segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Tarapaca

Atravessando o Oceano, aventurei-me pela longa e estreita cadeia montanhosa dos Andes. Uma muralha que barra os ares vindos do Pacifico. O Chile, é um daqueles países do Novo Mundo que vai marcando pontos nas paixões enófilas. Para mim, um ilustre desconhecido. Contam-se pelos dedos de uma mão os vinhos que já provei, vindos deste país da América do Sul. Um canto do mundo que sempre despertou muita curiosidade. Parece-me que existe, por ali, qualquer coisa de europeu que o torna diferente do resto dos seus vizinhos mais quentes, mais latinos, mais especiados. Posso estar profundamente equivocado, mas é a imagem que ele me transmite.
Este Carmenère 2004 (nascido em Maipo Valley) comportou-se, mostrou uma actuação diferente do que geralmente estou habituado a provar, a beber. Não é muito difícil. Cada dia que passa, cada mês que passa, cada ano que passa, a avalanche de marcas, de novos produtores é demolidora. Deixo-me ir no meio da torrente. Não vale a pena tentar travá-la.
Muito perfumado, fresco, cheio de brisas. Atreveria-me a dizer que tinha aberto uma garrafa recheada de bálsamos. Não me ocorre outra comparação. Provavelmente, sugestões daquilo que penso ser o clima do Chile. As tais imagens que nós criamos, produzimos dentro de nós. Concepções alternativas de uma realidade que não conhecemos correctamente.
Bastante húmido, cheio de notas terrosas, mentolado. Num registo muito light, colorido, alegre e bem disposto. A pimenta dava aquele toque mais quente, lembrando uma latina morena, de lábios grossos e insinuantes. Pelo ar, libertava-se um leve rasgo a chocolate com leite e tabaco. Na boca, também muito fresco, muito mentolado, com a fruta bem viva, nada madurona. Não sendo uma boa relação preço qualidade (custou-me sensivelmente 9€ numa grande superficie comercial), não deixa de ser interessante e que vale pena experimentar. Mostrou que noutros lugares, deste esburacado e estropiado mundo, se fazem vinhos bons. Nota Pessoal: 14,5


Post Sriptum: O Vale de Maipo ficado situado no Chile central, numa região limitada pelas montanhas de Andes ao leste e pelo rio de Maipo ao norte. Tem um clima caracterizado por um baixo nível de pluviosidade.

sábado, fevereiro 24, 2007

Canopus

Sempre gostei de olhar para as estrelas, para o espaço, para o grande cenário negro que abria todas as noites. As viagens intergalácticas sempre me cativaram e nos (meus) fabulosos anos 80 sentar no sofá para ver séries como o Espaço 1999, o Caminho das Estrelas ou o prosaico e infantil Buck Rogers propocionavam as tais viagens pela imensidão do universo. Ficava estarrecido com as inovações tecnológicas que via.
Foram estes filmes naíf que despertaram em mim o gosto pela ciência. A ciência (optei pela matemática - a verdadeira ciência da vida) levou-me para caminhos onde a racionalidade, o mecânico, o átomo, a molécula, os teoremas tentam mostrar o porquê, a razão de toda a vida. Trilhos que não permitem abordagens mais ou menos fantásticas aos fenómenos do universo.
Aos 17 anos abandonei, desviei-me dos pilares educacionais que a minha família seguia. A mãe e o resto da família olharam para essa mudança de esguelha, com muita desconfiança. Sentia-me um subversivo. Estava a sair das fronteiras estabelecidas pelo clã. Era a primeira vez que alguém qestionava as regras, as normas, os dogmas adoptados.
Durante anos a fio tive acaloradas, perigosas discussões epistemologicas sobre as razões que me levaram a mudar, a renunciar à tradição. Não queria ser dominado. Desejava dominar a minha vida, as minhas passadas, encontrar sempre uma razão plausível, fundamentada para o que acontece na natureza. Não havia lugar para respostas enigmáticas, parábolas, analogias, certezas absolutas. A evolução não se compadece com isso.
Ao fim destes anos, em que os conflitos existenciais foram constantes, voltei a olhar para as estrelas. Para uma estrela em particular. Costumo contar à minha filha que "as pessoas quando morrem vão para as estrelas. Acordam durante a noite e visitam-nos enquanto estamos a dormir". Ela, meio crédula, vai acreditando. Ela tem um pai que acredita que as pessoas, quando morrem, transformam-se na própria natureza. Um pai que não acredita noutras vidas. Não somos eternos, nem mesmo na memória. O universo e as suas leis é que ditam o que devemos fazer.

