segunda-feira, Setembro 29, 2008

Quinta da Lixa Alvarinho 2007

Enquanto tempo ainda vai largando calor, meto aqui a minha opinião sobre um Alvarinho. Na volta, o Outono (e Inverno) será mais quente que o Verão. Já agora, que notícias têm tido das vindimas? Teremos bons vinhos da colheita de 2008?

Um alvarinho que mostrou quase sempre um forte cariz herbáceo. Folha de tomate, de figueira (já agora, alguém tem a noção do cheiro que a figueira liberta para o ar?), erva molhada e espargos. Tudo isto sobre um fundo mineral (vincado). Esta forma de estar deu ao vinho um aspecto húmido, fresco e vibrante.
A fruta, que surgiu, era tendencialmente verde, temperada ao de leve por umas rodelas de ananás, meia dúzia de tiras de manga e umas gotas de lima. Um bloco aromático bem conseguido e apelativo.
Os sabores voltaram a revelar sensações vegetais, herbáceas. Volta a ser fresco (o mineral contribui para isto), desde que entrou até que saiu. Pelo meio, sentem-se as tais rodelas de ananás e juntamente com as tiras de manga. No final fica um sabor agradável.
Este Quinta da Lixa Alvarinho 2007 anda pelas feiras de vinhos (que há muito deixaram de ter interesse). Experimentem comprar e bebam-no enquanto ele está jovem. Um vinho fácil de gostar, mas com boa dose de complexidade. Uma boa opção para os últimos dias de calor e sol. Nota Pessoal: 15,5

domingo, Setembro 28, 2008

Catchorro (Tinto Cão) Colheita 2006

O homem não pára. Quase todos os anos faz uma loucura, uma coisa nova. Agora Manuel dos Santos Campolargo lançou um varietal de Tinto Cão (Colheita de 2006). O nome, como sempre, está bem esgalhado: Catchorro (há muito que não ouvia esta maneira de chamar um cão).

Um tinto cão frio e fresco desde o início ao fim. Foram visíveis (para mim), durante a fase inicial, as notas minerais, com a lousa a tomar dianteira.
O posterior cheiro a húmus transportou o nariz para um ambiente húmido e florestado. As árvores tapavam a vista. Cerrado por cedros, pinheiros e eucaliptos. Tudo balsâmico, campestre e silvestre. Por muitas voltas que desse, não consegui apanhar uma nesga de fruta digna de registo. Se havia, o vi, não agarrei. Enriqueceu, ainda assim, com um ramalhete de pequenas flores e uma mão cheia com ervas aromáticas e especiarias.
O caminhar da noite fez deitar cá para fora cheiros a cacau, juntamente com um pouco de cera e baunilha. Levemente perfumados pelos fumados.
Na boca mostrou-se fino, com os taninos e acidez bem envolvidos no corpo. Corpo com arcaboiço mediano, mas suficiente para oferecer prazer ao palato. Sabores balsâmicos e minerais. O final era temperado, mais uma vez, por um leve fumado.
Um Tinto Cão feito para a mesa, feito para ir bebendo com comida por perto e que caiu pela goela sem se dar por isso. Nota Pessoal: 16,5

Teve um comportamento que em tempo algum usou da força para pregar o nariz e a boca ao copo. Pautou-se (essencialmente) pela delicadeza e elegância.
Por 10€ (mais euro, menos euro) temos aqui um boa compra. Sobre a longevidade, a título pessoal, não fui capaz de apontar uma meta, mas de qualquer maneira deitei umas quantas garrafas em casa.

quinta-feira, Setembro 25, 2008

Châteauneuf-du-Pape 2000

Continuamos com vinhos daquela noite, com os copos alinhados à frente da vista e com as garrafas colocadas num sítio qualquer. Depois do vinho do Drácula, trago para a liça um vinho francês. Um Châteauneuf-du-Pape de 2000. Assim à queima, o nome da Região de Origem ainda meteu respeito, mas quando vasculhámos, um pouco mais, o rótulo percebemos que não havia grande história para contar. Um vinho mis en boteille par Baptiste Carmagnac. Dei voltas e mais voltas, mas não consegui perceber quem é ou o que é.
Por desconhecimento de causa, acabou para facilitar a desilusão. Um mal (bem) menor. É um daqueles que se pode dizer mal (à vontade).

