domingo, Janeiro 25, 2009

Quinta de Macedos (Douro) 2001

Ao fim de 8 anos continua a mostrar, quase na plenitude, o que era quando a juventude ditava regras. Robusto e cheio. Consegue, entanto, apresentar personalidade. Não envereda por caminhos fáceis. Opta por trilhos cheios de pedras, enviesados e escuros. Austero.
A fruta, densa, estava envolvida por fortes impressões minerais. Muita cera e graxa de sapato juntaram-se no rodopio cheiros. Evoluiu para sensações de lagar. Intenso o cheiro a azeitona (preta) esmagada. Pedra, muita pedra, acercou-se do nariz. Começou a ficar, no ar, o odor do cachiço, do engaço. Húmido, com terra preta, bem negra. Manta morta. Passaram minutos e minutos, e ele sempre de peito cheio e musculado. Atravessaram-se, ainda, uma fila de cedros. O ar balsâmico atenuava a coisa, dando-lhe, por momentos, brandura. Aliviava os sentidos (cansados).
Os sabores andaram por entre o químico e o mineral. Por vezes, apresentaram postura arrebitada, quase petulante. Houve períodos difíceis. Acidez pedia urgentemente por comida corpulenta.
Um vinho que nunca tentou mascarar o seu carácter rústico e campestre. Ficou a ideia que as agruras da terra tinham sido enfiadas numa garrafa. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum: O que será dele daqui a 8 anos?

quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Quinta do Infantado Reserva (Porto) Dona Margarida

Não compro tawnys genéricos. Vai distante, muito distante, o tempo em que bebia aqueles Portos de gama baixa, que eram temperados com limão ou lima e refrescados com uma pedra de gelo. Sem esta combinação, eram particularmente desinteressantes e enjoativos.
Ao passar pelas prateleiras, reparo com alguma atenção para um vinho do Porto com o Selo de Melhor Compra atribuído pela Revista de Vinhos. Assolado pela distinção e recordando, momentaneamente, a nota que levou, arrisquei na compra.
Foi aberto, e aqui entre nós, com enorme desconfiança. Parecia-me quase impossível que dali saísse qualquer coisa de atraente. Não podia. Tinha oferecido pouco menos de 9€ pela garrafa.
Mas larguemos a ladainha (que já dá para ter um texto de dimensão razoável).
Aromas ricos em frutos secos, bem misturados com figos e passas. Notava-se que havia ali, também, uma forte presença de tostados. O café era, por demais, evidente. Um pouco de chocolate com leite e caramelo faziam-lhe companhia. Nunca se tornou enjoativo, revelando uma surpreendente frescura e finura, que foi melhorando, dia a após dia. Um pouco de iodo (e vinagre) ia dando, de tempos a tempos, complexidade.
O sabor tinha sensações secas. Avelãs, nozes e amêndoas. Bem embrulhadas (pelos tostados). Fresco, vivo e com bom prolongamento. O final tinha a duração suficiente para largar (na boca) um conjunto de sensações bem apetitosas.
Encerro dizendo: Comprem e bebam. Sintam as nuances que ele vai tendo depois de aberto. Para estar sempre pronto no frigorífico. Nota Pessoal: 16

domingo, Janeiro 18, 2009

Quinta do Cerrado (Dão) Touriga Nacional 2001

Considerações iniciais
O rótulo estava tapado. A garrafa estava metida no meio de outras com o mesmo ano. A responsabilidade da selecção dos vinhos foi de outro louco. Todos foram decantados e servidos através de mão estranha. A vizinhança era de peso, com mais fama. Com o rótulo à vista desarmada acredito, piamente, que o resultado poderia ter sido outro. Adiante!