Post Scriptum: Viagem feita com um vinho (Canopus Reserva 2004) produzido a partir das principais castas do Douro, Touriga Nacional, Tinta Roriz , Touriga Franca e Tinta Barroca. Será que estão previstas novas viagens? Esta não me agradou, nem um pouco. Pareceu-me que a máquina estava a circular cedo de mais. Sem ter feito todos os testes necessários a uma boa navegação. Meio desequilibrada, com barulhos esquisitos. Nota Pessoal: 12,5

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Quinta do Perdigão Touriga Nacional 2004

Um produtor do Dão que tem vindo paulatinamente a intrometer-se no mercado, quase sem se dar por ele. Pertence à geração que empurrou, que inicou a revolução silenciosa no Dão nos anos 90 e que tenta mostrar que neste canto nacional, enfiado entre montanhas, de clima instável e difícil é possível fazer, construir belos vinhos. É a primeira vez que contacto com um vinho da Quinta do Perdigão. As voltas que dei para o encontrar. Apesar de viver numa terra virada para Lisboa, nem sempre é fácil encontrar determinados vinhos. Para conseguir, comprar algo diferente preciso de atravessar o Rio Tejo, fazer 30/40 km, ou mais. Beber um vinho que saia do deserto que preenche as prateleiras dos hipermercados (lugares onde compramos grande parte dos vinhos que bebemos) é, muitas vezes, tarefa difícil. Apetece-me dizer que muitos vinhos são virtuais, não existem, não chegam à maior parte dos consumidores. Não saem das fronteiras regionais, de nichos especializados. São apenas conhecidos, porque alguém falou neles ou porque aparecem na escrita especializada. "Longe da vista, longe do coração".

Antes de partilhar com vocês as minhas impressões sobre o dito, digo-vos que este varietal nasce numa vinha com 7 ha, situada na zona de Silgueiros, Viseu, onde se reconhece a técnica francesa na plantação. A própria adega está equipada com material francês. José Joaquim Perdigão, arquitecto de 45 anos é o proprietário deste pequeno projecto, que descobriu o gosto pelo vinho em Paris onde estudou durante 7 anos. Informações retiradas da Revista de Vinhos, nº 144, Novembro de 2001.

O vinho pareceu-me fechado no início, mas a piscar-me o olho, avisando para não ir embora já. Aristocrático no trato. Um pouco altivo. Nada de facilidades, de conversas oucas e sem sentido. O requinte e o luxo eram os pilares mestres. É daqueles que olha para nós, observa a forma como estamos vestidos. Não aceita muito bem se estivermos mal amanhados.
Cheirava, libertava odores que sugeriam mato, floresta, perfumado pela fruta e pelas flores. A presença de nuances minerais e balsâmicas enriqueciam o conjunto. O tabaco, as folhas secas, o cacau revelaram-se no final. Andavam escondidos. Deixaram a sua marca, encerrando o desfile de aromas.
Na boca, o corpo revelava ter estrutura mais que suficiente para aguentar os taninos. Acidez na medida certa, colocada milimetricamente. É o que se costuma dizer: No ponto. Um final baunilhado, meio fumado, com boa intensidade.

