sexta-feira, dezembro 26, 2008

Soalheiro Alvarinho 2007


Antes de rodar para outros lados e abandonar por momentos o vicio da prova (assenta como uma luva naquilo que faço: corromper, adulterar, falsificar) e da estúpida necessidade de escrever, largo aqui, provavelmente, os últimos comentários de 2007. Fica registado para a memória futura deste blog mais um aglomerado de palavras.
Soalheiro Alvarinho 2007. A cor que passava pelo vidro era cristalina. O aspecto induzia os sentidos. O copo estremecia molhado. Por fora escorria. Dava a ideia que tinha sido tocado pelo orvalho. Vibrante, nervoso. Cheio de nuances esverdeadas.
Os aromas eram bonitos, pautados pela finura e equilíbrio. Era fresco, demasiado fresco. A lareira pedia por algo assim. Muito vegetal, mais herbáceo. Erva, relva, espargo e folha de loureiro. O mineral era, aqui, muito forte. Sobressaíam imagens da ribeira, de pedra molhada, de seixo, de calhau rolado. Humidade elevada. Completou-se com maçã verde (bem ácida), pêra, limão, lima e um pouco de laranja, (que ganhou preponderância quando o mercúrio do termómetro subiu). Era, sem dúvida, uma trupe de cheiros bem vestida.
Sabores afinados e leves. Revelaram um comportamento que combinava o vegetal com o mineral. Espargos verdes surgiram temperados pela lima, pelo limão. Levemente adocicados pela laranja. Sentia-se, mais uma vez, aquele toque orvalhado. Tudo tão limpo e tão simples. O final exemplificava o quanto é desnecessário o uso da força (para deixar boas recordações).
Um alvarinho moderno e sofisticado. Por 8€, acredito piamente que seja uma boa proposta. Desta vez alinho pela maioria. Nota Pessoal: 17

Post Scriptum: Reunião de pessoas ociosas a falar na vida alheia, habitualmente sentadas ao Sol. É o que faço, quase todos os dias, na rede. Falar de pedaços da vida de quem vive do vinho.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Dona Paterna Alvarinho 2007


Ok, não mudei de assunto. Continuei com os Alvarinhos. No meio do Inverno, com o frio a bater nas paredes da casa, vejo-me enfiado no meio da cave com estes vinhos por todos os lados. Sem arrependimento. Vê-se que têm qualidade (crença pessoal) e que as diferenças, entre eles, são mínimas (outra crença). Desta vez, optei por verter no copo um Dona Paterna Alvarinho 2007.
Curiosamente a cor voltou a ser, um pouco, carregada.
Os aromas ou cheiros tendiam, no ataque inicial, para as flores (de aspecto amarelo). Carregadas, mais uma vez, de pólen. A fruta oferecida era essencialmente laranja, tangerina e limão.
Vale a pena falar da frescura?
Parece-me que não. Seria chover no molhado. Adiante que ele não merece divagações inócuas.
De um momento para o outro, cheirei um aglomerado de sensações herbáceas que orientaram as narinas para a folha de loureiro (verde), para a mimosa, para a salva (aqui entre nós, são apenas influências das investidas que tenho feito com algumas ervas aromáticas). Um pouco de tília e um pouco de mel (muito leve) deram-lhe um suave toque adocicado. Apenas tempero.
Passemos para os sabores. Entrou na boca coberto pelo vegetal (espargo). Durante o tempo que permaneceu dentro (da boca) trincaram-se uns quantos gomos de laranja. Quase untuoso, quase meloso, com o vegetal a dar a frescura necessária para ter vivacidade e ânimo. Despediu-se através de um final relativamente longo e crocante.
Belo vinho, possuidor de uma complexidade bem interessante, capaz de desafiar a boca e o nariz. Acompanhamento gastronómico? Basta o vinho. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum: Agora, divirtam-se nestes dias.

