domingo, janeiro 31, 2010

AlmaGrande Reserva 2007


Existem vinhos que não foram desenhados para extrair grandes condiderandos. Tal facto não é, necessáriamente, negativo. Nem sempre a disposição está livre e desocupada para reflexões longas e enredadas. Precisamos é, por vezes, de aditivos suaves, capazes de acompanhar o esvaziamento da massa cinzenta. Ainda bem que existem alguém que pensa nisso. Valha-nos essa coragem.


Este AlmaGrande Reserva 2007, feito à base de Touriga Nacional, é um daqueles vinhos que cai na boca do principio ao fim, quase sem dar por isso. Gordo, tostado, limpo. Com todos os tiques modernos e actuais. Alinha pela moda. 
A combinação de aromas e sabores aponta para um consumo despreocupado e bastante urbano, isto é, passível de ser bebido num bar, ao balcão e, quem sabe, a acompanhar o galanteio (heterossexual ou homossexual - temos que acompanhar as mudanças).

Post Scriptum: Vinho enviado pelo Produtor.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Quinta do Portal


Numa tarde chuvosa, enfiaram-me no meio da Quinta do Portal. Uma longa e profícua tarefa. O objecto era descascar até ao tutano os vinhos de Paulo Coutinho.



Por entre amostras, experiências (destacou-se o Cabernet Sauvignon), produtos engarrafados e outros já esquecidos, ficaram retidas algumas coisas. Não irei cansar-vos com notas extensas, com longos exames. De qualquer modo, irei partilhar com vocês algumas perólas. Vinhos que merecem ficar registados no Pingas no Copo.
Começo com um inusitado Quinta do Portal Branco 2000. Com uma cor cintilante, fresco em aromas e sabores. Fui incapaz de enquadrar seu o ano de nascimento. Como se não bastasse, baralhou-me, deu a ideia que tinha tido contacto com a barrica. Coisas de mancebo.
Outro que ficou retido na lembrança foi o Grande Reserva de 2006. Um tinto com bom recorte, alicerçado numa forte componente vegetal. Calmo e aparentemente bem vestido.
O Auru de 2007 é um vinho superlativo. Gordo, dos nossos dias, expansivo. Pertence ao lote dos vinhos modernos que o Douro tem vindo a produzir.



A coqueluche do momento será, provavelmente, a Colheita Tardia da Colheita de 2007. Vendida a um preço aceitável, quiçá anormalmente baixo. Agradável, com vivacidade. A doçura pareceu-me não incorrer em excessos. Para beber despreocupadamente.
Na secção dos generosos, a atenção caiu sobre o Moscatel de 1996 e o Porto 30 anos. Complexos e bem aparados pela frescura. Vinhos que merecem ser bebidos com atenção e respeito. Guardar, apenas, se tivermos o stock recheado.



A actividade foi encerrada, já a noite ia longa, com um Quinta do Portal Touriga Franca 2001, servida em magnum. Acompanhou a assembleia luso-francófona sem qualquer timidez. Terá sido quem sabe, o vinho que mais marcou. Razões? Sei lá, talvez porque nunca tivesse bebido um Touriga Franca que enchesse as minhas medidas.

domingo, janeiro 24, 2010

Dizem que surgiu o verdadeiro BLOG


Surgiu o verdadeiro BLOG. Depois de tanto murros, de tanta embirração, quezília e desdém, aparece um blog que pretende ser anti-blog. Apesar da ideia ser esquizofrénica,  é, sem dúvida, uma enorme jogada de marketing. Só pelo facto, merece o meu aplauso e de pé. No que me toca, tenho pena não ter descoberto este filão mais cedo. Fica para a próxima.

Entretanto já se perfilaram diversos clientes do blog, aliás do anti-blog. Lembram as lojas de brinquedos, no Japão, quando é lançada uma nova consola de jogos. Passada a folia, a consola passa de moda e fica a ser, simplesmente, mais uma no mercado, porque fatalmente irão irromper novas consolas, com novas opções e muito mais baratas.
Como consumidor aconselho, vivamente, que controlem os vossos ímpetos. A vida não anda de feição para estoirar com tudo à primeira vista. Cuidado com as expectativas, porque as diferenças resumem-se, em muitos casos, ao embrulho.

