terça-feira, maio 13, 2008

Quinta do Monte D'Oiro

Estes foram provados em simultâneo com os Garrafeira da Tapada de Coelheiros. A prova (que dividi, aqui, em duas partes) tinha sido fruto da cabeça de alguém. Tornou-se um interessante comparativo entre dois produtores de topo.
Partilho, agora, as minhas impressões sobre três vinhos da Quinta do Monte D’Oiro. Reservas de 1999, de 2001 e 2003.

Não é a primeira vez que falo sobre eles. Nas primeiras páginas deste diário pessoal, lembro-me de ter escrito umas linhas. Nessa altura, foram feitas as pazes entre mim e eles. Durante muito tempo, não consegui compreender este syrah (com uma pitada de viognier) da Estremadura. A enorme falta de experiência (que continua a existir. Agora, anda aparentemente disfarçada) contribuía decididamente para isso.
Tal como os outros, estes foram provados em prova cega.

Quinta do Monte D’Oiro Reserva 1999

Curiosamente este tinto pareceu-me jovem, com mais força que os seus irmãos mais novos. Havia uma intensidade que apontava para anos recentes (só depois de ver o rótulo, reparei no enorme erro). Foi frontal na apresentação. Directo e peitudo na abordagem. Senti, durante algum tempo, um valente odor a verniz que combinava com lousa, grafite e carvão. Aqui o tempo (da prova) correu a (seu) favor. Atenuadas as primeiras emoções, chegou a vez de cheirar chocolate preto, amora preta (sabem, certamente, das dificuldades que tenho para identificar cores) e um conjunto de fumados. O meu nariz, pouco contente com o que ia caçando, conseguiu ainda imaginar sensações a rosas, a violetas. Pareciam aqueles ramos que se oferecem na despedida. Perfumava o ar.
O paladar era fresco. A força estava (bem) controlada pelo corpo. Gordo, amplo e equilibrado. O final era longo. Nota Pessoal: 17

Quinta do M
onte D’Oiro Reserva 2001
Recordando algumas coisas que já disse (escuso de maçar-vos mais uma vez), sinto que este vinho continua a apresentar excelente estado de saúde. Para mim, é um tinto que vence pelo perfume que está constantemente a largar cá para fora. A madeira sabe bem. Está ali para enriquecer, para melhorar. Não é a estrela principal. Devido à falta de comparativos, só surgem na cabeça palavras como: acetinado, aveludado, elegante e fino.
O paladar não destoou, nem um pouco, do que tinha cheirado. Longo no prazer. Um vinho que não é para nós.
Depois nem sempre é fácil escrever sobre o que (mais) gostamos. Nota Pessoal: 18

Quint
a do Monte D’Oiro Reserva 2003
Os aromas que entravam no nariz estavam repletos (mais uma vez) de intensidade. Havia profundidade, sem nunca perder elegância e finesse. Tudo andava em redor do chocolate em pó, pó de talco, tabaco. Pelo meio, fiquei com a ideia que um cheiro a encerado tentava transmitir a este tinto um ar mais aristocrático, fazendo lembrar aqueles salões, amplos e cintilantes. Parecia quer mostrar dimensão, amplitude.
Depois continuou a evoluir numa lógica doce, mas terrivelmente insinuante.
Na parte final, reapareceram as folhas de tabaco trazendo atrás ervas aromáticas. Concluíam o tratado aromático.
Os sabores sugeriam harmonia e frescura (comum em todos eles). Fino desde a entrada até à saída. Nota Pessoal: 17,5

Post Scriptum:
Destapadas as garrafas, reparei que a balança estava inclinada para os estremenhos.

13 comentários:

Pedro Guimarães disse...

Caro Pingus,

Na tua opinião o 2001 é vinho para ainda melhorar em garrafa? Arriscas um número?

Abraço
Pedro Guimarães

Pingus Vinicus disse...

Eu arrisco que pelo menos não está para morrer, tanto que tenho em casa duas garrafinhas.

Abraço

jose maria painha disse...

Caro Pingus

Essa foi certamente uma prova daquelas de ficar na memória e de fazer inveja a muitos enófilos.
Conhece os vinhos da Herdade do Zambujeiro, entre Estremoz e Borba? no fim de semana de 10 de Maio tive o privilégio de estar numa prova desses vinhos. O Zambujeiro 2004 é qualquer coisa de estonteante...
se já provou gostaria de saber a sua opinião, se ainda não o fez vale bem a pena.

Gus disse...

Eu também ainda tenho uma garrafinha do 2001.

Pedro >Guimarães disse...

Estás como eu...2 garrafinhas que não quero desperdiçar

Pedro Queiroga disse...

Caro Pingus,

..."Durante muito tempo, não consegui compreender este syrah (com uma pitada de viognier) da Estremadura"...
Pergunta de simples curioso. De certeza que este vinho tem Syrah e Viognier??

Pingus Vinicus disse...

Caro Pedro Queiroga também eu sou um simples curioso.

No site do produtor refere que o Reserva 1999 tem 97% de Syrah e 3% de Viognier

Contra-rótulo do Reserva 2001: 96% Syrah e 4% de Viognier

Contra-rótulo do Reserva 2003: 96% Syrah e 4% Viognier

Um abração

Édil Guedes disse...

Caro Pingus, desculpe-me pela involuntária indelicadeza ao não responder o comentário que há tempos você fez em nosso blog (http://confrariadoguedes.blogspot.com). Só o vi recentemente, quando reativei o espaço. Por dificuldades com o tempo e falta de jeito com o mundo virtual, acabei deixando a idéia apagar-se por longo período. Mesmo os encontros de minha confraria minguaram, mas nunca a relação com o vinho. Esta só fez crescer. E, como escrevi na “reabertura” do blog (http://confrariadoguedes.blogspot.com/2008/01/la-plus-que-lente.html), o vinho não se dá bem sozinho: é companhia que pede companhia. Então estamos de volta, do lado de cá do Atlântico, devagarzinho por enquanto, mas com boa vontade de comunicar e partilhar. Uma última coisa: sem saber que nos havia encontrado em 2006, visito com alguma freqüência o Pingas no Copo. Gosto do estilo pessoal que imprime aos seus textos e gosto de saber sempre mais sobre o vinho português, que sempre freqüenta a minha adega e a minha mesa. Um abraço.

Édil Guedes disse...

Caro Pingus, uma curiosidade: qual é o preço médio de um Quinta do Monte D’Oiro Reserva por aí? No Brasil, quem o traz é a Mistral Importadora, e o vinho custar-me-ia salgados R$ 210,00, algo como 80 euros pelo câmbio atual. Um abraço.

Pingus Vinicus disse...

Caro édil, por cá o preço ronda os 35€/40€

João Filipe Clemente disse...

Pingus, mestre da pena, descreves como poucos as emoções e prazeres despertados pelo nobre néctar. Se eu já tinha ganas de provar, ou melhor, tomar um Quinta do Monte D'Oiro Reserva, agora me deixaste lieralmente aguado! Pena que ele é tão caro por aqui! Vou ter que encomendar uma garrafita do 2001 a algum amigo que passe por essas bandas. Forte abraço Moçambicano desta terras Brasileiras.

Pingus Vinicus disse...

Caro João Filipe, de mestre tenho pouco. Tenho é um grande prazer em partilhar o que sinto, o que observo, o que bebo, mesmo que tudo esteja errado.

Um forte abraço

Ricardo Santos disse...

Boa noite

Descobri um Quinta do Monte d'Oiro de 2000 reserva Syrah, como descreve este exemplar?