sábado, outubro 31, 2009

Vinhos de outros mundos!

O título foi colocado propositadamente. A ideia era torná-lo num chamariz, numa estratégia de marketing barata.
Não sendo versado em estratégias comerciais, sei que meia dúzia de termos bombásticos trazem mais gente à loja. Sempre compram qualquer coisa.
Quem veio, até aqui, com a ideia de descobrir teorias, mais ou menos descabidas, sobre vida extra-terra irá sentir-se ludibriado. Rapidamente verificará que as letras expostas no écran nada dizem sobre acontecimentos alienígenas.
O letreiro, colocado lá no alto demonstra, apenas, o desconhecimento que existe sobre os vinhos Algarvios e Madeirenses. Relativamente aos primeiros a experiência resume-se à Quinta do Barranco Longo. Recordo com um leve sorriso, a celeuma que houve, na altura, por causa do baptismo que fiz. Chamei-lhes vinhos da praia. Na altura, o Pingas no Copo gatinhava de forma muito acanhada. Nos segundos a ausência de conhecimento é demasiado grande para gritar qualquer coisa.
Por tudo isto, não tive qualquer pudor em apelidar de outros mundos vinhos germinados em terras de aparência mais ou menos exótica.

O trago inicial veio recambiado do Algarve. Quinta do Francês 2007. Um vinho compacto, que revelou vivacidade suficiente para dar luta. Demonstrou algumas habilidades curiosas. Tendencialmente vegetal. Sensações a vagem, a árvore. Algum cacau amargo e café.
O sabor pareceu-me menos conseguido. Talvez resultado da sua juventude (quem sabe). Acidez e taninos ariscos, um pouco soltos. O corpo parecia não ter cabedal para acompanhar o ritmo. Merece, para já, descansar. Nota Pessoal: 14,5
O outro cujo (Primeira Paixão Verdelho 2008) navegou até ao meu copo vindo da Ilha de Alberto João. Um puro Verdelho. Um vinho fino e desafiador. Empanturrado de aromas e sabores vegetais. A escolha era diversa e quase sem limite. A fruta (presente) não tinha qualquer tique de protagonismo exacerbado. Acidez cortante. Seco, salgado. E mais não digo. Que se lixe. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum: Ambos os vinhos foram enviados pelos Produtores.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Considerações e Encruzilhadas Enófilas

Este texto ou este post (em linguagem internáutica) reflecte meramente o insípido momento que estou atravessar. Um vazio que cobre extensas áreas. Vai de lés a lés. Nasce no reinos dos profissionais e acaba nos quintais dos amadores. Uns e outros dormem profundamente como uma pedra. Ninguém se safa. Simplesmente, vagueia-se.
Com o brotar de um novo folhetim (Best Wine), no longínquo mês de Agosto, pensei que as hostes iriam animar significativamente. Sol de pouca dura. A principal jogadora da equipa da Best Wine, Maria João de Almeida, bateu com a porta. Saiu. A coisa foi ferida de morte. Já agora, e sobre revistas de vinhos e afins, João Paulo Martins deu a ideia, neste canto, que poderão existir Revistas de Vinhos a mais! Em jeito de provocação, pergunto: E críticos a mais?

Ao fim da caminhada, deparo-me numa complicada encruzilhada, num abastado momento de dúvidas e incertezas. Apesar do esforço para fugir dos cânones estabelecidos, reparo que estou a ficar preso das notas de prova. Fui literalmente apanhado pelo arrastão, pela febre do apontamento. Conseguirei dar a volta?

Os fóruns, esses, vão-se mantendo demasiado mornos. Um gigante em banho-maria que só acorda para meia dúzia de disputas sem sentido.

Percebo agora, e muito melhor, o fechar de portas do Vinho a Copo. Não há pernas que aguentem correr sempre atrás da novidade. Eles, tal como eu, encararam a faceta de wineblogger como um inócuo divertimento.

Posto isto, agradeço à Revista de Vinhos, o convite feito para pertencer ao júri (não gosto desta palavra) do Concurso "A Escolha da Imprensa". Os juízes estiveram aglomerados no último dia 21 de Outubro. Os resultados sairão por alturas do próximo Encontro com o Vinho/Encontro com os Sabores 2009.

segunda-feira, outubro 19, 2009

CEM REIS

Existem rótulos que ficam retidos na mona. Este, provavelmente, não será dos mais bonitos mas, por uma qualquer razão, gosto dele. Inclinações. Relembra o episódio Alves dos Reis. Figura que entrou para a nossa história como o maior burlão. Será que continua a merecer esse epíteto? Hum, julgo que não. Acredito que existem, actualmente, figuras com maior e refinada aptidão para a burla que o nosso velho Artur Virgílio Alves dos Reis. Parece-me que, agora, seria um menino do coro, comparado com o que assistimos todos os dias. Pergunto, até, se o ilustre Madoff obteve inspiração para as suas trapaças nos actos do nosso concidadão.