Olhando para o anti-blog (estou a gostar disto) tenho uma leve impressão que irei aprender, e muito, sobre vinhos (mas dos bons), irei saber o que se vai passando nos meandros do mundo enófilo. Ficarei a conhecer a verdade sobre tudo e todos. Não existirão listas de nomeados (o autor abomina). A realidade será descascada e os podres serão colocados na praça pública. Ficaremos a saber a realidade. Estou, efectivamente, ansioso e em pulgas por assistir a tudo. Espero é que sejam assuntos do nosso burgo.

Para quem gosta de novidades, siga este link. Quando ficarem fartos daquilo, sabem onde estão os blogs.

Agora, resta-nos saber o que pensa João Geirinhas sobre o assunto.

Upgrade

Deixo um comentário, retirado daqui, de alguém que já experimentou a nova consola. Parece ser, segundo consta, uma coisa do outro mundo. "Nasceu, finalmente, o Blog que faltava no panorama Blogueiro Pt. Aquele que estou certo irá revolucionar a forma como o vinho é visto, apreciado e criticado em Portugal. Não tenho dúvida que a sua qualidade servirá de bitola a todos os outros e que, mais cedo ou mais tarde, fará com que todos tenhamos vontade de melhorar!
Enfim, para quem tem acompanhado estas discussões, eu diria, em jeito de provocação que: Nasceu o Blog Maduro…"

Post Scriptum: Ok, ok, também ajudei na promoção. Bolas.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Alicante Bouschet, mon dieu!


Um episódio

Não domino o francês, é muito parecido com a nossa espinhosa língua materna. Demasiados verbos, conjugações estranhas, tal como os nossos postulados legais. De qualquer modo, consigo sacar uma palavra aqui, outra acolá.
A sorte do tolo é conseguir, ainda assim, interpretar a linguagem do corpo. É universal. Torna-se (quase) impossível esconder as rugas, os traços da face, quando gostamos, detestamos, odiamos e gozamos. São o espelho do que sentimos. Nem mais, nem menos.
Nas vésperas do Festival Côtes Du Rhône, tive a ventura de abancar (na Quinta do Portal) com o núcleo principal de produtores franceses que iria estar no dia seguinte na Quinta de Nápoles.
Sentados à longo tempo, começaram a surgir na mesa alguns vinhos com alicante bouschet. Enquanto as garrafas iam girando pela tábua, era perceptivel o desenrolar da risota. Mon Dieu, alicante!



Num inglês esforçado, explicou-se que essa casta, desprezada por eles, tal filho largado num orfanato, era agora uma casta nacional, responsável por alguns dos melhores vinhos do nosso sul. Eles, os franceses, olhavam-nos com sobranceria, com um ar condescendente. Coitados que ficaram com o que largámos na rua.
No final da conversa, e reparando que não havia convencimentos de parte a parte, surgiu a nossa última jogada: E o Carménère que foi adoptada pelos chilenos? O chauvinismo aumentou a olhos vistos. A noite tornou-se num momento de elevado gaúdio (para eles). Não deixavam de ser, ao fim ao cabo, duas castas rejeitadas.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Festival Côtes Du Rhône


Certamente, e durante algum tempo, irei andar pelas paredes a chorar como uma alienada carpideira. Não são todos os dias que enfio no meu bucho uma quantidade de vinhos tão singulares como estes.



Num longo dia, em que a chuva tombava sem parar, nos meandros da cave da Quinta de Nápoles (Niepoort) estavam ali à mão de semear um conjunto vinhos alienígenas. Vinhos cheios de frescura, carregados de mineralidade. Cobertos de vegetais, loucamente secos. Ricos em acidez e taninos. Despidos de sensações doces, adversos à madeira. Destinados a envelhecer com honra e dignidade. Pareciam provenientes de uma dimensão quase desconhecida. Uma realidade, infelizmente, demasiada distante da nossa.