Saltou para o nariz agarrado a uma carrada de sensações aborrachas. Um bafo forte a queimado, a pneu, a alcatrão. Veio à cabeça a imagem do cheiro que a estrada liberta (quando o calor aperta). Dissipados os aromas iniciais, surgiram um conjunto de cheiros (um nadinha) mais interessantes. Adocicou um pouco, suavizou com uma pequena mão de rebuçados de frutas, um punhado de caramelo e pouco mais. Tudo demasiado ligeiro e parco em sensações e emoções.
Os sabores revelaram-se, também, estranhos e quase ausentes. Uma coisa aqui, outra além. Desgarrado, solto e fraco na substância. Safou-se, apesar de tudo, quando foi confrontado com a gordura (da comida).
Apesar de acreditar na boa vontade de quem colocou este tinto em cima da mesa, não deixou nenhumas saudades. Nota Pessoal: 12

Post Scriptum: Ficam a faltar seis vinhos. Este e o Romeno tiveram a felicidade de ficar nos lugares do fundo da tabela.
O outro que vem a seguir foi a fava da noite. Consequência de ter sido provado às cegas. Um vinho cheio de nome, vendido a preços de outro Mundo, que não deslumbrou ninguém.

segunda-feira, Setembro 22, 2008

Vampire Merlot 2004

Daqueles lados só tinha ouvido dizer que viveu, ou ainda vive (depende do ponto de vista) um indivíduo que, volta na volta, acercava-se do pescoço dos seus convidados. A dieta alimentar (dele) baseava-se naquele líquido avermelhado que percorre pelas (nossas) veias e artérias. Mais ou menos oxigenado, mais ou menos venoso.
Acredito que quanto mais jovem fosse a vítima, (bem) mais interessante seria o pitéu. Uma questão de vigor, de força e de frescura.

As palavras Vampiro, Drácula e a Transilvânia levam-me para muitos lados, para muitas viagens (bem tenebrosas), mas não para dentro de um copo de vinho. Nunca passaria pela minha cabeça, que naquela noite defronte do rio, tinha um copo com vinho nascido numa terra que faz estremecer o comum do mortal.

Cheiros muito doces. Roçaram, durante muito tempo, o enjoativo. Directo e simples na forma como se apresentou. Nada mais que umas bagas e umas groselhas. Por entremeio, qualquer coisa que recordava doce de tomate. Num timbre madurão e algo cansativo. Sem grandes complexidades, sem (grandes) motivos para dar mais um trago.
Na boca, os sabores pareceram-me, mais uma vez, planos. Regressaram os doces, em forma de compotas. A acidez, andava por ali, meio tonta, meio sem sentido.
Um vinho que trouxe pouco aos sentidos (ao contrário do nativo mais famoso da Transilvânia).
Um tinto Romeno mediano e limpo. Pouco mais que isso. Pela ronda (curta) que dei pelo site do produtor, pareceu-me ser um vinho de gama baixa, provavelmente de grande volume (digo eu). Talvez os outros sejam mais dignos de Drácula. Nota Pessoal: 13

Post Scriptum: Provado às cegas, juntamente com outros sete vinhos. É o primeiro que partilho com vocês.
Já agora, alguém viu o filme Nosferatu? Uma película de cinema mudo, típica dos anos 20. Está no lote dos meus clássicos. Ainda mete medo.

segunda-feira, Setembro 15, 2008

Lavradores de Feitoria Gadiva (Branco) Colheita 2007

Há coisas engraçadas. Recebi, no outro dia, uma mensagem escrita a dizer mais ou menos isto: "prova um vinho (tinto) da Lavradores de Feitoria que existe no Pingo Doce". Assim, sem mais nem menos. Acabei por trazer, também, um branco (com o mesmo nome). É sobre este que irei falar um pouco.

Entretanto, e como é hábito, durante algumas linhas, irei desviar-me do assunto. Não sendo escritor (longe disso - agora ando de volta do CERN), gosto de espalhar letras e palavras pela folha. Gosto quando a caneta larga ideias. A crítica do vinho fica em segundo plano, é o que menos interessa.
Continuando o desvio
, sempre tentei que o Pingas no Copo não fosse, meramente, um local onde pontificassem apenas notas de prova. Sempre achei redutor esta visão. Quando acontece, fico insatisfeito. O que encerra um copo vai para além dos aromas e sabores que, mais ou menos, se conseguem identificar. Existe mais. É a nossa vida, é a vida de outros (não é de ânimo leve que se diz: "não gosto"). São histórias e estórias.
Deixemos para trás as minhas estórias (do costume) e enfiemo-nos no copo.