O que posso dizer mais? Que gosto de sentir um vinho que consegue aliar, conciliar a elegância com a robustez de forma quase irrepreensível. Fiquei com a ideia de que ainda está despertar, a evoluir. Por isso, vou deixar em paz a outra garrafa que tenho aqui em casa. Verei mais tarde se acertei ou me enganei (mais uma vez). Nota Pessoal: 17

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Loboseiro (tn) 2004

Não é a primeira vez que falo sobre este indivíduo. Na altura vinha vestido com roupa clara, mais adequada a outras temperaturas. Lembro-me de ter gostado dele, de o ter achado interessante (nunca mais o vi, nem sei o que é feito dele. Provavelmente, acontecerá o mesmo com este). Agora a vestimenta mostra tonalidades diferentes. Mais negra, mais escura. Um tinto do Douro (Lamego) que, na minha opinião, vem aumentar o nível de qualidade das opções disponíveis. O pior será encontrá-lo. Mas isso são outras histórias (Encontrar vinhos diferentes, que fujam um pouco à normalidade que inunda as paredes dos nossos hipermercados é tarefa difícil).
Voltemos então ao tinto, que é para isso que cá estamos. Tive a sensação que estava defronte de algo com carácter, com personalidade própria. Longe da moda. Nos tempos que correm, encontrar vinhos que não se vestem à moda é acontecimento raro. Quase em vias de extinção. Percebo. O mercado não permite, não deixa que se façam coisas diferentes. A pressão é grande e os investimentos têm que ter retorno o mais breve possível.
Mas regresso, outra vez, ao vinho. Havia por ali alma, um lado rústico que me desafiava. Muito amarrado no início. Parecia que tinha entrado para uma adega sozinho, meio abandonado, sem ninguém para explicar o que iria provar. As lembranças aromáticas a lagar, a pedra, mostravam-se de forma impositiva. Foi preciso abrir um pouco a porta para que o ar enriquecesse com a esteva, a giesta, o mato seco. Não muito longe, em redor das paredes, as flores, as amoras perfumavam o ar. Suavizavam aquele lado mais rude, mais agreste que ele tinha.
Na boca, o comportamento era consentâneo com os aromas. Nada desalinhado, nem mentiroso. Era aquilo, aquilo mesmo. Rústico, cheio, com pujança. Tudo oferecido pela natureza. Um pouco mais de afinação, de elegância, de subtileza, este vinho provavelmente iria mais longe. Nota Pessoal: 15,5

Este sim, trouxe-me algo.

sábado, fevereiro 17, 2007

E o prémio vai para...

Apenas um louco, um apaixonado pelo vinho como eu, é que faria 300 Km para cima mais 300 km para baixo no mesmo dia, para estar presente no jantar e cerimónia de entrega dos Prémios para "Os Melhores do Ano da Revista de Vinhos". Um dia extenuante, cansativo, mas que valeu, e muito, o esforço. Autêntica cruzada contra o tempo, contra a chuva, contra o trânsito só para chegar a horas e ver as verdadeiras estrelas, aquelas que aparecem todos os meses na RV.
Uma bela noite na companhia dos outros enobloguistas. Esta comunidade está cada vez mais coesa, mais unida, mais louca, mais alienada. Uma autêntica aliança de amadores, de tipos que se julgam capazes de avaliar um vinho. Um grande abraço para todos vós.
Pessoalmente, resta-me agradecer o convite feito pela Revista de Vinhos para estar presente neste evento.
Agora a lista dos eleitos. Sobre ela, não irei tecer qualquer comentário. São os escolhidos por quem sabe.
Vinhos de Excelência
Espumante Murganheira Vintage 2002
Muros de Melgaço 2005 (Alvarinho)
Redoma Reserva Branco 2005 (Douro)
Abandonado 2004 (Douro)
Barca Velha 1999 (Douro)
Batuta 2004 (Douro)
Charme 2004 (Douro)
CV 2004 (Douro)
Pintas 2004 (Douro)
Quinta do Crasto Vinha da Ponte 2004 (Douro)
Quinta Vale Meão 2004 (Douro)
Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador Tinto 2004 (Dão)
Quinta Foz Arouce Vinhas Velhas Santa Maria 2003 (Beiras/Bairrada)
Quinta de Pancas Premium 2003 (Estremadura)
Leo D´Honor 2003 (Terras do Sado)
Hexagon 2003 (Terras do Sado)
Marquês de Borba Reserva 2003 (Alentejo)
Esporão Private Selection Tinto 2003 (Alentejo)
Torre do Esporão 2004 (Alentejo)
Herdade dos Grous Reserva 2005 (Alentejo)
Pera Manca Tinto 2003 (Alentejo)
Herdade do Perdigão Reserva 2004 (Alentejo)
Quinta do Mouro 2003 (Alentejo)
Dourat 2003 (Vinho de Mesa)
JMF Moscatel Roxo 1971 (Setúbal)
Dom Rozés 40 anos (Porto)
Krohn 1966 (Porto)
Blandy Bual 1948 (Madeira)

