
Não perderei muito tempo na introdução. Ela foi feita, em traços gerais, nesta
altura. Depois os meus rascunhos estavam mais ou menos alinhavados já algum tempo. A dificuldade esteve em descrever os vinhos de forma correcta, em caracterizá-los de forma consistente e coerente, tentando que vocês conseguissem perceber o que nariz e a boca iam descobrindo.
São
três colheitas de um
tinto que anda debaixo do meu olho, desde a primeira colheita (
2001). Tenho bem presente a correria que fiz para

caçar uns
quantos frascos deste vinho desenhado por
Sandra Tavares da Silva e
Jorge Serôdio Borges. Tirando a
colheita de 2002, que pareceu-me um pouco inferior - talvez influência do ano, a
desilusão nunca se abateu sobre a mesa. Os valentes euros que custam estes vinhos tem que ser bem justificados.
Desca
squemos Pintas de 2001. Confrontei-me literalmente com
um individuo que mostrou o que é apresentar-se
com maneiras. A potência e o vigor da juventude estão
bem controlados.
Amadureceu o suficiente para que os cheiros largados sugerissem
um vinho profundo e misterioso. Fresco, com a fruta
(mesmo doce) a surgir sadia, viçosa, sumarenta. No vidro reflectia uma visão matinal, repleta de pequenas flores orvalhadas, envolvidas sob uma
ténue camada de neblina. Madeira de aspecto exótico e especiaria eram largadas por todos os lados, por todos os cantos do copo.
Na boca demonstrou um comportamento cheio de precisão, de equilíbrio.
Filigrana pura. Os sabores ofereceram-me sensações difíceis de descrever. Bebam-na até à última gota. A
o virar da esquina quem sabe se a garrafa não se partirá?
Nota Pe
ssoal: 18
Em
2003, o
Pintas pareceu-me mais directo, bem mais quente. Os aromas, os cheiros, aqui,
andaram de volta de impressões mais doces, mais ardentes, mais redondas.
Mais anglo-saxónicas. A baunilha, o caramelo eram reforçados pelo chocolate com leite, pela canela. O registo adensava-se com odores a charuto, a tabaco, a folhas secas. Um
ardor alcoólico vagueava por entre as paredes do copo criando algum incómodo ao nariz e à boca. Começo a acreditar no que tenho ouvido por aí. Os vinhos deste ano
são picantes. Impressionam
(ninguém fica indiferente), mas falham um pouco na finura, na classe.
Nota Pessoal: 16
Com a colheita
2004, regressa a frescura, retorna o equilíbrio, a
alta
joalharia.
A balança apresenta os dois pratos alinhados (força e finura). Aparentemente são abandonados
(ou domados) alguns excessos revelados na colheita anterior. Apesar de ter apresentado uma face muito sensual, com uma voluptuosidade quase chocante, parecia que tentava combinar aspectos da
colheita de 2001 com a
colheita de 2003. Dois extremos obrigados a partilhar o mesmo vasilhame. O mentol envolvia-se com os frutos, com a madeira. Os meus sentidos eram levados a entrar num ambiente enigmático, onde chocolate preto e apara de lápis iam surgindo sorrateiramente. O paladar era concentrado, cheio.
Balanceava entre o lascivo e o sóbrio. U
ma vez para um lado,
outra vez para o outro. Aposto muito nele.
Nota pessoal: 17,5Fica a ideia que vale a pena continuarmos a guardar
Pintas e
Três Bagos Grande Escolha (de 2001).
Tintos que, aparentemente, não sofreram amarguras ao longo de 6 anos. Passaram incólumes pelos vários desafios. É certo que este espaço temporal não é suficientemente alargado para tirar mais conclusões, mas deram indicações
(falo por mim) que irão continuar a evoluir.
Post Scriptum: As fotos da vinha foram retiradas do site Wineanorak.