domingo, fevereiro 28, 2010

Terras de Tavares (Dão) no Sul

Tenho a forte impressão, a cada dia que passa, que o Dão está abastardar-se. Parece que se instalou uma enorme psicose na região.
Anda pelo ar a ideia, dou de barato se estiver enganado, que este pedaço do país, genuíno, com identidade própria, bem vincada, está transformado numa cópia grosseira de outros cantos vinícolas. O risco de descaracterização e de perda de identidade é imensamente grande e factura será, inevitavelmente, severa.
Não creio que a receita para o sucesso do Dão passe por apagar uma história digna, que teve períodos maus, é certo, e metamorfosear-se em qualquer coisa que ninguém sabe. Uns para um lado outros para outro. O que se faz, por lá, é simplesmente impingir um conceito de urbanismo, pintado com néones e acompanhado com música estridente que pouco coincide com matriz dos vinhos do Dão. Costuma-se dizer que não bate a bota com a perdigota. O caminho não deverá ser esse e não pode ser esse.

Não quero imaginar que, neste mundo empanturrado de relações dificieis e entrelaçadas, não haja espaço para vinhos com carácter regional bem vincado, onde a terra, a rocha, a vegetação se possam sentir livremente e sem artificialismos.
Ainda assim, vou encontrando pedaços de lembranças passadas, de prazeres quase desaparecidos. Lentamente vou aumentando o leque de opções no que concerne a vinhos étnicos, quase pagãos (também na enofilia existe uma religião dominante e sacerdotes que a governam).

Numa tarde em que o vento batia nas paredes e com a chuva a cair copiosamente sem descanso, fui percorrendo 11 colheitas (1997 a 2009) de Terras de Tavares.
Apesar das inevitáveis variações resultantes da idade e das diferentes colheitas era percepível a filosofia que jazia por baixo de todos eles. As quebras de personalidade, as variações de estilo eram quase inexistentes.

Vinhos carregados de frescura, com forte densidade vegetal, balsâmica. Com uma dimensão terrosa e mineral bem presente. Empaturrados de pedra. A fruta, presente em todos eles, revelou-se sadia, bastante húmida. Madeira ligeira e manietada pela uva.
Líquidos que não cansavam, que pediam mais uma cheiradela, mais um gole. Tudo num registo quase extinto, ou em vias de extinção.

Epílogo

Para que conste, no blog, os vinhos provados foram os seguintes:

Brancos - Síria 2009 (Regional Beiras), Encruzado 2007 e 2008.

Tintos - Torre de Tavares Colheita 2006 (Regional Beiras); Terras de Tavares Touriga Nacional 2005 e 2008; Torre de Tavares Jaen 2005, 2007 e 2008 (dividida em duas amostras: uma com estágio em carvalho americano e outra com estágio em carvalho francês); Reserva Terras de Tavares 2007, 2005, 2004, 2003 e 1997; Terras de Tavares 2001 e 2002 e o destaque para uma amostra de Tinta Pinheira 2009 que revelou ser um puro Borgonha, desculpem um puro Dão.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Os Homens e o Vinho

Falar de vinho e com vinho, une os homens. Em muitos lugares assume um imenso papel religioso. Na última ceia, reza a história e tradição, Jesus Cristo partilhou vinho com os seus discípulos. Beber vinho é sinónimo de concórdia, de paz.
Desde que comecei a usufruir dos benefícios da rede, a minha malha de amizades (de inimizades também) progrediu exponencialmente. O saldo obtido, ao fim de alguns anos, não foi o reconhecimento dos pretensos patrões, esses foram dispensados, mas sim conhecer diversos sujeitos.

Ao fim de muitos mails trocados, comentários partilhados em diversos blogs, surge o momento do abraço com este tipo.
No meio de uma corriqueira bucha, com uma sopa feita sem ingredientes e confecções meio absurdas, as palavras foram saindo a uma velocidade louca. Haviam demasiadas coisas para serem botadas cá fora e a porra do tempo era acanhado.