E fui embora, que a viagem era ainda longa. Para o ano há mais...

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Garrafeira da Herdade do Meio (2003)

Andei perto, muito perto do que pretendo de um grande vinho. Desde que comecei nestas lides, muitos bons vinhos têm passado pelas minhas mãos, pelo meu copo. Não tantas como gostaria. Alguns nunca os irei provar. Pertencem a outra realidade, a um mundo que não é o meu. Da minha parte, contento-me em viver aqui. Fazer coisas simples. Caminhar, pisar suavemente a planície em plena Primavera. Olhar para os pequenos mantos de flores espalhados, colocados entre os sobreiros. Ver o orvalho da manhã a lavar a cara da terra, a realçar o perfume, o cheiro que brota das entranhas. Sentir a natureza a despertar, a espreguiçar-se, a chamar-nos para ao pé dela. O alecrim, o tomilho, o poejo indundam o ar com odores fortes. Ao longe numa casa meio perdida, lá no alto, a velha mexe a chicória. Sinal de que o dia começa. Os primeiros raios de sol entram pelas pequenas janelas bordadas com fios de teia. Nunca esquecerei esse aroma que costumava entrar no meu quarto sorrateiramente pelas frinchas da porta.
O pão, ainda fumegante, é perfumado pela compota feita aos modos das matriarcas, sem qualquer artefacto, sem artimanhas. Prazeres simples, olhados agora de soslaio, de forma jocosa por aqueles que se acham modernos, evoluídos. Tristes almas que renegam, que fogem das memórias, das lições das velhas matriarcas vestidas de preto. Nunca repararam que detrás daquelas faces enrugadas, marcadas pela dura vida, existem muitas histórias para revelar? A escola da vida. Um dia, iremos perceber que determinadas aulas eram importantes. Não podíamos ter faltado. Nota Pessoal: 17,5
Post Scriptum: Um Alentejano elegante, muito delicado, cheio de subtilezas aromáticas. Longe da sonolência que muitos dos seus compadres apresentam. Um Garrafeira de 2003.
Post Post Scriptum:
Hoje estou particularmente cansado, meio fatalista, preocupado com o desenlace da vida.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Quinta da Revolta, Tinta Francisca 2004

Vale pela curiosidade. Para mim, assim é. Elaborado, desenhado a partir de uma casta que raramente ou nunca aparece sozinha (acho eu). Estrutura débil, um pouco frágil. Repleto de tiques doces, onde as compotas e os licores eram presença constante e incomodativa. Quase que me atreveria a dizer: autêntica pastelaria em época de Natal (é capaz de ser um exagero). Impressiona no início, dado o impacto aromático com que se apresenta, mas depois cansa, chateia.
Nos sabores parecia que se colocava num patamar mais acima, mais interessante, mas sem se tornar num caso para mais tarde recordar ou repetir.
O álcool pareceu-me ter um papel demasiadamente importante, para o meu gosto. Nota Pessoal: 12,5