Calmo na forma e no conteúdo.
Fruta cristalizada. Saltaram aos olhos o cheiro da fruta levemente quente por cima do bolo rei. Um doce aconchegante. Ultrapassada a entrada, deslumbravam-se no horizonte soalhos encerados, reluzentes. Ceras e vernizes.
Caminhando por entre o vinho, foram surgindo ao ritmo de cada cheiradela frutos secos, aninhados por entre folhas secas. Umas serviriam para chá, outras nem por isso. Pequenos pontos avermelhados começaram a espreitar. Eram as ginjas embebidas em licor.
Evoluiu, evoluiu para outras coisas. Começou, a dada altura, a ficar mais primaveril, mais campreste. Flores rasteiras, muita alfazema, inúmeras hortênsias (coloquei-as no caderno, depois de ter visto o rótulo). Adoro esta popular e quase inócua flor. Por meio, com vontade de passar despercebida, avistei, provavelmente toldado pela loucura enófila, uma laranjeira em flor.
Passados largos minutos, já o ponteiro tinha traçado um razoável percurso, foi servido um pouco de chocolate com leite e uns rebuçados de caramelo. Era o epílogo.
O paladar apresentou frescor, vivacidade. Todos os sabores eram oferecidos na dose certa, bem misturados. Ninguém tinha preponderância. Secos e finos. Para mim, havia ali uma curiosa nota mineral que parecia quer marcar diferença. Macio. Despedia-se (quase) pela calada, tentando embalar o inquieto espírito. Nota Pessoal: 17

Se não estou em erro, não custava mais de 15€. Portou-se de forma muito digna perante vinhos que custam quatro ou cinco vezes mais. Foi uma bofetada bem forte na cara.

Post Scriptum: Até a madeira (de carvalho) é nacional.

sábado, Janeiro 17, 2009

Dona Matilde (Douro) Branco 2007

Pareceu-me ser um branco bem trabalhado, com boa exuberância aromática. A fruta surgia bem misturada com o vegetal (que lhe dava carácter e frescura). Tudo redondo, apelativo e consensual. Falemos, se possível, mais um pouco sobre o vinho.
Ao primeiro choque entre mim e ele confrontei-me com cheiros de espargo, de folha de tomate e figueira. Já agora, e antes de avançar, começa a ser tradicional este aglomerado de sensações em muitos vinhos do Douro. Apresentam uma (forte) componente vegetal que, em alguns momentos, sugere a casta sauvignon blanc. Provavelmente, comparação grosseira.
Pontuais sugestões minerais permitiram enfiar as narinas para o meio do calhau rolado.
A fruta passeava por entre aromas de pêra, maçã, lima e limão. Aqui e além afiguravam-se pequenas fendas por onde espreitava a manga. Suculenta.
Os sabores tinham amplitude razoável, com bom grau de frescor. O vegetal marcava, mais uma vez, presença assídua e combinava (bem) com a fruta. Coerente e homogéneo. O final foi deixando pelo caminho marcas de lima e limão.
Um vinho do Douro que vale a pena conhecer e beber, se possível, até à última gota. Vale pelo equilíbrio, pela limpeza que transmite e pela gulodice que possui. O que interessa mais? Nota Pessoal: 15,5

Post Scriptum: As castas são: Arinto, Viosinho, Rabigato e Verdelho. O rótulo tem qualquer coisa de Novo Mundo, não acham?

terça-feira, Janeiro 13, 2009

Utopia (Regional Beiras) Colheita 2001

Se tiverem queda para as flores, muitas flores, ou desejarem ter um jardim cheio de pequenos pontos coloridos, gostarão certamente deste vinho (que devia ser Bairradino). Quase que jurava, a pés juntos, que saíram do copo rosas, braçadas de rosas. Malmequeres, violetas e alfazema.

Encontrei este vinho num curioso ponto de evolução, atestado de cheiros do campo. Presença da fruta era ligeira, discreta, mas suficiente para o que se pretendia. Nada de exageros. Morangos, amoras e framboesas no ponto ideal de maturação.

Durante a noite, foi deixando paulatinamente aquele lado mais floral dando lugar à especiaria (mais ou menos exótica) e às ervas aromáticas. Cravinho, cominhos, carqueja e poejo seco (será usado para estes lados?) pareciam ajudar à refeição (uma coxa de pato assado no forno, acompanhada por suave puré de batata). Em jeito de terapia, acercaram-se aromas de eucalipto, de pinheiro. Com ares destes o peito fica limpo e apto para continuar a respirar decentemente.
Na boca revelou-se equilibrado, cheio de frescura. Corpo fino, esbelto e bem perfumado. No final pontificava uma original sensação citrina (talvez tenha sido a acidez a dar sinal). A sua aptidão para estar ao pé da comida ficava reforçada.
Mais um tinto de 2001 com muita vida, bem cozinhado pelos Cozinheiros, e com estrutura para ir fazendo a sua vida ao longo de muitos anos. Não é nenhuma Utopia esperar por estes vinhos (com Baga). Nota Pessoal: 16,5

