressões  de mais um Tinto Fino Seco. Adoro esta terminologia. Parece que foi gerada, simplesmente, para satisfazer o meu ego. Provavelmente, terão pensado que havia um velhaco que olha para o mundo de forma geocêntrica.

O vinho verde e amarelo, foi edificado a partir de 3 castas portuguesas na mesma proporção: Tinta Roriz, Touriga Nacional e Alfrocheiro. Depois, segundo a narrativa do contra-rótulo, o corte foi envelhecido em barricas de carvalho francês.

Os aromas revelaram enorme carácter vegetal. Arborizado, arbustivo e floral. A diversidade de cheiros deu azo à invenção, à comparação fácil e grosseira. Como eu gosto. Alfazema, violeta, mimosa. A fruta insinuava estar cristalizada.  Fortemente fumado. Juntemos, ainda, um enriquecedor toque a couro, quase animal, quase rústico.  Depois, e quase no fim, lá se lançou para sensações mais exóticas, mais consentâneas, quiçá, com a terra de onde veio. 
Sabor era seco, bastante elegante e singular, com tanino e acidez quase perfeitos. Fino e com um final levemente picante.
Olhando para o prontuário, dicionário e outros acessórios gramaticais apenas ocorreu a seguinte definição: Complexo e distinto. Nota Pessoal: 17

Um tinto quase do Dão (o rótulo e a garrafa possuem imensas semelhanças com qualquer coisa lá da terra) e mais uma vez pouco novomundista. Apetece-me dizer: Mandem para cá que eu compro.

domingo, março 14, 2010

Casa de Arrochella (Grandes Quintas)

Um produtor Douro Superior

A partir da informação disponibilizada sabe-se que estamos perante um cenário de 50 hectares de vinhas plantadas depois de 2004, com 50% de Touriga Nacional, 20% de Touriga Francesa, 8% de Tinta Roriz, 8% Tinta Barroca, 8% Sousão, 6% diversos.

Prevê-se ainda a implementação de dois projectos para novas plantações: 16ha de tintos na Quinta de Valle d’Arcos, nas margens do Douro em Moncorvo, e 20ha de brancos na Quinta das Trigueira no planalto de Vila Flor. O centro de vinificação encontra-se na Quinta da Peça, em Vila Flor.

A Adega tem uma capacidade de produção de cerca de 300.000 litros e encontra-se dividida em 3 áreas principais: área de vinificação, com 2 lagares de granito e cubas de fermentação em inox; cave de envelhecimento de vinhos em barrica e balseiros; área de expedição de produto acabado. A enologia é da responsabilidade de Luis Soares Duarte.

Resta-me agora traçar algumas considerações sobre os vinhos.

Descasquemos o Colheita 2007. Um tinto de fácil empatia e trato acessível. Era o que era. Serviu, e bem, para distrair durante o entardecer, acompanhando umas grosseiras rodelas de chouriça e paio. Sem requintes e etiquetas obscuras. Simplesmente mão, pão e copo de vinho.
Fruta madura, suculenta e escorreita, surgiu bem misturada com a madeira. O chocolate e tosta deram-lhe um certo cunho jovem e consensual.
Paladar guloso, fresco e curiosamente mentolado. É daqueles que se vai engolindo sem demoras e sem darmos por isso. Gole atrás de gole desapareceu do vasilhame num ápice.

Encerremos a diária com o Reserva 2007Um Douro da minha infância, da terra alaranjada, da esteva, da figueira, da laranjeira e da amêndoa. Um Douro vegetal, rude e monolítico. 
Que tormento era ir de Foz Côa a Espada à Cinta. Curvas do tamanho do mundo. Extensões limitadas, viagens eternas.
O que vivi enquanto puto naquelas arribas. As passeatas no macho do Júlio até ao amendoal. O barbo assado na orla do rio.

No meio destes desvairos, quase que desprezava o vinho.

Cheiros e sabores carregados de fruta, aromatizados por flores. Eucalipto e especiarias. Assombrosa percepção vegetal. Simplesmente a natureza pura e dura, sem efeitos ou decorações supérfluas. Pungente e altivo, a indiciar longa vida.

Post Scriptum: Os vinhos foram enviados pelo Produtor.

sexta-feira, março 12, 2010

Chateau Rozier Saint Emilion Grand Cru 2006

Aqui entre nós, pobres diabos, apetece-me armar em conhecedor de vinhos franceses. Acho que vou falar do assunto com afinco para colocar-me lado a lado com os entendidos, na matéria, e falar à posteriori das margens esquerdas e margens direitas.  E sem esquecer as notas oferecidas pelo Robert aos inúmeros Chateaux franceses.