Post Scriptum: Vinho da responsabilidade da Sociedade Agrícola Valbom do Meio, Peso da Régua. Já agora que me encontro por estas bandas, lembrei-me do espectacular cabrito que todos os anos como no Varandas da Régua, sempre a olhar para o Rio.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Morgadio da Calçada 2004

Breve apresentação retirada do site:"Os vinhos Morgadio da Calçada são o resultado da parceria da família Vilas Boas e da Niepoort. Para Dirk Niepoort que tem um fascínio pelas vinhas de Provezende esta parceria permite explorar a criação de nova linha de vinhos DOURO e Porto."
Não tirando qualquer valor ao vinho, apetece-me dizer que gostei muito do rótulo. O autor é o arquitecto Siza Vieira. Quem trabalhou as uvas foi Dirk Niepoort. Mais um projecto em que se mete, que dá uma mãozinha. Este Douro provado recentemente mostrou um perfil moderno, que recordou grosseiramente o novo Redoma 2004 (pelo menos nos aromas).
Este Morgadio tinto apresentou-se sem arestas e pensado para agradar. De empatia quase imediata. O target de consumidores é alargado. Libertava cheiros a rebuçados de caramelo. A baunilha adocicava a compota, dando um toque mais exótico. O chocolate, o cacau, andava sempre por ali. Presença quase constante no desenrolar da prova. Mexedela a mais, mexedela a menos, estímulos terrosos perfumados por lavanda, menta e alfazema aliviavam o lado mais doce da pinga. Na boca, um pouco mais robusto, menos internacional, um tudo nada mais austero. Para mim, ainda bem. No entanto, pareceu-me que a acidez e os taninos ainda gritavam um pouco alto.
Não sendo um vinho para grandes estrondos, acredito que possa melhorar um pouco mais se o deixarmos dormir uns meses na garrafa. É mais uma opção vinda do Douro. Nota Pessoal: 15

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Bombeira, uma Herdade no Reino do Sul

Viajei até ao Sul, até à terra plana, seca e árida. Pequenas casas pontificam no horizonte, espalhadas. As árvores são coisa rara e escassa. Encontram-se ao acaso. É outro mundo, outras gentes, outros usos. O reino do Sul foi território desconhecido para mim durante muito tempo. Foi uma princesa árabe, com raízes bem fundas num califado ao pé de Évora, que me disse que existem outros aromas, outros perfumes, outras cores, outras pedras. Na alma dela notava-se, e ainda se nota, prazeres distintos e distantes dos meus. Olha para a vida de maneira diferente. Mais nostálgica, mais fatalista, mais contemplativa. Eu venho das montanhas, do granito. O sangue, em mim, corre de modo diferente.
Descoberto o reino, fui indo, cada vez, mais para baixo. Caminhei até Mértola, paredes meias com o Guadiana, o grande rio do sul. Percebe-se que o tempo, as memórias do passado estão bem enraízadas e vivas. Lá no alto do castelo tentei compreender aquelas gentes, de trato diferente do meu povo. Como seria viver aqui, em pleno século XII? Entrar numa casa para fugir à canícula. Refrescar-me nos jardins interiores e deliciar-me com um banho doce, de mel, amêndoas e leite. Em redor, esvoaçariam pássaros coloridos. Flores e pequenos arbustos barravam o forte hálito quente que percorre a larga planície. O vinho deveria ser servido aos estrangeiros como forma de quebrar barreiras e eliminar desconfianças entre os homens.
Bem lá no meio do Alentejo, no tal que dizem ser profundo, árabe, nascem três vinhos da Herdade da Bombeira. Vinhos da responsabilidade enológica de Paulo Laureano. Vinhos das Arábias.