Engoliram-se umas gotas de espumante. Catita, por sinal. Era apenas um Cuvée de 2007. Fresco, citrino. Bem envolvido e com mousse suave. Dançou sem estrilhos com uns nacos de queijo cortados grosseiramente e sem preceito.
Trocaram-se ideias sobre os dois países. Vinhos brasileiros versus vinhos portugueses. O que se bebe lá e o que se bebe cá. Preços de lá e preços de cá. No ar assentou a ideia que estão a surgir muitas vinícolas lá e cá.
Fizémos uma pausa. O estômago pedia pelo caldo quente. Lá fora a chuva espalhava-se no chão, sem parar.
Por entremeio, caiu no copo um tinto alentejano (Gloria Reynolds 2004). Delicado e com boa evolução. Com cheiros e sabores frescos. Húmido, mentolado. Ideal para encerrar a noitada.
Delinearam-se caminhos. Combinou-se outra noite de copos, desta vez noutro lugar. Cansados, cada um seguiu o seu caminho.

Post Sriptum: As fotos, caseiras, atestam alguns dos despojos.

domingo, fevereiro 21, 2010

Vinhas entre Terras do Sado e Alentejo

As palavras serão poucas. Em muitos casos basta olhar, mirar para a paisagem.
Enquanto o carro ia rolando no alcatrão molhado, a máquina ia disparando. Fixava postais de vinhas, algures entre as Terras do Sado e o Alentejo.


Mesmo em terras quentes, percebia-se que o chão estava encharcado, carregado de verde e florido com pequenas flores.
 
 

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Yvon & Pascal Tabordet Pouilly-Fumé


Uma vez arrisquei, neste pasquim, dizer que não conhecia determinado tipo (apercebi-me, mais tarde, que era qualquer coisa de muito importante no meio). Como devem imaginar, o rolo de enxovalhos foi enorme. Provavelmente teriam razão. Seria, no entanto, hipócrita se escondesse o défice de conhecimento enófilo em determinadas áreas. É que nada está concluido, encerrado ou terminado. Irei, tenha forças, prosseguir desta forma.

Terminado o palavreado e ainda a sofrer dos males que padeci, resultado do Festival Côtes du Rhône, durante alguns dias, andei a pedinchar, por todos os lados, vinhos de outras bandas. Como resultado desses incitamentos, apanhei numa prateleria um Pouilly-Fumé de 2008 que não conhecia. O rótulo, francamente, não diz nada. A sua escolha foi aleatória e sem qualquer juízo de valor.

O vinho apresentou uma generosa carga de aromas vegetais. Erva, relva, musgo. Bem encharcado ou alagado, como preferirem. A fruta, que aportou, parecia possuir cariz citrino. Limão, laranja, lima, tangerina. Um aglomerado ácido e sem exostismos da moda. Cristalino.
O sabor era, e ainda bem, herbáceo. Comportamento refrescante, revelando uma forte componente mineral. Polido e afinado. O desfecho foi tendencialmente citrino.
Olhando para preço (13€), estou certo que este Yvon & Pascal Tabordet não seja coisa extraordinária, mas o porvento pessoal foi francamente positivo e, em última análise, é o que interessa. Certo? Nota Pessoal: 16

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Quinta da Ponte Pedrinha: as fotos, as mulheres e os vinhos!

Quase sugere publicidade, mas que se lixe.
Foi com enorme comoção que recebi, e aceitei, o convite da enóloga da Casa. Estupidamente, como já disse, nunca tinha invadido o território da Quinta. Parecia-me demasida austera, quiçá, demasiada elitista. Aquele brasão, que o rótulo ostenta, impõe algum respeito. Depois, sempre desconfiei das casas que só deixam revelar o telhado.

A tarde estava gélida e no horizonte surgia uma figura feminina carregada com garrafas. Olá, então já está cá? Espere um pouco, que iremos dar uma volta.

As palavras da enóloga saíam a uma velocidade louca e abastadas de alegria. Caramba, não vou ter estofo para isto, pensei no momento.
A passo largo, e pouco acanhado, ia exibindo as coqueluches do terrítório. Aqui era a casa do cocheiro. Segundo consta, partia primeiro para a Serra, depois seguia a família.

