terça-feira, outubro 31, 2006

Garrafeira de Tazem

Se existe coisa em que tenho orgulho é olhar para a minha mulher e vê-la a confeccionar pratos lá de cima. Uma alentejana de volta das receitas da minha família. Fico babado. E foi em redor de um belo arroz de polvo, bem caldoso, que bebi uma pinga da Adega Cooperativa de Tazem (Freguesia de Vila Nova de Tázem, concelho de Gouveia). Um Garrafeira 2000.
A COOP de Tazem deu um enorme salto na qualidade dos seus vinhos, com a entrada do actual enólogo, engenheiro Pedro Nuno (responsável também pelos vinhos da Quinta do Corujão e da Casa de Darei). Este jovem teve a capacidade para dar a volta aos sócios, introduzindo hábitos e métodos de trabalho que conduzissem ao aumento da qualidade e consequente sucesso nas vendas. O grande salto foi dado com o lançamento de vários varietais em 2000. Alguns deles (Touriga Nacional e Alfrocheiro) acabaram por entrar no lote dos eleitos do jornalista José António Salvador, num dos seus últimos guias.
Se querem um vinho cheio de fruta, potente e esmagador, não bebam, porque não irão gostar. Seria uma perca de tempo para vocês. Neste garrafeira dominam, principalmente, aromas de granito, lagar, musgo. Sempre numa linha húmida e silvestre. Folhas secas de personalidade indefinida aparelham com caruma. Perfumado com muitas flores. Cheguei a cheirar qualquer coisa parecida a rosas. Decididamente um vinho que anda muito longe da moda. Eu, pessoalmente, agradeço.
Entra fresco pela boca, sempre numa linha mineral e balsâmica. Suave, acetinado (talvez até demais). Com um pouco mais de músculo, de nervo, era capaz de voar bem mais alto. Final entre o curto e o médio. É, no entanto, um vinho feito para a mesa, para a comida.
Nota Pessoal: 14,5
Post Scriptum:
O Arroz de Polvo estava óptimo.

domingo, outubro 29, 2006

Aragonês das Servas

Depois da recente incursão à Beira Alta (a transmontana) através do Versus, meti-me a caminho, pelo copo, e fui até à planície, ao enorme Alentejo. Terra da minha mulher. É curiosa a combinação genética e cultural que existe cá em casa. Sangue lá de cima, com sangue lá de baixo originou uma bela pequena, de cabelos louros e olhos castanhos bem escuros. A minha filha.
Um vinho da Herdade das Servas. Um Aragonês de 2004, a Tinta Roriz lá de cima do Dão e do Douro. Este varietal encaixa na perfeição na categoria daqueles que classifico como vinhos gulosos. Pingas bem construídas, com objectivos bem definidos. Saber sempre bem (falo de mim, naturalmente).
Inicialmente com muita fruta, de calibre fresco. Ainda no pomar. Lembrei-me, curiosamente, daquele aroma que os pomares libertam de manhã, quando estão cobertos pelo orvalho. Estão a ver? Entretanto, pareceu-me que andavam a rolar pelo copo aquelas bolas de neve, os tais rebuçados de forma esférica, que são ou eram embrulhados em papel de cor vermelha. Alguma hortelã tornava este aragonês ainda mais curioso, jovial e atrevidote. Breve sensação de terra parecia quer dar um ajuste na complexidade. Com o andamento da prova, o café (ou algo parecido) acompanhou com chocolate. Um dupla que nunca mais desapareceu.
Na boca, guloso, repleto de fruta guarnecida por cacau e café. Taninos e acidez posicionados de forma equilibrada. Final bem curtido.
Um exemplo de um vinho que está feito para agradar a todos. Que sabe ou saberá sempre bem (o que provei era amostra, só com a indicação da casta e do produtor).
Nota Pessoal: 16

quinta-feira, outubro 26, 2006

Versus, o tal!