Herdade da Bombeira Aragonês e Cabernet Sauvignon 2005. De estilo frutado e gordo. Suave e tímido mineral, bem como sugestões de mato tentavam elevar o nível de complexidade, mas sem o conseguir totalmente. Enquadra-se na gama de vinhos que são feitos para agradar a bastantes consumidores. É o chamado estilo consensual. O exemplo perfeito de um vinho que fará sucesso nos quatro cantos do mundo. Nota Pessoal: 14,5

Bombeira do Guadiana Escolha Trincadeira & Aragonês 2005. De perfil mais delicado, um pouco mais interessante. Com assertivas sugestões florais. A fruta parecia refrescada pela água do rio. De cariz silvestre. Nada de grandes maturações. Na boca entrava cordato, calmo, sempre muito fresco, fino e elegante. Nota Pessoal 15,5

Bombeira do Guadiana Escolha Trincadeira 2005. Mostrou-se ao mundo de forma muito sisuda. Introvertido. De poucas palavras. Quase que me fazia largar o copo. Fiquei tentado a não perder mais tempo com ele. Ainda bem que voltei atrás com as minhas intenções. Revelou possuir um carácter misterioso e desafiante. Conseguiu juntar a austeridade com a jovialidade de forma quase irrepreensível. O floral, a esteva, a terra quente ofereciam qualquer coisa que cativava, que prendia, que obrigava a ir cada vez mais longe. Será que o génio da lamparina tinha saído da sua clausura milenar? Teria saído sem ter dado conta? Ou alguma princesa árabe estaria por ali, envolvendo-me na sua dança hipnotizante, rodopiando em meu redor, soltando suspiros perfumados por jasmim e alfazema? Nota Pessoal: 17

A área de vinha estende-se para zonas cada vez mais exóticas.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Antão Vaz&Arinto 2005, um branco de Borba

Como isto é um blog de vinhos (ou certo, não sei muito bem o que é), convém, que sejam lançadas por aqui umas notas de prova periódicas.
Um branco proveniente da Cooperativa de Borba. Há muito que andava para o encontrar, mas a tarefa estava quase a transformar-se numa demanda impossível. Se não fosse um amigo de berço alentejano, esta pinga não teria passado pela minha boca. Não é um vinho muito complexo, mas é muito agradável. Limpo de aromas, com algum equilíbrio e estrutura.
Inicialmente, os aromas pareceram-me um pouco presos pela madeira. Foi melhorando a sua intensidade à medida que ia despertando. Impressões de maçã ácida, salpicados por gotas de limão, eram adocicadas pela calda do ananás. Mostravam que havia mais qualquer coisa para oferecer. Na boca a baunilha, os toques amendoados tapavam um pouco a fruta, não dando muito espaço para ela respirar. A acidez conferida pelo arinto pareceu-me um pouco discreta. Mas à medida que o vinho foi abrindo, acabou por se colocar no devido lugar e ajudou, e muito, a refrescar o conjunto.
Seria interessante provar este vinho sem estágio na madeira e realizar um comparativo. De qualquer maneira, um vinho muito bem feito, vendido a um preço espectacular, capaz de embaraçar muitos outros bem mais caros. Nota Pessoal: 14,5

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Carvalhais, uma viagem com vinho

O vinho, quando nos diz alguma coisa, pode levar-nos para dentro dos meandros do nosso íntimo. Viagens solitárias, cheias de simbolismo, de códigos, de representações muito pessoais. Não sou excepção. Desta vez, numa sexta à noite, enquanto as minhas mulheres estavam noutra sala, coloquei-me defronte da minha lareira e olhei para as chamas. De copo da mão, trouxe à memória uma das coisas que mais gostava quando era puto. Andar, ir de comboio até à terra. Nos idos anos 70 e 80 ainda havia um certo romantismo nas viagens feitas em cima do cavalo de ferro. Sinais do sub-desenvolvimento da altura. A partida estava cheia de ansiedade. Queria abandonar a capital e chegar o mais depressa lá a cima. A viagem chegava a durar 8, 9 horas. O tempo tinha que passar depressa, num ápice. Santa Apolónia, o local do início da jornada. O apito dava sinal para a partida.