Grosseiramente recordava, de tempos a tempos, sensações do passado. Estimulos remotos vindos do Dão. Sei que é uma grotesca comparação, mas não descortino outra semelhança mais plausível.
Raios, não liguem às modas. Borrifem-se para isso. Quem acredita noutros caminhos, noutras maneiras de ver o assunto acabará, fatalmente, por triunfar sobre o fácil.



Notas sobre os vinhos? Ao fim de uns míseros 10 minutos, calei a caneta. Havia muito para depreender e apreciar o que, desgraçadamente, não temos.

Post Scriptum: Passei ao lado dos vinhos dos Douro Boys.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Sogrape Garrafeira


Fazem parte da minha história enquanto apreciador de vinho. Lembro-me deles repetidas vezes. Eram acessíveis. Não era preciso muita coisa para os apanhar numa daquelas estantes que tanto gostamos de fitar. Autênticos putos a olhar para os brinquedos. Diria que a distância, entre mim e eles, cifrava-se apenas no preço. Umas vezes dava, outras vezes enfiava as manápulas nos bolsos e nada.
Num ápice era possível enfiar na goela vinhos de quatro regiões distintas, com a chancela Sogrape estatelada no rótulo. Gráficamente as diferenças eram minimalistas, cingiam-se apenas à região demarcada e pouco mais. Passados meia dúzia de anos, sinalizo os seus desaparecimentos. Reserva Dão, Reserva Douro, Reserva Alentejo, Garrafeira Bairrada tinham sido extintos.

Reparando no que se vai falando, às esquinas, sobre as novas tendências, seria descabido reatar estes vinhos? Assertivamente julgo que não. Trocava, sem tremer as palpebras, pelos novos produtos da Sogrape, coisa como os Callabriga Dão e Alentejo (quero lá saber que sejam apreciados lá fora) , isto sem falar nos irritantes Grão Vasco Alentejo e Grão Vasco Douro. Usando uma estratégia de marketing barata colocaram o pintor a viajar pelo país. Tornaram-no num homem de muitas terras. Coisas repletas de absurdo



Tanta retórica para quê? Porque do baú enterrado nos fundos da casa, saquei um Sogrape Garrafeira 1995. Um vinho da Bairrada de perfeita saúde, que demonstrou elevada graça, deu enorme prazer ao  beber e cheirar. Foi indo lentamente, sem pressas. Um gole aqui, outro gole acolá. Seda.
São estes lances inesperados que satisfazem a pança e alegram a cabeça. Nota Pessoal: 16

sábado, janeiro 09, 2010

Razões e mais algumas

Durante estes dias que acabaram de encerrar surgiram no meio na mona um conjunto de articulados que passo a citar do alto da minha tribuna.

Não existe qualquer pretensão pessoal em ser um fazedor de opinião mais ou menos famoso.
Não ambiciono ser convidado para escrever num qualquer escaparate. O Pingas no Copo já dá muito trabalho.
Raramente tenho tempo para andar em provas, eventos e ajuntamentos. Coisas da vida.
Não tenho como estratégia definida, solicitar amostras. Assim continuarei.

Aprecio a rede de blog portugueses. Estabelecemos, na maior parte, uma forte malha de amizade. Sinto que pertenço ao grupo. É um instrumento de comunicação entre todos.
Gosto de brincar aos críticos e pensar que a minha palavra influência este mundo e o outro.
Divirto-me imenso com o que descaradamente escrevo e gosto imenso desta brincadeira.
Os meus amigos levam-me a sério. É bom ser o rei da rua.

Epílogo

Posto isto, esclareço que as amostras de vinho que, eventualmente, possa receber (para o Pingas no Copo) não serão classificadas. Terão direito, apenas, a um texto opinativo.
Vinhos provados em eventos e similares, por razões óbvias não terão, também, classificação pessoal.
Estas alterações não trarão qualquer impacto no mundo da crítica enófila, mas servem, acima de tudo e de todos, para manter inflamada a forma desbragada e libertina com que ando no meio da coisa.

E venha o vinho e mais blogs.