Versus 2004, um vinho que foi falado, comentado por essa internet fora. Uns argumentavam que tinha valor, outros enrugavam o sobrolho com alguma desconfiança. Ao nível dos críticos, os verdadeiros, notei que não havia consenso nas suas avaliações. É normal. Nada de extradordinário. É a liberdade expressão a funcionar e ainda bem que é assim. Observei e li cuidadosamente o que se dizia, o que se falava sobre ele.
Tinha que fazer o meu teste. Aquele que me interessa. É com o meu apertado exame, que decido quais os vinhos é que irei escolher para ter na minha garrafeira. A vida não está para andar a gastar euros, atrás de euros ao sabor do que os outros dizem.
O teste acabou por decorrer durante uma prova cega. Um vinho que foi literalmente adorado e odiado. Nem mais, nem menos. Não houve meio termo. Pouco consensual. Levou as paixões enófilas ao rubro. Reparei com curiosidade as expressões que iam saindo das faces dos meus companheiros, à medida que iam provando o dito.
Para mim, achei este beirão uma pinga muito interessante. Com muito carácter, com força, com presença. Algo inquietante. Uma força da natureza (desculpem-me este exagero). Representa, e bem, a dura região da Beira Interior, onde nasceu (estou a lembrar-me do excelente rótulo). Uma terra de extremos, de contrastes, de difícil trato, rude. Paredes meias com o Douro e com Espanha.
Desatavam aromas minerais, que se envolviam com a terra quente. Terra onde nascem as giestas, as figueiras do Diabo, a esteva. A fruta era fresca, com muitas flores em redor. Um leve aniz adocicava o odor que saltava do copo.
Na boca, enchia. De perfil peitudo, raçudo, por vezes agreste, mas capaz oferecer prazer. Os taninos e acidez estão bem guardadas no corpo. Um belo vinho beirão.
À honra das gentes que vivem em Figueira de Castelo Rodrigo e aos Beirões.
Nota Pessoal: 17

segunda-feira, outubro 23, 2006

O jantar da Quadrilha

Voltaram os jantares, com alguns dos mais intimos companheiros do Pingus. Fazia algum tempo que a quadrilha (Fernando Moreira, Jorge Sousa, Pedro Brandão e a minha pessoa) não se juntava, não se encontrava para conversar, beber e comer. As lides da vida têm impossibilitado e adiado constantemente o encontro.
Lá se arranjou uma data, ao fim de duras negociações. O local, o restaurante, estava estava meio apalavrado. Decidimos continuar em Alcochete, no Arrastão, paredes meias com as antigas secas do bacalhau e não muito longe das salinas.
Os vinhos. Optámos por dois brancos, dois tintos e um Porto 20 anos. A escolha foi livre. Cada um pensou no que quis, da forma que quis, sem qualquer imposição, sem qualquer restrição. Cada um serviu o seu vinho, sem referir qualquer pista ou indicação sobre o líquido que tinha trazido.
A ementa estava já definida. Bacalhau assado nas brasas, valentemente regado com azeite e acompanhado por batatas, ou melhor, batatinhas a murro e uma lombeta de porco. Queijos e sobremesa.
Falemos do que realmente interessa.
Em jeito de aquecimento, o Brandão meteu na mesa mais uma relíquia, que só ele consegue encontrar. É preciso ter paciência para descobrir vinhos esquecidos. Um autêntico alfarrabista dos vinhos. Um Caves Velhas Garrafeira 1962. Sem qualquer indicação de região. Com uma cor espessa, opaca. Aromas repletos de café, tostados e frutos secos. Com alguma vivacidade na boca. Interessante, curioso e ainda bebível. Foi posto de lado para ver o nível de evolução que aquilo ainda poderia ter, ao longo da noite. Valeu a pena vê-lo ao lado de um pudim de ovos.
Os brancos. Redoma Reserva 1999 (escolha do Jorge) e Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador 2005 (escolha do Pingus). Dois brancos com seis anos de diferença.
O Redoma mostrou uma postura mais masculina. Gordo e cheio. Com aromas a tangerina, laranja e melaço. Um vinho com personalidade. Acompanhou muito bem o bacalhau. Atribui-lhe a nota pessoal 16,5.
O Paço mostrou uma linha mais exuberante. Sinais da sua juventude. Floral, com fruta tropical e anizados. Sugestões de erva fresca. Baunilha. Na boca, a madeira pareceu-me em evidência. A necessitar de amadurecer e voltar a beber. Acredito que se torne num belo branco. Nota pessoal 16.
Nos tintos, o duelo decorreu entre um Quinta da Dôna 2003, vindo da Bairrada (escolha do Fernando) e um Duas Quintas Reserva 1999, do Douro (escolha do Brandão).
O Dôna mostrou um carácter moderno, elegante, apelativo e consensual. Sem arestas, bem desenhado. Chocolate, leite com cacau e fruta preta. A especiaria apimentava o aroma. Pastoso na boca, untuoso. Um belo vinho português, que nasceu numa região mal amada. Mereceu, e bem, o Prémio de Excelência que lhe foi atribuído pela Revista de Vinhos. Uma boa relação preço qualidade. Nota pessoal 17,5 e vai entrar para o lote dos meus eleitos.
Finalmente o duriense. Com aromas frescos, onde a fruta combinava suavemente com o mineral. Pareceu-me um pouco frágil e mais seco na boca. De qualquer modo, um vinho com qualidade e com bom nível de complexidade. Desenhado por um grande senhor do vinho português. Nota pessoal 16.
Terminámos com um Dow's 20 anos. Elegante, saboroso, repleto de aromas e sabores a frutos secos, canela, laranja caramelizada. Pessoalmente tinha saudade um Tawnie deste calibre. Nota pessoal 17.
Agora a quadrilha só voltará a juntar-se na Reunião Magna. No Encontro com o Vinho, dia 4 de Novembro.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Semana Penosa