E o vinho, e as vinhas? Temos mais de 50 hectares de vinha. Pedaços espalhados, recantos alegóricos. Autênticos postais do Dão. Tudo entremeado por pinheiros, eucaliptos, silvas, giestas, mimosas.

Tenho ajuda de duas senhoras, continua Catarina, com uma simplicidade única. São o meu braço esquerdo e braço direito. Dou-lhe, às vezes, a provar, a cheirar. Um mundo feminino. Estava, naquele momento, a presenciar coisas completamente anacrónicas, deslocadas do tempo.
Percorremos a adega e enfiámo-nos num pequeno espaço com vista para a vegetação. Numa bancada prosaica, alinharam-se as garrafas. Ao lado, encontrava-se uma curiosa cuspideira. Foi, durante algum tempo, o centro das atenções.

Os vinhos, esses, dispensam madeira nova. Passam pela usada e pelo inox. Os cheiros e sabores eram genuínos. Estavam cobertos de impressões regionais. Em cada copo havia um pedaço daquele mundo.
Inusitados, afastados da moda, mas buliços e mexidos. Está a ver, isto é o que a natureza dá. Não é preciso muito. Engoli e calei.

Posfácio

À Dona Gracinha, agradeço o singelo café que foi servido à lareira.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Madeira Malvazia 1879

Andei a romoer, a mastigar sobre a forma como apresentar o caso. Efectivamente, e apesar de estar a escrever, o problema não está resolvido. Tudo se resume ao deslumbre, ao fascínio que ando a ter pelos vinhos da Madeira. Acredito que alguns estarão a dizer que cheguei atrasado. Creio que têm razão.  

A título pessoal, e apesar de o ter já feito, não é tarefa acessível desmanchar um vinho deste género. Descobri, a custo, que ocupar o tempo a contar pormenorizadamente o que se passa dentro do copo é sinal de falta de inteligência. Não são vinhos destinados a isso. Cada gole que cai pela garganta abaixo acaba por ser simplesmente um momento de elevado prazer. 


Posto isto, e para não perder tempo com a coisa, digo-vos que fiquei boquiaberto, entorpecido quando aportou na beiça o primeiro sinal de um Malvazia 1879. Autêntica loucura. Um rolo de emoções, de sensações arrebatadoras. Uma acidez que cortava a boca. Sabores indecifráveis. Um vinho estupendo. Um eterno jovem carregado de história. Fiquei com uma certeza: Irei morrer primeiroNota Pessoal: 19

Post Scriptum: Fizeram parelha outros dois generosos. Apesar do valor que tinham, acabaram ficar longe dos holofotes.

domingo, fevereiro 07, 2010

Casa de Santa Vitória (Alentejo)


Num sábado, que já passou, um grupo de bloggers nacionais foi mandado para o distante Baixo Alentejo. Local, quase perfeito, para fugir ao buliço do betão armado, da desordenada malha urbana das grandes cidades. Poiso ideal para falar mal de tudo e de todos.

 À porta da Herdade da Malhada fomos recebidos pelo enólogo, da Casa, Bernardo Cabral. Rapidamente fomos enfiados num jipe que nos levou a ver as vinhas. Tudo feito com alegria e satisfação.

Em cada palavra disparada pelo enólogo, era perceptível o investimento pessoal que estava por detrás. Dá um enorme gozo falar com gente alegre e descomprometida. Falar do vinho desta forma é, certamente, mais interessante e bem mais proficuo. A disponibilidade para perguntar aumenta exponencialmente. Só por isso a visita foi uma aposta ganha.

 
Sobre os vinhos, passámos em revista o portefólio disponível. Caminhámos por entre as gamas de entrada e terminámos no topo. Nada ficou de lado. Um leque de vinhos modernos, apelativos e redondos. Prontos, quase, a beber logo na juventude.

