Bom, lá terei que encerrar o nosso I Encontro. Já agora, e antes que comece a divagar, o que me acontece muitas vezes, será que o Robert Parker soube do acontecimento e andava por lá, sem nós sabermos?
Outros registos, outras descrições irão surgir sobre o que se passou na noite de sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007. Serão diferentes visões. Todas elas complementares. Todas elas correctas. Mostrarão os diferentes olhares que temos sobre o vinho. É a critica do consumidor a funcionar em toda a plenitude.
A inauguração das hostilidades, das provocações decorreu durante o momento que estava destinado à prova. Serviu para quebrar o gelo, aquecer as conversas e libertar-nos do formalismo inicial. Depois do primeiro trago, tirámos os casacos, arregaçamos as mangas das camisas e a festa começou.
Tudo estava organizado
(e bem). Mesas, copos, cuspideiras e bolachinhas. Mas a
malta não quis saber daquilo e
trocou as voltas ao anfitrião
. Pegou no copo e lançou-se na prova dos líquidos, sempre em redor de uma única mesa. Os vinhos iam sendo apresentados por aqueles que os trouxeram. Nada de provas cegas, silêncio, apontamentos ou médias finais. Acabou por se tornar numa interessante e pequena montra do que se faz por esse país fora. Alguns dos néctares presentes tiveram o privilégio de nos
oferecer lições curiosas. Exagerando da minha parte, parecia que estavamos num pequeno EVS.
Aqui ficam os meus registos sobre algumas das pingas degustadas. A sua apresentação não tem qualquer indicação valorativa. Outras ficaram por provar. Não consegui ir a todas. Peço desculpa pelo facto, mas a viagem de volta para casa era grande e a policia espreitava, mesmo ali ao lado.
Um Messias Garrafeira 1983. Um bairrada da outra escola, de outros tempos, com outros sabores. Quem, nestes dias, tem paciência para provar este tipo de vinhos? Muito poucos. Deixei um copo esquecido, durante um bom bocado, e a evolução foi interessante. Será curioso sentir o pulso a muitos vinhos que andam por aí daqui a 20 anos. Não me vou esquecer.
O Quinta do Moledo Verdelho 2004, foi para mim uma estreia. Nunca tinha provado qualquer tipo de vinho de mesa, proveniente da Madeira. Gostei do nariz. Mas na boca, acelarava e desaparecia num ápice. Elixir de Baco, obrigadão.
Casa da Passarela Touriga Nacional 2005. Longe daquilo que esperamos de um Dão. A moda assim obriga. Ninguém quer ficar com as adegas cheias. Exuberante, pomposo, espampanante. Muito novo. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Será coisa para durar ou simplesmente criado para beber enquanto está jovem? Um bom exemplo para definir: vinho de prova.
Vô Bento Reserva 2004. Um castelão típico, espelhou muito bem a tradição de todo aquele imenso areal que circunda Pegões, Fernando Pó e Águas de Moura.
Sirga 2004. Várias vezes olhei para este vinho, pegava na garrafa, mas acabava sempre por escolher outra coisa. Com tantos nomes do Douro que andam por aí, fico cansado e confuso. Viro-me para outras terras. Será que nesta região só os topos têm interesse? Elegante, com sensualidade e acima de tudo muito afinadinho. É uma boa opção. Do mesmo autor do Poeira. O que andei a perder.
Pintas 2005 (amostra de casco). Dispensa apresentações. Corpo com estrutura. Tudo misturado com muita gulodice. Um bombonzinho. Apesar de estar cru e ter arestas por limar, deu indicações de que a qualidade, a consistência vai continuar. Pintas Character 2005 (também em amostra). Uma novidade. Vegetal, fresco e mineral. Elegante. Vai apresentar-se ao público com um preço bem menos doloroso. Aqui para nós: gostei francamente.
Sanguinhal 2001. Um estremenho feito com Aragonez e Cabernet Sauvignon. Nunca tinha bebido um vinho que cheirasse, deste modo, a pimentos. Houve quem perguntasse: "Onde estão as sardinhas?" Eram pimentos e dos verdes. Muito didáctico. Provavelmente terei andado a inventar, no passado, quando dizia que sentia, cheirava pimentos. Caramba, nunca tinha visto algo assim.
Barrancos 2005 e Paços de Selmes 2003 mostraram o que é ser alentejano. Num fio condutor semelhante. Com o carácter das terras quentes do sul. Aqui notou-se a pressão, a tendência dos gostos pessoais que todos nós temos, a inclinação pelas diferentes regiões e estilos. Curiosos e autênticas novidades para mim.
Arinto CampoLargo 2005. Um belo branco. Robusto, pujante. Necessita de algum tempinho para acalmar, organizar e mostrar-se. O copo onde foi servido pode ter prejudicado a sua prestação. "Um branco pensado como um tinto."
Hexagon 2000. Um excelente sadino. Elegante, boa amplitude aromática e gustativa. Cavalheiresco. Boa complexidade.
Os licorosos também estiveram presentes. Warre's LBV 1995, um LBV que é um vintage. Há muito que se tornou na minha escolha. Niepoort Colheita 1991, pareceu um pouco incaracteristico. O adiantado da hora, também não me ajudou. Finalmente um palavra para o Madeira Boal 10 anos. Companheiro da recta final, nos meus últimos momentos, da despedida. Os vinhos da Madeira continuam a surpreender-me.
O resto? Bom o resto foi conversa e mais conversa. Iguais entre iguais. Sem pretensões, sem nada escondido.
Quanto ao assunto da mesa e do garfo. As iscas de pato sobre folhado com molho de vinagre balsâmico, estavam saborosas. Ideais para acompanhar um Kracher Cuvée Beerenauslese 2003 (estou correcto?). Um colheita tardia oferta do anfitrião. Os lombinhos de linguado com molho de amendoas e chantereles, revelaram-se uma proposta suave, equilibrada, com tudo no lugar. Gostei. As presas de porco, tiveram uma exibição mais tristonha. Mas nenhuma ficou no meu prato. Na sobremesa, a tarte tatin com gelado de canela estava bem conseguida. Cumpriu o papel de encerrar as festividades, com chave de ouro.
No fim aparece o Aníbal, o Coutinho. Um abração para ti. Foi um prazer conhecer-te e vê lá se para a próxima vens mais cedo.
Só me resta terminar, este texto, com uma famosa expressão usada pelo jornalista Carlos Pinto Coelho: "E assim ACONTECE."
Obrigado a todos Vós. Pingus