Final. Terminou uma semana dura, longa, cansativa, quente de emoções. Fiz greve. Para mim, em defesa da minha dignidade pessoal, pelo respeito que mereço como individuo, como pessoa, pelo gosto e prazer que tenho naquilo que faço. Uma greve contra o chicote, a humilhação, a pancada. Greve, porque não sou culpado pelo défice público, pela fuga aos impostos que desgraça este país. Porque não sou culpado por sermos (des)governados por uma elite incompetente, medieval que nos orienta com chicote, que nos pisa, que olha para nós (o povo) com nojo e desrespeito.
Uma elite, palavra nobre demais para definir um conjunto de indivíduos, que se alimenta, que rapa tudo, que mina, que destrói como se fosse uma praga. Por vezes, imagino um fim da tarde, uma mesa redonda onde alguns comemoram, brindam, gargalham com as desgraças que provocaram: "Hoje aumentamos mais um imposto. Hoje lançamos mais uma taxa. Amanhã iremos diminuir os vencimentos. Para o mês que vem iremos sacar o subsídio do Natal. Tudo em prol do desenvolvimento do País, ou melhor tudo em proveito da nossa sobrevivência, do nosso sustento."
Desculpem-me este desabafo. Precisava dele. É um grito de revolta. Um lamento. Se calhar, um choro.
Para reconformar-me e esquecer este rebuliço, desci as escadas e fui acordar um vinho que estava adormecido na minha garrafeira. Quase esquecido. Passou por um sono de sete anos. Foi há sete anos que casei com a minha cara metade. Foi há sete anos que decidi mudar de vida.
O vinho esse, foi retirado devagar da cama onde estava. Os aromas iam despertando de forma amena, lembrando a terra húmida, revolvida. Terra onde aparecem os cogumelos, os míscaros. Fui agitando lentamente, pausadamente, sem grandes pressas. Suspirava a pinheiro, a caruma, a pinhal. O perfume ia ganhando complexidade com os cheiros de folhas secas. Com o tempo, as frutas cristalizadas, os licores, a canela, o açúcar em pó davam ares da sua graça. O ambiente entre nós aquecia, ficava mais intimista, mais sensual. Era ele e eu. Mais ninguém. Ainda senti sugestões citrinas, acompanhadas por hortênsias. Exagero da minha parte.
Na boca, entrou de forma elegante, calmo, sem grandes alaridos. A acidez estava bem viva. Era refrescante. O corpo tomava conta dos taninos.
Um belo vinho, aristocrático. Um belo Dão. Para Beber, para reconfortar a alma, o espírito.
Lutei pela minha dignidade, pelo respeito que mereço.
O vinho tinha o nome de Quinta do Cabriz Touriga Nacional 1999.
Nota Pessoal: 17