domingo, dezembro 21, 2008

Reguengo de Melgaço Alvarinho 2007


Mantenho-me com os Alvarinhos. Este, produzido e engarrafado por Hotel do Reguengo de Melgaço, surgiu no copo com um amarelo a tender para o forte, a indiciar, talvez, uma idade que não tinha. Um facto curioso.
Os cheiros eram intensos, quase gordos. A fruta apresentou-se, ao mundo, com muita força. A miscelânea de cheiros ia desde a banana, o ananás, a pêra, a maçã, o pêssego, mais ainda a laranja, a tangerina e o limão. Acreditem que o rodopio, o entrar e sair de frutas, era intenso e o limite ficava na imaginação. Cabia-me, apenas, a função de inventar aquilo que mais gostava.
Um curioso toque cerealífero enfiou o nariz para o meio de cereais, do pão. Eram muitas, e acredito mais uma vez em possíveis falhas na análise, as sugestões de panificação (Terá sido por causa do bolo rei que estava em cima da mesa?). Caminhemos na descoberta de aromas. Flores amarelas, carregadas de pólen, intensificavam as tonalidades do vinho. Mel fresco (experimentem a colocá-lo no frio) e um pouco de chocolate branco deram-lhe untuosidade, tornando-o mais cheio, mais espesso. Aqui e além um pouco de relva fresca (sempre é um vinho alvarinho).
O sabor
estavam atestado de fruta madura. Corpo intenso, com bom prolongamento. Estava bem envolvido, bem misturado, redondo e capaz de aguentar com pratos menos leves.
Um alvarinho com um comportamento menos mineral, menos v
egetal e menos crocante. Um estilo mais cheio, mais robusto, mais sénior. Os 13,5% de graduação alcoólica também ajudaram.
Epá (como di
z o outro) porreiro: Gostei do género. Vou guardar um par delas. Nota Pessoal: 16,5
Post Scriptum: Este Alvarinho é mais carote. Custa para lá dos 8€, mas acho que vale o preço.

sábado, dezembro 20, 2008

QM Alvarinho 2007

Mesmo em tempo frio (as nossas casas são tão desconfortáveis), sabe (muito) bem engolir uns goles de vinho branco, encostado à lareira. Acaba por ser um cenário estranho, cheio de contradições, mas interessante. E não precisa de ser com um daqueles vinhos encorpados, barrados a madeira.
Este alvarinho, engarrafado pelas Quintas de Melgaço, surgiu no copo abarrotado de sensações parecidas a cabeça de fósforo que iam combinando com a pedra molhada, a água da ribeira. Tinha um aspecto sóbrio, quase austero. O tempo (de espera) ajudou-o a libertar-se, deixando sair cá para fora do copo muitos cheiros a relva, a erva. Estava, nesta altura, metido no meio de um mundo herbáceo, fresco e vivo. Folhas e folhas de aspecto verde (figueira, feijoeiro) ajudavam no cenário. Tudo espalhado pelo chão.
As gotas de limão, de lima, da tangerina e laranja trouxeram-lhe o esperado ar citrino. Reforçavam-lhe a vivacidade. Depois acalmou, tornou-se um pouco mais complexo, mais intrigante. Começaram a sobrevir imagens de pequenas flores brancas. No fim, era acrescentado um pouco de pimenta branca. Era o tempero.
Sabor citrino, mineral, apimentado e cheio de sensações vegetais. Harmonioso e leve na boca. O final encarregou-se de largar coisas suaves e atraentes.
Um alvarinho de perfil rio que mostrou ter capacidade para envolver o consumidor. Pareceu-me que estava bem arranjado. O preço dele andou à volta dos 7.50€. Nota Pessoal: 16

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Quinta do Vale Meão (Douro) Colheita 2000


Antes de começar, avanço com uma declaração de interesses. Estou perante um vinho que, por uma razão ou por outra, nunca morri de amores. A colheita de 1999 marcou muito o meu olhar sobre ele. Depois, quando aparecia pela frente, em algumas provas cegas, teimava em não ser um dos eleitos e ficava, quase sempre, lá no fim da lista. Não gostava dele. Um rol de atributos que não agradavam. Parecia sina.
Desta vez, deu-me a volta e acabei por engolir em seco quando percebi que tinha eleito como um dos melhores vinhos da noite o Quinta do Vale Meão (colheita 2000). Não podia. Não podia ser! Erro de análise? Ou no passado teria sido mal compreendido? Adoro as minhas incongruências.