domingo, Janeiro 11, 2009

Poeira (Douro) Colheita 2001

Era a última do lote. A secção onde estava encontra-se agora vazia, despojada de qualquer garrafa. Quem tiver mais, faça o favor de convidar-me. Aceitarei e beberei de bom grado.
Os primeiros aromas, que transpuseram as paredes do vidro, mostraram aspecto profundo, indiciando, logo à partida, sensações diferentes, consentâneas com o que se passava na rua. Frio e humidade. Muito minério, bastante molhado. Estava cheio de tinta permanente. Recordei com saudades a minha velha caneta Parker que fez companhia na escola primária. São cheiros que nunca desaparecerão.
Lousa, xisto e granito passaram a ser o denominador do vinho. Pedra escorrida. O ambiente continuava fresco. Encerados e vernizes conferiam-lhe, de tempos a tempos, um certo ar reluzente.
Durante largos minutos, não passou pelas ventas, qualquer impressão relacionada com fruta sobrematurada. Valha-nos isso. Foi evoluindo, foi modificando o seu comportamento. Muita coisa não sabia o que era.
A especiaria (influências de uma conversa paralela) deu sinais de vida. O aspecto, agora, era mais exótico, mais oriental. Misturam-se com uma boa carrada de folhas de chá. Umas secas, outras mais verdes. Na dose certa, sem tendência para o enfadonho.
Passaram pela frente, mais uma vez, odores desconhe
cidos. É irritante quando isso acontece. Desesperante quando não se consegue fazer qualquer comparação.
A fruta, que entretanto surgiu, tinha tez muito azul. Vinha molhada, borrifada pela água.
Os sabores estavam repletos de finura. O corpo não tinha gorduras supérfluas, indesejáveis. Cintura estreita. A roupa assentava que nem uma luva.
O mineral e o químico estavam bem evidentes. O fim era levemente marcado pelo cacau preto.
Evoluiu (durante 8 anos) de forma bastante digna. Não perdeu nada e é capaz de ter ganho muito. Acredito piamente que iria evoluir ainda mais. Para onde? Para muito longe. Não sei! Nota Pessoal: 18Post Scriptum: Um gajo quando gosta, gosta mesmo.

sábado, Janeiro 10, 2009

Vale da Corça (Douro) Colheita 2001


Viver uma vida sem paixões ou sem ódios, verdade seja dita não tem graça. É como se estivéssemos a trincar qualquer coisa sem tempero. O meu olhar sobre os vinhos não anda longe disto. Tenho assumidamente paixões e tenho, também, alguns ódios de estimação. São sustentados, apenas e apenas, pelo meu gosto. Pouco mais interessa. Acho, particularmente, enfadonho andarmos a falar do mesmo e a gostar do mesmo. É tudo muito cinzento, tudo sem sangue nas veias. Então se olharmos para os nossos críticos, raras são as vezes em que sobem ao palco para dizer: Epá não gostei! Epá, gostei! Epá comprem aquele! Epá, não gastem dinheiro naquele!
Tanta ladainha para quê? Simplesmente para encher mais linhas!

Vale da Corça (o topo de gama do produtor) veio de uma vinha da Quinta da Brunheda. Tem a originalidade de ter a casta souzão no lote (as outras são a touriga nacional e o tinto cão). Mas embrenhemos-nos dentro do vinho. Cheiros, muitos cheiros de fruta caramelizada. Saltavam, em redor do nariz, fartas sensações meladas, de marmelada, de ameixas e figos bem maduros. Acreditem que, em certas alturas, fixava-se a imagem da mistela que a minha mãe fazia quando estava constipado. Chá de cenoura com açúcar mascavado (lembram-se?). Era tão doce. Passas, sultanas acercavam-se do copo. Espesso.
Mudou um pouco de estilo, aliviou um pouco o peso e surgiram pela frente algumas ervas aromáticas, pimentas e chocolate. Sempre eram aromas diferentes. Graças a Deus.
O paladar, curiosamente, conseguiu apresentar uma saudável faceta vegetal. Aliviou, deste modo, a pressão, o peso que existia. As pimentas sentiam-se (estranho, não é?). Bem vincadas, fortes (para não destoar). O final, como seria de esperar, estava carregado de intensidade.
Decididamente é uma forma de ver o vinho que não agrada aos meus sentidos. Impressiona, é um facto, mas não acompanha decentemente uma refeição. Depois o preço, para não destoar, é elevadíssimo (em alguns locais custa quase 100€). Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Estes vinhos parecem generosos sem aguardente. Dou de barato que possa estar enganado.