A única certeza é que Alves do Reis acabou na miséria e no total esquecimento. Os que proliferam por aí conseguem, não sei como, manter as suas fortunas, levando-nos a pensar que o crime deles compensou e bem. Estarão a dizer que vale a pena tentar(mos)?

O vinho, esse, pareceu-me um tinto (Syrah) da nossa época, modernaço, com aromas e sabores urbanos. Torrefacção, balsâmicos, especiaria e fruta de cor preta. Passível de ser bebido sem comida.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Tazem (Dão) Touriga Nacional Unoaked 2005 e outras coisas

Chegado ao fim da semana, reparo que andou muito mexerico pela rede. Por um motivo ou por outro, em cada malha da rede, existia sempre qualquer coisa. Foi bom. Sinais de vida.
Reparei, mais uma vez, no especial carinho que existe por quem arrisca em falar de vinhos (bem ou mal). De blogueiros a bandoleiros. De fuzil na mão, só tenho pena que a munição seja pouca e não dê para disparar com a cadência que desejava. Raios.
Posto isto, e sem perder tempo com comentários ocos sobre objectos ocos (Para seguir com atenção a estória saltem para este tópico. A título pessoal, continuo por saber quem são os ilustres bloguistas e a iluminada crítica britânica que é comparável à Escanção e à Néctar), quero maçar-vos com mais umas linhas sobre um simplório vinho nascido no Dão. Trata-se de um Touriga Nacional Unoaked 2005 produzido pela Cooperativa de Tazem.

O enólogo Pedro Nuno Pereira continua a arregaçar as mangas para que esta Cooperativa consiga dobrar o Cabo das Tormentas. Será dos poucos que, aparentemente, tenta manter vivo o velho carácter dos vinhos do Dão. Só tenho que agradecer. Estou umbilicalmente ligado a toda região.
Apesar do nome transmitir um certo ar de modernidade, o vinho encerrava dentro de si um conjunto de argumentos algo tradicionalistas. O cheiro estava coberto de pinheiro, de sensações vegetais, de musgo. Forte impressão húmida. Leve impressão química. Por meio, notou-se um suave toque a especiaria ou, eventualmente, odores a folhas secas. Rústico, quase rude. No fim de tudo, desabrocharam as flores (influência do rótulo).
O sabor era ácido, seco, vegetal, químico. Nada de modernices aparvalhadas e descaracterizadas. É o que é, nada mais. Quando caía pela garganta abaixo, deixava na boca vestígios secos e vegetais. Precisa de comida pujante. Nota Pessoal: 15

Será, provavelmente, mais um vinho étnico?

UpGrade: Sobre o tópico, já estou (um pouco) mais esclarecido.

domingo, outubro 11, 2009

Herdade do Esporão e os bloggers

A Herdade do Esporão chamou até si um conjunto de bloggers nacionais que costumam opinar sobre os assuntos do vinho na rede.

A ideia da coisa era apresentar em primeira mão o 1º Prémio da Confraria dos Enófilos do Alentejo, Colheita 2007. Atrás deste vieram outros vinhos que ajudaram a alimentar as conversas, sempre desbragadas, soltas, descomprometidas e assumidamente ingénuas. Antes de enfiarmos nas goelas o dito, foram sendo testados e comentados outras presenças.

O primeiro a cair no copo foi o Verdelho de 2008. No ápice, somos assaltados por uma pergunta da audiência bloguista. Verdelho ou Gouveio? Um vinho branco com carácter vegetal, asseado e uma carga ácida capaz de refrescar a boca. O dia estava quente e ao longe viam-se as agruras do clima.

Com a boca limpa, passamos para o Reserva Tinto Colheita 2007. Há muito tempo que este tinto representa com dignidade o papel que um vinho de 15€ deve ter. Colheita após colheita surge bem feito, moderno, apelativo e acima de tudo consensual. São milhares e milhares de garrafas. Enquanto posso, vou guardado para memória futura da minha garrafeira um Reserva de cada ano.

Não estava destinado ser a principal personagem, muito menos a estrela do dia, mas tornou-se inevitavelmente no vinho mais comentado, mais falado, mais bebido. Tinha 9 anos de vida em cima e mostrou com enorme categoria um conjunto de argumentos que fez cair o meu queixo. Um vinho elegante, fino e complexo de aromas e sabores. Um Alicante Bouschet.
O 1º Prémio da Confraria dos Enófilos do Alentejo, Colheita 2000 quase que relegou para segundo plano o chamariz do dia. Entre os dois 1º Prémio as atenções viraram-se para o mais velho e não houve volta a dar. As palmas foram efusivas e pediu-se Bis por diversas vezes.