Não sendo o adepto do estilo, e recordando a minha primeira abordagem, partilho com vocês a boa evolução que o Inevitável Colheita 2005 está a ter. Revelou-se um vinho fino, mais equilibrado, sem aqueles excessos químicos. Deu enorme prazer ao ser bebido. Outra nota que merece ficar registada é sobre o Reserva branco Colheita 2007. Demonstrou boa dose de elegância, atinado e aparentemente sem desmandos perigosos.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Quinta da Ponte Pedrinha


Vão certamente perdoar-me a viagem, a estopada, mas o que irei traçar está intimamente ligado à minha caminhada como pessoa e como enófilo. Uma coisa e outra estão fortemente coladas. É impossível separá-las.
Sempre que percorro a estrada da Beira, algures entre Seia e Gouveia, a cabeça gira em busca do telhado da casa, perdida no meio da folhagem das árvores. O cenário faz parte integramente do meu album de memórias visuais.
O vinho da Quinta, esse, foi acidentalmente descoberto. Estupidamente não fazia qualquer ideia que havia vinho por aqueles lados (mas os velhos há muito que falava nisso).


Nos tempos em que consumia guias de vinhos (não recordo a última vez que comprei um), reparei que José António Salvador tinha colocado nos píncaros um Reserva de 1997 (não recordo em qual guia).  Um vinho que custava qualquer coisa como três contos. Na altura, foi uma competa alienação, mas ao reparar no que gastei, posteriormente, noutros vinhos, fico com a leve impressão que, afinal, os três contos foram tostões. 
Vasculhemos, entretanto, o Reserva de 2004. Inicialmente com poucos cheiros e poucos sabores. A decepção andou muito perto. Cheguei pensar, por momentos, abandoná-lo, colocá-lo de lado e pegar noutro. Intenção errada.
Sem berreiros e sem gritarias, assomou-se o floral, o mato, a caruma. Tudo cheio de árvores. Fruta ligeira. Muito mentol. Alfazema a rodos. Pedra molhada, complemamente encharcada. Erva seca e folhas de chá. Tudo bem proporcionado. Simplesmente dava gozo cheirar e cheirar.
O sabor expôs uma elegância inusitada, quase anacrónica. Assumidamente afastada da moda. Fresco e seco. Vegetal. E trago a trago foi indo pausadamente. Tinha saudades destas coisas. No final, sou assaltado pela dúvida: Quem fez este vinho? Nota Pessoal: 16,5

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Dúvidas e Suposições!

São coisas que não desaparecem da cabeça. E, por vezes, batem com muita força, latejando por todos os lados.
Não vou perder muito tempo em rodeios. São apenas dúvidas, perguntas, suposições. Provavelmente irei apenas lançar mais lixo para a rede. Serei fatalmente mais um. Que se lixe!

Primeira dúvida: Vale, ainda, a pena comprar guias? Quais serão os destinatários desses guias? Acredito que seja apenas meia dúzia de tipos com dinheiro para comprar os topos de gama, os Mercedes, os BMW.

Segunda dúvida: Para que servem as opiniões dos críticos? Quem as segue? Fazem vender um vinho? Tenho sérias dúvidas que o grosso do povo siga uma única linha do que dizem ou aconselham.

Terceira dúvida: Quantos consumidores conhecem os críticos da nossa praça? Poucos devem conhecer essas estrelas.

Quarta dúvida: Os produtores ainda precisam dos críticos? Ganham ou perdem com a opinião deles? Pessoalmente, acredito que a importância é cada vez menor.

Quinta dúvida: Terão os produtores, efectivamente, medo dos críticos? Acredito que a maior parte, ainda, tem.

Sexta dúvida: Para um produtor vale mais a opinião do consumidor ou do crítico? Quem lhe dá o sustento? Acredito que são os tostões do consumidor e o passa palavra.

Sétima dúvida: Não seria mais claro perceber o gosto, a tendência pessoal, de cada crítico? Devia, mas escondem-se em palavras vagas. Até agora ninguém veio à praça dizer o que fosse. Silêncio.

Oitava dúvida: Estaremos a ser educados ou desviados pelos fazedores de opinião? Parece-me que educam cada vez menos.

Nona dúvida: As provas cegas que se fazem, por todos os lados, serão mesmo cegas? Ou no final, depois de destapado o rótulo, faz-se um arranjinho para a coisa sair mais ou menos?

Décima dúvida: Existem mesmo poderes que tapam a verdade ao povo, fazendo-nos viver a alegoria da caverna? Haverão homens de preto escondidos às esquinas?