domingo, Janeiro 04, 2009

Cabriz (Dão) Colheita Tardia 2004

Enfiado numa típica garrafinha de Colheita Tardia. O contra-rótulo está ausente. Parto do principio que foi feito essencialmente com as castas tradicionais (ou não) da região.


O aroma está limpo, franco. Não despertou grandes emoções, pautando-se pela sinceridade (o que não é mau). Sensações de laranja e tangerina abordam o nariz na primeira cheiradela. Umas pitadas de menta combinavam correctamente com a lima e o limão. Podia-se dizer que estava tudo coerente, bem misturado, mas sempre num registo tímido e ligeiro. Uma breve visualização de frutos secos parecia quer dar-lhe um pouco mais de untuosidade.

O paladar era, tal como o cheiro, simples e ligeiro. Conseguiu deixar na boca, ainda assim, fruta citrina e um pouco de frutos secos. Acidez estava enquadrada no corpo. E pouco mais tenho para dizer. A partir de agora apenas ocorrem desvios enófilos que pouco interesse têm.
Em termos genéricos um Colheita Tardia do Dão com pouca história, sem capacidade para enredar o consumidor. Custou na loja do produtor pouco mais de 8€. Nota Pessoal: 13

sábado, Janeiro 03, 2009

Quinta da Leda (Douro) Colheita 2000

É apenas mais um vinho que faz (fazia) parte da minha vida como enófilo. É, no entanto, mais um caso de paixão (quase) morta. Depois da Colheita de 2003 comecei a desviar o meu olhar. Raramente olhava para as botelhas que estavam encalhadas na cave. Parecia que a chama estava irremediavelmente apagada.

Num acto de fúria, de desespero, peguei numa garrafa e tirei de lá de dentro o recheio. Era um tinto cheio vida, que mexia no copo de forma elegante, sóbria. Parecia que tinha estado à espera para bater-me na boca, colocar-me de joelhos e provocar um pedido desculpas pela ligeireza dos meus pensamentos.
Os cheiros mostraram subtilezas. Vagueavam descontraidamente por entre os vernizes e a cera. Um pouco de madeira velha. Passaram, depois, pelos balsâmicos. Ciprestes e umas quantas folhas de eucalipto caídas pela terra negra davam imensa frescura. Quase que refrescavam as minhas ventas. Olhei, mais para dentro, e deslumbrei, lá no meio, a fruta. Madura e escorreita. Temperada pela especiaria. Tudo tão limpo. Rodei o copo, lentamente, sem pressas. Deixei-o aquecer (só um pouco). Surgia, então, o tabaco, o cacau, o café. Com meiguice, meio melódico. Era como se fosse um calmante para alma do enófilo.
Os sabores estavam vivos. Não enxerguei, ainda, o fim deles. Mais uma vez ouvia-se a mesma melodia (desculpem-me este excesso). Era um misto de fruta, de torrefacção, de especiaria. O final estava coberto de graciosidade. Pelo meu lado a coisa só terminou quando a última gota desapareceu na goela. Um tinto que evoluiu (durante 8 anos) de forma honrada, merecedora de elogios. Tudo tão calmo. Nota Pessoal: 17

Post Scriptum: Porque será que as novas colheitas (ex: Touriga Nacional, Vinha da Ribeira, Vinha do Pombal) não despertam tanto interesse? Será que os caminhos que trilham têm assim tantas encruzilhadas que confundiram o consumidor? Há assuntos que não entendo. Para mim, perderam o glamour do passado.