quarta-feira, outubro 18, 2006

Muito Pouco DIFERENTE

Veio do outro lado do Guadiana, do lado espanhol, da mesma casa deste, mas muito menos cativante, atraente que o seu irmão. Logo, para mim, o nome Diferente, com o qual foi baptizado, tem muito pouco a haver com ele. É um vinho igual a tantos outros. Oferece o que muitos outros oferecem. Bebe-se e esquece-se. As memórias que deixam são ténues. Proporciona um sentimento de indiferença. Por vezes, não existe pior sensação. Fico preocupado quando isso me acontece.
Feito a partir de uma receita que está bem difundida por todo mundo, seja ele Velho ou Novo. Uma receita que satisfaz milhões e milhões de consumidores.
Fruta e frutinha, compotas e compotazinhas, rebuçados e rebuçadinhos. Pouco mais. A partir de daqui só mesmo com a imaginação a trabalhar, e verdade seja dita é tarefa quase draconiana (gostei desta palavra, dá um ar mais mítico à coisa). É como tentar fazer um jantar romântico no meio de um Centro Comercial.
Este Diferente é um Cosecha 2005, e é um tinto jovem.
Nota Pessoal: 13,5

segunda-feira, outubro 16, 2006

O Paço dos Falcões

Um regressso ao Ribatejo. Parei no Paço dos Falcões. Um Grande Escolha 2004, concebido ao partir das castas syrah e castelão. Cartaxo é o leito de nascimento. Dizem que é a capital do vinho. Não deixa de ser um título pomposo.
O que estava no copo, ia libertando um conjunto de aromas bem comportados, medianos, sem grandes virtudes e sem grandes defeitos. Tudo num estilo consensual, em que toda a malta gosta.
A apresentação foi feita com sugestões de morangos, framboesas e cerejas (quando vi as castas, só pensei: "Errei completamente"). Tímidas aparições balsâmicas e florais tentavam animar as narinas.
Na boca, comportamento regular, sem grandes protagonismos, limpo e correcto. Igual a tantos outros. Cumpriu o honesto papel de ser bebido, o que é sempre positivo. No entanto, as recordações que ia deixando eram ténues, fracas.
Nota Pessoal: 13,5

quinta-feira, outubro 12, 2006

Ao Passado

Existem momentos, na nossa vida, em que precisamos de viajar no tempo. Voltar a viver aquilo. Parte da minha vida é passada a lembrar-me do que fiz em enquanto puto, lá na terra. Aquelas férias no Dão, no Douro estão marcadas e bem marcadas na minha memória. São ao mesmo tempo os meus alicerces, as fundações da minha personalidade.
Lembro-me todos de os pequenos pormenores, de todas os momentos passados. Os cheiros, os aromas, os sons, os sabores estão registados, estão cá dentro. Uma vida que tento transmitir à minha pequena filha. Uma vida que lhe ofereço. Um testemunho meu, muito pessoal. Vocês conhecem este meu desejo.
Quinta de Saes Estágio Prolongado 2000
teve a honra de me oferecer, por breves momentos, uma viagem às minhas recordações. Uma viagem que me fez voltar a viver as brincadeiras que tinha no meio do pinhal, lá junto à ribeira, onde se sentia a brisa da caruma, das flores, dos fetos. Que aventuras! Eu e os meus amigos éramos os eleitos. Os donos daquele mundo. A nossa demanda era defender aquele canto dos ataques dos adultos, dos grandes. Tantas promessas fizemos entre nós. Todas foram quebradas. Tornámo-nos nos tais adultos contra os quais lutavámos.
No meio da tarde aparecia a minha mãe a gritar: "meninos está aqui a merenda!" Eram umas grossas fatias de pão centeio barradas de geleia ou de doce de tomate. Reconfortavam o estômago da malta. Voltavamos à brincadeira. Quem era agora o herói? Tirávamos à sorte.
Tudo o que nos envolvia era suave, delicado e misterioso. O descanso era feito a olhar para a Quinta do tio Aurélio. "Onde estariam as melhores maçãs? As melhores pêras?" Era necessário encontrar a estratégia para colher os melhores exemplares.
Na volta para casa, vínhamos calados. Passávamos pelas ruas estreitas, onde o granito era rei e senhor. Os vasos repletos de flores alinhavam-se junto às casas.
O vinho, esse fez-me companhia durante esta noite.
Nota Pessoal: 17