A primeira etapa desenrolava-se no meio de uma paisagem industrial, cinzenta, um pouco apocaliptica, desorganizada. Era a partir da capital do Mondego que devorava as paisagens. Queria olhar para o que não havia na grande urbe. Os quintais, as casas espalhadas pela floresta, os pastores, as hortas começavam a marcar presença. Abria um pouco a janela e os cheiros, os aromas frescos e perfumados entravam e espalhavam-se pela carruagem. Enrolavam-se com o ferro, com o alumínio.
As paragens demoradas nas estações serviam para observar, com cuidado, os comportamentos das populações nativas. Traziam roupas que julgava só existirem em fotos. As mulheres de lenço na cabeça, atados de forma engraçada e curiosa diziam que estávamos a caminhar para o norte. Vendiam aos viajantes alguns singelos prazeres. Uma bilha de barro com água fresca, um rebuçado de mel, uma regueifa. Davam sempre jeito. Outras vezes, largavam um recado a alguém que vinha no comboio. Autêntica peça de teatro, cheia de recortes coloridos e alegres.
Seguíamos viagem. A paisagem, a vista, à medida que avançávamos, tornava-se mais rude, mais pura, mais enigmática. A linha estendia-se ao longo dos rochedos, num caminho estreito, quase ausente de luz, como se estivéssemos atravessar um longo túnel. A hora da merenda, da bucha, chegava. Um passar pelas brasas para descansar. Faltava um bom bocado para terminar a jornada. O destino ainda vinha longe. No fundo, pretendia que o tempo, o comboio caminhasse velozmente. Por vezes, tinha sorte. "Chegámos".
Toca a tirar as malas que a carreira está à espera para seguir caminho para o povo. O motorista era um conhecido. As perguntas repetiam-se viagem após viagem. "Então, como estão as coisas lá para baixo?. Estudos vão bem?. Quem tens à tua espera?". Respondia invariavelmente o mesmo. A avó, estava à espera. Era tempo de ir procurar os amigos, ouvir as novidades da terra. Da minha parte, estava encarregue de contar as histórias da cidade e dos seus avanços. De um e do outro lado, contava-se o que se tinha para contar.
O regresso, também de comboio, era muito mais triste, e muito mais rápido. Era o retorno à vida real. Cada minuto que passava era o prelúdio do fim.

Os amigos da cidade sempre olharam com muita curiosidade e com algum sarcasmo para a paixão que tinha pelos assuntos lá do campo. Nunca compreenderam e ainda não compreendem. No fundo e passados todos estes anos, guardo dentro de mim o desejo de voltar. É como se fosse parte integrante daquelas terras. O vinho esse, foi um Quinta dos Carvalhais Reserva 2000 elegante, calmo e inspirador. Nota Pessoal: 17

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Quinta do Ministro 2005

Uma curiosidade que vêm lá da Serra. Da Estrela. De uma zona, de um local sem grandes tradições no que respeita à produção de vinho. Este Ministro nasceu num berço, numa vinha antiga situada em Aldeia Viçosa, Guarda, nas encostas do Vale do Mondego. Elaborado a partir de um lote que, no mínino, considero curioso, digno de registo e pouco usual. Quase do outro mundo. Alfrocheiro Preto, Jaen, Rabo de Ovelha, Rufete, Tinta Amarela, Tinta Carvalha e Touriga Nacional. A enologia é da responsabilidade de António Narciso, que exerce também funções de Director de Adega na Quinta do Serrado e entre 1997 e 2006 foi o responsável enológico da Adega Cooperativa de Nelas. Fonte.