Terra no nariz, cheio de árvores e de arbustos por todo o lado. Era forte, muito intensa a carga vegetal. Estranho não é? Um vinho daqueles lados não devia cheirar tanto a isto, não acham? Pelo menos a região assim indicia. Continuamos no mesmo registo. A imagem adensa-se, completa-se, com cogumelos, com terra negra revolvida. Um vinho com boa dose de sobriedade. Continuemos, vasculhemos mais um pouco. Pedras, cantaria. Aqui sim, percebe-se. Era o granito e o xisto a falarem. Um pouco de menta, de balsâmicos cumpriam a função de refrescar, de alegrar. Um conjunto aromático que revelou nobreza e boa dose de complexidade.

Os sabores estavam cobertos de especiaria, de ervas aromáticas. Era curiosa, mais uma vez, a sensação de hortelã. Mastigava-se uma mistura temperada por tomilho, pelo alecrim, pelos oregãos, pela pimenta. No final explodiam (isso mesmo), na boca, flores de coentro (alguém já sentiu essa sensação?). Fino no trato, com a acidez a não deixar cair o vinho. Suportava-o bem.
Um vinho que evoluiu bem (muito bem mesmo). Estava calmo e não tinha tiques de sobre-maturação. Verdade seja dita, não consegui apanhar qualquer dose (exagerada) de fruta. Vou penitenciar-me. Nota Pessoal: 17
Post Scriptum: Penso muito nas minhas comparações. Quando as faço, acredito nelas, mesmo sabendo que corro riscos em tornar-me patético.
Post Post Scriptum: Touriga Nacional (35%), Tinta Roriz (30%)
Touriga Franca (15%), Tinta Amarela (10%), Tinta Barroca (5%) e Tinto Cão (5%).

sábado, dezembro 13, 2008

Adega de Pegões Colheita Seleccionada (Branco e Tinto)

Vou rematar rápido nas apresentações. Estamos perante uma dupla de vinhos bem conhecidos do consumidor (mais ou menos apaixonado). Representam, em muitos aspectos, o que pretendemos de um vinho para todas as ocasiões, com várias facetas e objectivos. São capazes de agradar ao enófilo mais experiente e ao enófilo menos experiente. Serão, provavelmente, raros aqueles que farão caretas de desaprovação. Depois as suas tiragens são enormes. É obra!

Adega de Pegões (Terras do Sado) Branco Colheita Seleccionada 2007
O lote, agora, surge sem a casta Pinot Blanc. Apenas Arinto, Chardonnay e Antão Vaz. Está cheio de fruta madura, conseguindo apresentar fruta de cá e de lá (dos trópicos). Pêras e melão misturavam-se com o ananás e manga. Tudo bem feito, tudo limpo e directo. Uns gomos de laranja deram-lhe um ar mais rico. A madeira parecia-me mais discreta que em colheitas anteriores (tornando-se numa vantagem). Deu apenas sinais (quando a temperatura aumentou) através da baunilha e das avelãs. Mesmo assim sem conseguir incomodar por ali além. Existia aparente equilíbrio entre a fruta e ela.
Sabor fresco e frutado. Comportamento redondo e saudavelmente vivo. Baunilha e suave gordura marcavam o final. Tudo sem arestas e pronto a beber. Preço abaixo dos 3€. Nota Pessoal: 15

Adega de Pegões (Terras do Sado) Tinto Colheit
a Seleccionada 2005
Os aromas eram de fácil empatia. Agradaram logo à primeira vista. Conseguiram-se desdobrar em flores, em especiaria, café moído, cacau em pó e em sugestões balsâmicas. Tudo na devida proporção e com alguma complexidade aromática.
Na boca confirmou o equilíbrio. Carnudo e mastigável. Talvez ainda um pouco jovem, mas sem agressões, mostrando ser um vinho muito certo e bem feito. Os taninos estavam vivos, conferindo uma secura agradável nas gengivas. Final de boca médio, mas suficiente. Preço abaixo dos 6. Nota Pessoal: 15,5