Um branco (do Douro) que saltou cá para fora, pelo menos fiquei com essa ideia, com cheiros a espargos, a erva fresca, a rama de tomate. Acreditei, por momentos, que tinha pela frente sauvignon blanc. Era notório o impacto vegetal, com o verde a marcar muita presença. Com a evolução, a fruta acabou por surgir. Fê-lo de forma autoritária. Firme no modo como apareceu. Bem fresca, viçosa e suculenta. Agarrava o nariz de forma convincente.
Os sabores mostraram boa amplitude. Estrutura muito interessante (estou a pensar no preço que paguei por ele). Fruta e as sensações vegetais estavam bem misturadas, conseguindo formar um bloco coerente. O nível da acidez (alta) ajudava, e muito, a refrescar.
Um vinho branco, bem feito que conseguiu manter (sempre) um registo sadio, sem (nunca) descambar para aquele lado mais chato, mais monótono (que às vezes acontece). Um autêntico cesto de fruta que merece ser comido. Não estava à espera (de todo). Voltarei a comprar. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Nem sempre um vinho precisa de madeira.
Produzido com as castas Malvasia Fina, Gouveio e Códega. As uvas que deram origem a este vinho, são provenientes de uma das Quintas agrupadas à Lavradores de Feitoria, mais concretamente, das vinhas que envolvem a Casa de Mateus, em Vila Real. Vinhas com uma cota aproximada entre 430 e 450 m e um tipo de solo com predominância para o aluvião e xisto produzindo uvas com muito boa acidez e vinhos que mostram bem o seu carácter varietal. Informação retirada daqui.
O Lavradores de Feitoria Gadiva (tinto) colheita 2005 é, também, uma boa compra.

quinta-feira, Setembro 11, 2008

Cabriz Encruzado 2007

Foi (bastante) difícil de encontrá-lo. Por entre ruas, estradas e esquinas procurei aflito por ele. Há muito que não bebia o encruzado da Quinta do Cabriz. A coisa aguçou-se, ainda mais, porque ouvia e lia sistematicamente comentários elogiosos ao vinho. Tinha que o fazer passar pelo meu crivo, pela minha estranha maneira de olhar para o copo.

Mineral em toda a largura, bem acompanhado nos aromas e nos sabores por sensações de carácter vegetal. Tudo vivo, fresco e bem orvalhado. Num registo (muito) vibrante, nervoso e refrescante. Consegue manter, apesar da intensidade, seriedade e equilíbrio.
A fruta era, tendencialmente, citrina.

A madeira oferece, ao vinho, um conjunto de aromas secos, fazendo recordar avelãs (Por acaso, há muito tempo que não como. Quando era puto, volta na volta, subia até às avelãzeiras) e amêndoas. Apesar de estar bem presente, não se torna pesada, nem demonstrou vontade em ser protagonista (em excesso). Pareceu-me, sinceramente, bem integrada, conseguindo enriquecer o conjunto.
Na boca, o vinho demonstrou, mais uma vez, um perfil fresco, voltando a revelar aquela faceta mineral que apresentou nos cheiros. Um bom prolongamento. O final estava marcado pela madeira e pelos citrinos.
Mais um (belo) vinho branco que convenceu pela consistência e qualidade que revelou em toda a prova (tive a sorte de bebê-lo por duas vezes). Nota Pessoal: 16,5
Post Scriptum: Pior é encontrá-lo.

sábado, Setembro 06, 2008

Campolargo Verdelho 2007

Ainda descarregando alguns apontamentos sobre a meia dúzia de vinhos que fui bebendo ao longo do Verão. Tirando um ou outro, a grande maioria eram marcas de grande volume, de grande tiragem. Um dos que fugiu a essa normalidade, foi efectivamente o Verdelho criado por Campolargo (Bairrada). Já tinha dito uma vez, começa a ser muito curioso o aparecimento de vinhos brancos feitos unicamente com esta casta. Durante muito tempo, o único verdelho que conheci, se não estou em erro, era um Quinta das Maias (Dão).