O acto derradeiro, aquele que iria encerrar a apresentação, tinha que estar destinado ao 1º Prémio da Confraria dos Enófilos do Alentejo, Colheita 2007. Aqui temos Touriga Nacional, Touriga Franca, Syrah e Alicante Bouschet.
Apesar da reconhecida qualidade, apesar de perceber que tinha ali um belo vinho, a minha alma enófila não se animou da mesma forma. A mente estava fatalmente noutro lugar e com outro.
A garrafa foi vestida com dois rótulos distintos da autoria da artista plástica Ana Jotta. São dois desenhos humorísticos, feitos a carvão, inspirados nos primeiros rótulos do Esporão. Cada desenho tem à sua responsabilidade três mil garrafas.

Antes de largar o poiso e após termos percorrido as instalações, ainda houve tempo para fazer as pazes com Herdade do Esporão Private Selection, Branco, Colheita 2008. Pareceu-me diferente, mais afastado daquela exagerada gordura. De qualquer modo, o apetite ficou aguçado para nova prova. A ver vamos.


domingo, outubro 04, 2009

Ouzado ou Ousado?

Os autores dizem que é um vinho Ouzado. Ousado por causa das castas (todas estrangeiras), ousado porque não teve (qualquer) contacto com a madeira. Pessoalmente, não teria a coragem suficiente para espetar num contra-rótulo uma afirmação tão taxativa. Sem pensar muito, e não sabendo se há ou não, sou capaz de acreditar que existem, por aí, outros atrevimentos. Já agora e sobre o tema dos contra-rótulos, Luís Ramos Lopes escreveu um editorial, na edição da Revista de Vinhos de Setembro, que retrata e bem a realidade. Um texto alegre, jovem e com humor (devia haver mais). De qualquer forma, o enredo construído de volta do Ouzado (Alentejo) 2005 está bem esgalhado e o aspecto (do rótulo) desperta atenção. Nada contra.


Um vinho fresco, vivo, com a fruta bem presente. Fruta fugiu (e ainda bem) da simplicidade, do imediatismo. Madura, mas não passada. Mostrou alguma austeridade, apresentando uma curiosa impressão química e mentolada.
O sabor comportava um nível de acidez profundo. Limpo e apetecível.
Um vinho que vale a pena ser bebido, com estrutura para suportar momentos mais sérios. Nota Pessoal: 15,5

Off Topic: No Fórum da Revista de Vinhos, alvitrou-se que os bloggers conhecem quase tudo (nem que seja literariamente) no que respeita a topos de gama da tugolândia. Havia admiração pelo facto. No entanto, foi o meu queixo que caiu ao reparar na facilidade com que debitavam nomes e nomes de vinhos estranhos, vindos de outras bandas. Falam deles como se fossem minis acompanhadas por tremoços.
Adorava, e muito, ser um blogger endinheirado. Enquanto não acontece tal fenómeno, vou-me contentando com o que leio e com o que ouço.

quinta-feira, outubro 01, 2009

CARM (Douro) Reserva Família Reboredo Madeira 2008

Longe vão os tempos em que corria desalmadamente atrás dos vinhos tintos. Durante largos períodos, os euros saltavam da mão, a um ritmo indecente, por causa de um tinto. Os brancos pareciam eclipsados. Eram coisas reles e sem interesse. Destinados às mulheres e aos miúdos (descobri hoje que tinha um dente de leite). Para gente fraca e sem carta de enófilo.
Ultrapassada a febre dos tintos, provavelmente resultado de um enorme empanturramento, vejo-me loucamente de volta de vinhos brancos. Compro vinhos brancos. Quero vinhos brancos com madeira, com inox, do Alentejo, do Dão, do Douro, de outro sítio qualquer. Acompanham carne branca, vermelha, peixe e o que vier para a mesa. Não interessa. Que seja branco. Pouco importa o pedigree. Conheço rafeiros bem giros. O propósito é, simplesmente, ficar satisfeito.


CARM Família Reboredo Madeira 2008
foi uma descoberta, resultado de mais um frenesim enófilo. Um vinho branco que conseguiu conjugar (algum) equilíbrio entre fruta e madeira. Manteve, durante o tempo necessário, um nível de suavidade e delicadeza interessante. Abriu fumado, desdobrou-se em várias sensações de fruta. Por entre meio, vislumbraram-se umas pequenas notas vegetais que fizeram mexer o vinho. Feno.
Os sabores perfilaram-se elegantes e afinados. Fruto maduro e fruto seco. A acidez pareceu-me com tamanho para ajudar o vinho a evoluir.
Custa cerca de 10€. Que acham? Nota Pessoal: 16

Post Scriptum: Para quem estiver interessado, as castas são: Códega do Larinho, Rabigato e Viosinho e andou 8 meses em barricas de carvalho francês.