São vinhos que podemos chamar de modernos e atraentes (como quase todos os vinhos saídos desta Adega Cooperativa).
Com estes preços pedirmos mais será, provavelmente, um abuso. Devemos é reflectir e muito sobre os outros que custam dez vezes mais e são incapazes de satisfazer na mesma proporção.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Quinta do Portal (Porto) Vintage 2006

Viro um pouco a agulha e meto novamente a faixa dos Vintages.
Jovem, com cor retinta (como é normal). Espesso no aspecto.
No copo encontrava-se uma interessante quantidade de aromas, que iam vagueando por entre as flores e mato. Boa e saudável dose vegetal. Caminhou, depois, com destino à fruta madura, com amoras e ameixas a marcarem forte presença. Enriqueceu, e ainda bem, com especiaria, com destaque para a canela e para o cravinho. Muitas ervas secas (tomilho, alecrim, carqueja). Uma breve passagem por sensações químicas e minerais deram-lhe a necessária austeridade.
O paladar era razoavelmente amplo, com boa porção de sabores. Fruta estava bem combinada com a canela e o vegetal (que se notou, com mais evidência, no final de boca). Bom nível de frescura (que surpreendeu), com os taninos a comportarem-se de forma bem educada. O final, para não destoar, deixava na boca coisas saborosas.
Não sendo um Vintage de primeira linha, é um Vintage que consegue desafiar o nariz e a boca do enófilo. Está prontíssimo a beber (se calhar destinado a ser bebido jovem).
Assumo, aqui, que prefiro beber vintages novos, pela simples razão de não ter tempo para esperar pela evolução deles. Perdoem-me aqueles que pensam o contrário. Este custou-me menos de 20€. Nota Pessoal: 16

terça-feira, dezembro 09, 2008

Krohn (Porto) Colheita 1968

Eventualmente estarei a repetir-me em palavras, em comparações. O risco em cair nos mesmos termos é, evidentemente, muito grande. Depois de umas intrépidas rodadas por entre vinhos do Porto e vinhos da Madeira, o que ocorre à cabeça é muito parecido. Qualidade elevada.


Quando estavam no copo, era provocado, picado, para tentar adivinhar o que boiava dentro do recipiente (todos eles foram servidos, numa primeira fase, às cegas). Um jogo giro. Uns mais secos, outros menos secos. Uns com frutos secos, outros com citrinos. Em certos momentos, cheirava e saboreava café, canela e caramelo. Outras vezes saltavam à vista sensações de verniz, de encerados, de iodo ou éter. No fim, ficava com a enorme satisfação de ter conhecido mais um belo vinho português.

Este Krohn 1968 pertence à família dos Portos Colheita e foi guardado em madeira durante uns largos anos. A cor dele estava carregada de brilho intenso. Vagueava por entre tonalidades amarelo torrado, laranja e castanho.
Aqui os aromas eram secos, sugerindo quase sempre frutos secos. A panóplia era grande: Avelãs, amêndoas, nozes e cajus. Figos. A casca de laranja caramelizada, dava-lhe um pequeno toque citrino. Um leve fio de canela em pó entrelaçava tudo. A complexidade era mais que suficiente para deixar-me quase sem argumentos e colocar-me no devido lugar.
O sabor, correndo novamente riscos, era cheio de torrados, com uma pequena ponta doce a envolver tudo. Acidez tornava-o fresco, muito fresco. Saboroso, intenso. Pela língua sentia-se muita coisa. Nota Pessoal: 17

Post Scriptum:
Eng
arrafado em 2007

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Sercial FEM (Madeira) Muito Velho

Bom, escusado será dizer que dei voltas e voltas para saber o que era. Completa ausência de referências. A garrafa apenas diz Sercial FEM Muito Velho (terá sofrido um estágio de muitos anos).