Mas voltemos ao Verdelho de Campolargo (que fermentou em madeira).
Os cheiros que entraram no nariz revelaram intensidade vegetal, sugerindo alternadamente sensações a feno e a erva fresca. Era curiosa esta mutação. Por momentos, dava a ideia que estava enfiado no meio de um prado. A profusão de aromas adensou-se quando as narinas começaram a perceber que, pelo meio do campo, pontificavam fileiras de flores. Vestiam pétalas amarelas de várias tonalidades.
Neste momento, tenho que rectificar o que disse. Efectivamente quem fez aparecer essas flores foi a doentia necessidade (que tenho) de criar imagens dentro de um copo de vinho. Raios! Ao fim de tanto tempo, raramente consegui fazer um texto simples, mais ou menos coerente. Mas continuemos.
Os citrinos apareceram, de tal maneira, que reforçaram o carácter vivo que (o vinho) parecia ter desde a primeira cheiradela. Limão, lima e laranja. Era como se os espremesse, fazendo com que aquele sumo ácido e fresco escorresse pela mão, caindo num copo atafulhado em água a borbulhar.
O sabor, tal como os aromas, estava repleto de frescura, bem suportado pela acidez. Limonado e mineral. Foi capaz de se manter um bom bocado na boca. Boa amplitude.
A madeira, que (ainda) não tinha falado nela, conseguiu ser suficientemente discreta. Em tempo algum demonstrou vontade de exercer protagonismo. No seu guião, apenas dizia para dar um final amendoado e levemente melado.
E como a débil prosa vai longa, diria que este convenceu-me (bastante). Um belo vinho que custou qualquer coisa como 10€. Nota Pessoal: 16,5

quarta-feira, Setembro 03, 2008

Grilos (Dão)

Procuramos, procuramos, mexemos, remexemos. Experimentamos e voltamos a experimentar.
Nesta época que está a caminhar a passadas largas para o fim, (o Outono e o Inverno estão agachados na esquina à espera de serem chamados pela ordem temporal a que estamos habituados), o vinho que geralmente costuma correr para dentro do copo é tendencialmente ligeiro, escorreito, fresco e barato. A cabeça e o corpo, salvo raras excepções, não suporta emoções fortes, desafios enófilos de teor mais complicado.
Imbuído deste espírito malandro, verti recentemente para o meu copo as colheitas mais recentes da Quinta do Grilos, agora Grilos. Tinto 2006 e Branco 2007. Vinhos que não ultrapassam os 3.50€. Vinhos que surpreenderam pela positiva. Ambos mostraram-se modernos, redondos, sem arestas, conseguindo apresentar de grosso modo um interessante conjunto de argumentos (tendo em conta o que, geralmente, esperamos de vinhos pertencentes a esta gama - baixa).
Entremos um pouco mais dentro de cada um deles.

Grilos (branco) Colheita 2007. Encruzado e Cerceal-Branco foram as castas escolhidas.
Um branco bem conseguido, talhado para agradar e satisfazer. Provocou sensações bem frescas. Percebia-se que estavam lá dentro um pouco de banana, manga, bem como lima (e limão) e uns pedaços de pêssego. Este caldo era refrescado por cheiros de cariz vegetal, que fizeram recordar (um pouco) a erva molhada e folha de tomate. Receita bem aplicada.
Os sabores revelaram-se vivos, crocantes e frescos como os aromas. Boa amplitude.
Para não dizer mais disparates, diria que é um vinho que deu prazer e que serve muito bem seu propósito. Nota Pessoal: 14
Grilos (tinto) Colheita 2006.
Salta do copo com sugestões vegetais (casca de árvore, caruma). Liberto da mata, o fruto preto, bem como o cacau e tabaco ofereceram a este tinto um toque moderno, (muito) urbano. Percebia-se, mais uma vez, que o trabalho foi bem feito e que o objectivo estava bem definido. Um vinho de massas para agradar a quase todos. Consegue, ainda assim, revelar alguma austeridade através de uma leve impressão terrosa.
O paladar era fresco, com a fruta madura e os tostados a sentirem-se desde o momento que entra até ao momento que sai. Guloso. Um tinto que foi um achado para mim.
Uma nota à parte: o contra-rótulo diz que tem arcaboiço para ir mostrando as suas capacidades ao longo de 6 anos (talvez tenha sido do estágio em 6 meses em barricas de carvalho). Tenho dúvidas. Nota Pessoal: 14,5