domingo, Dezembro 20, 2009

Um lote

É uma molhada de vinhos que irão servir para encerrar o ano. Dificilmente virei até aqui martelar na tecla, antes de 2010. Assumidamente vou colocar, por alguns dias, semanas, talvez meses, a brincadeira de lado. Será, quem sabe, um período de nojo, um duro momento de reflexão íntima sobre a importância, para mim, do Pingas no Copo.
Por incompetência pessoal, não tenho arcaboiço para manter-me na crista da onda. Antes que caia definitivamente no fundo do mar (e ele está cheio de despojos), irei recostar-me na palmeira, a descansar, com a prancha ao meu lado e observarei cuidadosamente as habilidades dos outros. Quando tiver vontade de regressar, irão ver, ao longe, um ponto afastado do resto da molhada. Estarei a surfar no meio de correntes contrárias.

Herdade de São Miguel (Regional Alentejo) Colheita Seleccionada 2007. Boa componente vegetal, fresco e apontar a direcção para um consumo franco e contínuo. Nota Pessoal: 14,5
Herdade de São Miguel (Regional Alentejo) Reserva 2006. Um vinho bem trabalhado. Limado, sem aresta. Diria que estava bem polido. Madeira e fruta bem misturadas e a pedirem para ser engolidas. Nota Pessoal: 15

Bétula (Regional Duriense) Branco 2008.
Fruta delicada, suave. Aparentemente bem proporcionada. Tons amarelos, sensações doces, meigas. Flores, pólen. A madeira torna-o mais guloso, mais apelativo. Parece estar integrada. Frutos secos.
O sabor transmite uma sensação elegante, fina. A fruta surge, à primeira vista, envolvida pela madeira. Apetece beber com calma, muita calma. Mas não há bela, sem senão. Ao fim de algum tempo torna-se meio monótono. Nota Pessoal: 15

Fiuza Sauvignon Blanc (Regional Tejo) 2009.
Um vinho de 2009 que pouco é mais do que um belo refresco que levou 18 valores numa dessas revistas da especialidade. De grosso modo pareceu-me pertencer ao lote dos indiferenciados. Fruta, citrinos e uma quase inócua impressão a espargo. Podia ser um vinho de outra coisa qualquer. Nota Pessoal 13
Vale D'Algares Selection (Regional Tejo) Tinto 2008
Fruta muito madura com tiques da madeira nova à mistura. O paladar revelou-se alisado, limpo, carnudo. Pertence ao grupo dos modernaços e prontos a beber. É, efectivamente, um vinho que dispensa comida. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Vinhos enviados pelos Produtores.

domingo, Dezembro 06, 2009

Quero algo diferente!

Entretanto muita gente ainda anda desiludida com os Blogs. Querem mais. Querem coisas diferentes. Estranho! Alguns deles, profissionais dos sete costados não conseguem dar lições à malta. Resumem-se a recitar que andam decepcionados com os blogueiros. Lembram aquele anúncio do bombom em que uma senhora bem vestida, mas old fashion, pede por algo diferente. Ambrósio, o motorista, já avisado abre uma gaveta e sai um chocolatinho Ferrero Rocher. Será isso?


Se, também, quiser algo diferente vá até aqui e continue a colaborar no peditório. Parece que começam a surgir desistências. Nós agradecemos e eles também.

sexta-feira, Dezembro 04, 2009

Quinta das Marias (Dão) Parte I

Na primeira abordagem aos vinhos da Quinta das Marias noto que ficou no ar uma leve sensação de desilusão. Estava efectivamente à espera de mais, de muito mais. Estava à espera de algo desavindo, de qualquer coisa que desse mais pica. Atrevo-me a dizer que ficou nas beiças um leve sabor amargo. Queria mais. Queria sentir diferença, queria saborear frescura, acidez.


Quinta das Marias Rosé 2008. A cor ainda fez sorrir. Aquela luminosidade meio salmonada parecia querer dizer-me que era diferente. Não passou, apenas, de um embuste. O sabor e o aroma eram pesados e chatos. Um descuido na temperatura de serviço e é a morte do artista. Tive pena. Nota Pessoal: 12,5
Quinta das Marias Encruzado (Sem Barricas) 2008. Aromas e sabores secos. Estilo, tendencialmente vegetal. Folhagens. Sugestões a pedra molhada davam o tradicional toque mineral. A acidez tornava-o arisco, mais irrequieto. Mantinha-o em linha, segurava-o e bem.
Não sendo exuberante em aromas e sabores, gostei do seu comportamento. Conseguiu ser suficientemente austero e discreto. Nota Pessoal: 15,5
Quinta das Marias Encruzado (Com Barricas) 2008. Diferente do sem barricas. Forte, peitudo. Demasiado moderno. A fruta era espessa e gorda. Os cheiros fumados mudaram rapidamente para qualquer coisa mais enfartada. Ananás em calda, palha e muitos frutos secos. Roçou, por momentos, alguma monotonia, alguma linearidade.
Sabor cheio, estruturado. Vagueavam vegetais e citrinos. A acidez lá ia fazendo pela vida tentando manter níveis de frescura aceitáveis. Um vinho que podia ser de qualquer lado. Pessoalmente gostaria que fosse mais Dão. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Os vinhos foram enviados pelo Produtor.

terça-feira, Dezembro 01, 2009

O outro Dão!

São seguramente vinhos do Dão que estão longe das luzes da ribalta. Ser parte integral de uma região que não pertence, seguramente, ao lote dos favoritos (ainda joga em campeonatos secundários) e, mesmo assim, tentar vencer na vida por vias alternativas, acredito que não deve ser tarefa fácil. São vinhos pouco frequentados. São, de certeza, vinhos sombrios e, quiçá, ignorados. Esquadrinhei os meandros da minha memória e não consegui enxergar qualquer presença deles fora das exíguas fronteiras do Dão. Vivem apenas confinados aos circuitos regionais baseados, quem sabe, nas frágeis correntes de amigos.

Para um enófilo, acabam por ser pérolas de valor inestimável. Possibilitam-nos perceber, compreender, interpretar outras visões, outros olhares sobre o assunto. Depois percebemos que existe vida para além da cosmética e que algumas rugas podem dar mais carácter.

Não querendo perder tempo com mais considerações vagas e sem sentido, partilho com vocês o nome dos ditos:
O
Abrigo da Passarela Touriga Nacional 2007. A antiga Casa da Passarela mudou de dono. Vai ser obra dura e hercúlea recuperar uma casa com enorme história. Sóbrio e vegetal.
Tazem Reserva 2005
. Depois de um período de afastamento pessoal, regressei com força. Estão a surpreender, e muito, os vinhos produzidos na COOP de Tazem. Linha vegetal, com fruta silvestre, caruma e humidade.
Finalmente um medalhado. Quinta das Camélias Touriga Nacional 2007. Floral, mas distante de intensidades desmedidas. Limpo, alegre e saudavelmente ligeiro.

Em comum a secura, a brandura (tão esquecida) e, aqui e além, umas benéficas arestas.