O cheiro que largou trazia agarrado a si uma forte intensidade a torrefacção. Muito café, em grão, moído. Fruta citrina deu-lhe uma enorme frescura. Lima, limão e laranja conseguiam criar uma espécie de corrente de ar. Efectivamente muito fresco. Um pouco de vinagre, um pouco de iodo. Regressam os aromas a vernizes, a frutos secos. Sentia-se, mais uma vez, aquela impressão do soalho, do móvel, da mesa. Uns paus de canelas.
Aromas e cheiros bonitos e complexos, que pediam para indagarmos mais um pouco, sempre com a esperança de ir mais além.
Na boca, via-se que tinha ali um vinho saboroso e pungente, com toques de pimentas ácidas e frutas cítricas. Café, vernizes, canela. O final era longo e muito gostoso.
A garrafa, já vazia, ainda consegue libertar um rodopio de essências que prendem os sentidos. Nota Pessoal: 17,5

domingo, dezembro 07, 2008

Blandy's Madeira Bual 1977

Vinhos da Madeira estão na última fronteira a ser atingida (ainda faltam muitas). Tenho depositado, também, muito esforço na interpretação deste vinho. As recentes provas têm-me proporcionado um conjunto e sabores e cheiros que quase desconhecia.
Escolher palavras para falar sobre este vinho estão, ainda neste momento, carregadas de ingenuidade e ligeireza. São reveladoras do vasto desconhecimento que existe. Independentemente de tudo isso e mais alguma coisa, não fico acanhado em partilhar, oferecer-vos meia dúzia de comentários, muito pessoais, sobre um vinho da Madeira que tem aparecido frequentemente em cima da minha mesa. Por um motivo ou ou outro, este Bual 1977 da Blandy's Madeira Wine tem sido usado e abusado como aperitivo, como digestivo ou como simples desbloqueador de conversa. É um vinho que satisfaz por si só.
Ao fim de muitos dias aberto e quase no fim, (encontra-se em frente de mim, enquanto vou falando), consegue ostentar um conjunto de sensações muito ricas, indiciando uma complexidade que, honestamente, tenho alguma dificuldade em discriminar. Existem aromas de maracujá. Será possível? Tangerina e laranja. Olhando para dentro dele, de olhos cerrados, saltam à vista cheiros iodados, madeiras envernizadas. Soalhos velhos, mas reluzentes. Descanso o nariz. São só uns minutos. O que resta na garrafa é muito pouco para poder acompanhar-me enquanto escrevo. Deixem-me saborear. Café, muito grão de café. Avelãs, carradas de avelãs.
O paladar mostra uma vivacidade enorme, quase desmedida. Acidez alta, a dizer-me que, apesar de estar nas últimas, está longe da morte. Reaparece o maracujá, o café, as avelãs. O final, aquilo que fica quando desaparecem as derradeiras gotas da boca, é longo e carregado de sabores.
Acabou. O copo está vazio
. Nota Pessoal: 18

Post Scriptum: Engarrafado em 2007

sábado, dezembro 06, 2008

Niepoort Secundum (Porto) Vintage 2001


Já o disse mais que uma vez: Os Portos e os outros generosos (como o vinho da Madeira) são ainda uma lacuna na minha aprendizagem como enófilo. Ultimamente tenho feito um esforço enorme (quase dacroniano) para provar mais. Aqui, tal como noutros em assuntos, o meu conhecimento é, em alguns casos, literário. o é mau de todo.
Os primeiros cheiros que entraram no nariz indicaram uma enorme preponderância para as violetas, com uma breve passagem pelo mato (húmido). A sensação flutuava por entre cores roxas e azuis e meio verdes. A fruta, madura e envolvente, insistia nessas cores. Mirtilos, amoras e cerejas (daquelas escuras). Ameixas, geleia e marmelo. Coloquei o copo de lado durante algum tempo. Tinha que descobrir, ou inventar mais cheiros ou aromas (como queiram). Com essa necessidade, dou comigo de volta do caramelo, por cima da canela. Mudam as cores. Passam a ser mais acastanhadas. Uma miscelânea de chocolate espesso, ideal para barrar um bolo, pão de ló seco, figos secos e amêndoas pareceria dar o mote final. Complexo.