Um vinho com alguma irreverência, um pouco anacrónico, de difícil comparação. Não consegui enxergar qualquer semelhança, qualquer parecença com outros. Um senão. Pareceu-me que estava meio cru e aparentemente desorganizado. Dava a entender que não tinha descansado, estagiado o suficiente para ser bebido. Pena. Com um sono mais longo poderia ter dado, oferecido mais qualquer coisinha, algo mais. Acabou por sair do exame um pouco penalizado (por mim). Inicialmente, mostrou-se um pouco metálico, ferroso, quase roçando o desagradável. Com o justificável tempo de abertura, de espera, que estes vinhos precisam, fui sendo confrontado com um conjunto de aromas que, em princípio, só deveriam existir em vinhos brancos. Vá, comecem a rir! Hortelã, erva fresca e breves notas (imaginativas) de maçã, daquela ácida, de casca verde. A presença de fortes cheiros vegetais faziam-me recordar o quintal dos meus avós, pela manhã. Húmido, fresco, mineral. Terra molhada, pedras encharcadas. Na boca, voltou mostrar que estava incipiente, onde uma pequena impressão a gás (ou agulha) incomodava e distraia a prova. Mais uma vez, só posso dizer; Pena. De qualquer modo, tentarei provar este tinto da montanha outra vez. Acho que ele merece.

Para já a minha Nota Pessoal é 13,5 (provisória).

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Barão de Nelas

Dois vinhos do Dão, nascidos e criados na Quinta de Santo António do Serrado, Vilar Seco, Concelho de Nelas que, segundo os arautos, produz vinho desde os idos anos de 1741. Do produtor Carlos Pedro Barabona da Fonseca Paes de Brito. Mais um que quer apanhar o comboio da modernidade, sem perder a identidade, a história da casa e de uma região. Quando é assim, aplaudo e agradeço. Já agora e porque o saber não ocupa lugar, o título de Barão de Nelas foi criado por D. Luis I, rei de Portugal, por decreto de 22-08-1870 a favor de José Bernerdo dos Anjos e Brito. Fonte. A imagem, a sensação com que fiquei, que tinha dos vinhos deste produtor não eram as melhores no passado. Agora...

Barão de Nelas Touriga Nacional 2003. Um touriga muito fresco, mineral que fazia recordar o granito, a lousa, a pedra, a fraga da Beira. Alguma rusticidade inicial, embalava-nos numa viagem pelas adegas das casa senhoriais, pelos solares da Região. Notava-se que havia, qua andava por ali um toque clássico na forma de estar, de se vestir. Influência do título de nobreza que possui? As flores, naturalmente, marcavam presença de forma assertiva e afirmativa. A especiaria apimentava o vinho, dando-lhe um lado mais provocante e estimulante. Na boca, fresco, com algumas lembranças de menta e cedro. O corpo era fino, suportado por taninos finos e acidez muito bem equilibrada. Um vinho que prima acima de tudo pelo equilibrio, sem grandes exageros evidentes.
Nota Pessoal: 16,5
Barão de Nelas Reserva 2003
, numa linha muito semelhante ao seu parente Touriga Nacional, mas pareceu-me muito mais fascinante e delicado. A fruta mostrava-se num registo muito calmo, envolvida por suaves pitadas de licor de ginja. Bafos, odores de hortênsia perfumavam o alecrim, tomilho. Um vinho para ser bebido com toda a calma do mundo, longe dos rebuliços da vida e bem longe das passarelles. Atenção e concentração é necessária, não vá alguma coisa escapar. Se é adepto dos vinhos exuberantes, espampanantes, vistosos, cheios de fruta madura, não perca tempo com ele, não irá gostar. Eu gostei.
Nota Pessoal: 17

E continuando a provocar as hostes, ao contrário do Douro, o Dão, região que no passado foi o verdadeiro berço dos vinhos de mesa, tem estado a recolocar-se no mercado, a chamar consumidores para o seu lado através de "boas" relações/preço qualidade (atenção que coloquei aspas). Não deixa de ser estranho, porque a geografia dos solos também não é facil, a média da área de vinha plantada é muito mais reduzida que no Douro. Será que o motor de arranque, neste caso, não serão os topos de gama, mas sim vinhos de gamas intermédias e/ou mais baratos?