O vinho, claramente um Chateaux para pobres enófilos, mostrou ser uma aprazível surpresa.
Cheiros discretos, com curiosa suavidade e distantes de complexidades desmedidas ou portentosas. A realidade era bem mais terrena e acessível ao comum mortal. Prefiro assim.
De estilo fresco, limpo, diria até desanuviado. Apresentou simpáticas notas vegetais que se envolveram com a fruta. Pontualmente parecia surgir, no copo, perfumado  por um ténue aroma floral. Acrescentemos, ainda, uma ligeira sensação de café  e especiaria para encerrar a marcha dos aromas. Tudo coisas simples que o povo anónimo entende.
O sabor mostrou possuir boa amplitude e finura no trato, insistindo, mais uma vez, no equilíbrio e na frescura.
Um vinho com carácter ligeiro, é certo, mas surpreendemente agradável. Nota Pessoal: 15,5

terça-feira, março 09, 2010

Rio Sol Tinto Fino Seco Safra 2006

Em tempos já passados, e sobre vinhos de marca branca, abordei o conceito do preconceito. Referi, mais coisa menos coisa, que era terminantemente  proibido falar de determinadas marcas, acrescentemos agora países ou regiões, porque o nosso pretenso bom nome podia perder credibilidade no seio do clube dos enófilos encartados. Como tal, era recomendável não pensar que, eventualmente, pudéssemos gostar de um vinho sem nome, sem glória, sem história e sem aquele suposto pedigree.
Falar de vinhos brasileiros, aqui no nosso pedaço português, é caso raro. São vinhos de um mundo novo, quase desconhecido, e sem o tal necessário pedigree. E os únicos à mão de semear estão sobre a alçada da Dão Sul ou Global Wines.

Foi preciso vir um indivíduo do Brasil e presentear-me com o conhecido Rio Sol, que tantas vezes mirei e nunca comprei, para o beber. Achei o acto ofertante um pouco provocatório. Caramba!
O vinho, em si, provado com enorme desconfiança, acabou por tornar-se numa apraz surpresa.
Ligeiro no aroma e no paladar. Bastante vegetal (que ajudou a combater a comida), parco em fruta, com sugestões terrosas. Acidez alta e secura. Tudo num estilo pouco novomundistaNota Pessoal: 13

Post Scriptum: Um corte de Cabernet Sauvignon e Syrah

domingo, março 07, 2010

Madeira Blandy's Bual 1971

Não vou perder tempo com considerações. Trata-se, apenas, do retrato de mais uma ocasião em que tive a sorte de mamar mais um vinho da Madeira.
Aromas (e sabores) ácidos que nunca vergaram e nem esmoreceram.  Cheiros de maracujá, tangerina e laranja. Impressões iodadas, madeiras envernizadas. Soalhos encerados. Café, muito grão de café, temperado com canela e acompanhado pelo fruto seco. Depois descansei, pois andava por lá muita coisa que não tinha qualquer enquadramento.

O paladar mostrava uma vivacidade enorme, quase desmedida. A acidez, alta, palavreava para quem ouvisse que não estava ali para morrer num ápice.
No desfecho, aquilo que ficava na boca, vinha revestido de muitas sensações incapazes de serem descritas e redigidas. Nota Pessoal: 18

É, literalmente, mais um vinho para beber até ao último escorropicho.

quinta-feira, março 04, 2010

Casa da Passarela (Dão) Tinto Reserva 2007

É um mimo andar a defender uma ideia, um estilo, e reparar que até mesmo uma casa tradicional do Dão consegue fazer derivações ao passado, à sua história.
Quem era capaz de prever que a Casa da Passarela colocasse cá fora, no mercado, um vinho repleto de tiques urbanos e orientado para ser consumido pela malta nova? Estaremos perante o primeiro sinal de mudança de percurso em que o destino final será a uniformização?
Independentemente do que eu acho, ou não, fiquei pasmado, quiçá meio desordenado com o que bebi. Era, efectivamente, algo que não estava à espera.

Um vinho tinto (Touriga Nacional & Tinta Roriz) rechonchudo, que soube bem na primeira abordagem. Directo no trato e sem complicações. Linguagem simples e universal.
Aromas e cheiros a tenderem para uma mistura entre a madeira (??) e a fruta. Chocolate, tabaco e fumaça combinados com carradas de fruta vermelha. Ideal para uma cavaqueira entre mortais comuns e sem ambições de outra índole. Nota Pessoal: 14,5