Na boca estava muito guloso, curiosamente bem redondo e com a acidez a proporcionar uma excelente frescura. Muita potência mastigável neste Segundo da Niepoort.
Para um Vintage que poderá estar atravessar a fase de clausura, o prazer e satisfação foram (muito) grandes. Nota Pessoal: 17,5

Acompanhou queijos, um bolo de chocolate e no final acalmou a alma. Fui dormir.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Catralvos Moscatel (Setúbal) Superior 2003

Acabou a garrafa. Andava a ser desbastada com enorme lentidão, sempre ao fim do jantar.
Trouxe-a para casa pela curiosidade, pela novidade, pela necessidade de conhecer mais um vinho. O rótulo e o contra-rótulo ostentam a designação Superior, o que não quer dizer, necessariamente, melhor. Enquanto era bebido, recordava-me do Moscatel Superior Dona Ermelinda 2000. Este Catralvos Superior apresentou inúmeras semelhanças na cor e no sabor. Tendencialmente carregado na cor. Com aromas e sabores relativamente simples, com forte inclinação para as sensações (demasiado) doces, bastante meladas, que conseguem, com muito esforço, serem refrescadas pela raspa de laranja e tangerina. Baixo nível de frescura (outra marca). Depois surgiram os frutos secos e aqui e além um rasgo de canela. Nada mais.
Outro aspecto importante: a necessidade de controlar a temperatura, evitando que suba em demasia. Só assim se consegue tirar o melhor partido deste tipo de moscatéis, evitando que se fique enjoado (em excesso).
Segundo o que se lê no contra-rótulo, esteve durante cinco anos em cascos de carvalho.
Existem no mercado propostas mais interessantes que este Moscatel Superior. De qualquer modo, consegue apresentar um preço bem mais decente que o congénere da Casa Ermelinda Freitas, que é estupidamente caro. Nota Pessoal: 13,5

terça-feira, dezembro 02, 2008

Duorum Colheita 2007

A aliança entre João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco andou (e se calhar ainda anda) na boca de muitos. Ao ler o que se tem escrito sobre o projecto (destes dois homens), percebe-se que a ideia é tentar chocalhar o mercado, com o objectivo de provocar, muita gente, colocando no copo vinhos competitivos, que possuam boas tiragens e, acima de tudo, dêem ao consumidor apaixonado qualidade elevada.
Tem sido admirável o empenho de José Maria na relação com o anónimo (nos últimos grandes eventos: Encontro com o Vinho e Sabores 2008 e Porto e Douro Wine Show 2008). Como enófilo, como apaixonado pelo assunto, reparei na linguagem fácil usada por ele, na paciência disponibilizada para fazer passar a sua mensagem. Achei curioso vê-lo a percorrer e a provar vinhos de outros produtores. Parecia, perdoem-me a ligeireza nas palavras, alguém que estava agora a começar, aprender.

Deixando a introdução, venho a terreno (há que aproveitar para brincar) para partilhar com vocês algumas impressões sobre o Duorum Colheita 2007.
O cheiro transmitiu um conjunto de sensações frutadas, de grande intensidade, conseguindo juntar, a isso, seriedade e austeridade. Amoras, ameixas e groselhas pretas. Robustas e cheias.
O tempo tornou-se amigo do tinto. Ajudou, e muito, a meter cá fora outras coisas, outros aromas. Um pouco de mineral, que combinou com a pimenta, deu um empurrão. Depois, bem depois, os cheiros mudaram de registo. Comecei a notar que havia algo da terra. Embrenhou-se naquela sensação a terra seca, a palha, a fruto seco, a folha seca. Sei lá... impressão? Imaginação? Independentemente de erros de análise, achei curiosa a força e vigor que tinha (recordava o Meandro).
O sabor tinha intensidade, tinha estrutura. A fruta, bem marcada, dava ao tinto um aspecto carnudo, razoavelmente robusto. Trincaram-se. A acidez e taninos ajudaram na festa. Por meio, um pouco de mineral (que refrescava). No fim de tudo aquela sensação seca (que custou a destrinçar) deixava marca.
Apetece-me dizer: temos aqui coisa séria por pouco menos de 10€. Fiquei com a ideia, no entanto, que estava muito jovem, fechado. Aposto, portanto, que daqui a uns meses estará mais solto. Nota Pessoal: 15,5
O Reserva, que aí vem, eleva a fasquia. Só espero que o preço indicado, menos de 20€, seja uma realidade.

Post Scriptum: Falta, agora, esperar pelo que vai dar a entrada do Esporão no Douro.