quarta-feira, outubro 11, 2006

Dois olhares sobre a Touriga

Dois tourigas, dois estilos, duas escolas. Duas maneiras de olhar a touriga nacional. A casta, que agora, chamamos de casta rainha. Aquela que nos vai ajudar a chegar ao estrelato, à liga dos campeões. No entanto com tanta touriga, que anda por aí, ainda iremos fugir dela, e como todas as modas desaparecerá...
Não existe produtor neste recanto da Europa que não queira ter um vinho feito exclusivamente com Touriga Nacional. Alguns, que me perdoem, mais valiam estar quietos. Ter Touriga Nacional, por si só, não é sinónimo de sucesso (estou a falar das vendas, de reconhecimento e de tudo o mais).
Felizmente não é caso dos dois vinhos que eu trago à vossa consideração. Duas pingas que não são opções de primeira linha, é certo, mas apresentam um nível de qualidade interessante. Conseguem abarcar um espectro de consumidores, com gostos e apetências distintas. Deste modo, ninguém ficará zangado comigo. Não sei se interessa, mas eles foram provados em prova cega.
O primeira opção é o Quinta do Valdoeiro Touriga Nacional 2005. Das Caves Messias. Mantêm, no essencial, o estilo que este produtor tem vindo a oferecer, nos últimos tempos. Líquidos pastosos, mastigáveis, robustos, escuros e espampanantes. Nota-se que anda por ali o toque do novo mundo. Este touriga não foge a todo este envolvimento.
Violetas, fruta, musgo, baunilha e chocolate preto. Tudo numa linha negra, escura. Num registo exuberante, pujante, viciante, onde as minhas narinas tiveram, em alguns momentos, muita dificuldade para conseguir perceber o que andava por ali.
Na boca, as bagas silvestres, as ginjas tomaram a iniciativa. O chocolate amargo, o tabaco vieram logo de seguida, sempre com grande estardalhaço. Mesmo com tiques comportamentais algo exagerados, a acidez ajudava a manter um bom nível de frescura. E ainda bem!
É um Touriga Nacional que impressiona, que cativa numa prova cega. Numa refeição é que a porca torce o rabo. Um pouco mais de elegância, de suavidade não lhe faria nada mal. Para esperar e ver no que vai dar. Pareceu-me um pouco mais bruto que o Quinta do Valdoeiro 2003. Talvez sinónimo de juventude a mais.
Nota Pessoal: 15,5

Outro Touriga Nacional. Este nasceu nas Terras do Sado. Da Bacalhôa Vinhos. Só Touriga Nacional 2001. Que raio de nome!? Existem nomes muito infelizes e este é um deles.
Cor meio tijolada, mostrando que a pinga já tinha alguma idade.
Aromas frescos, onde o mineral e o vegetal faziam a apresentação inicial do grupo. O floral (flor de larangeira) enriquecia o conjunto. Leves raspas de casca de árvore conferiam outra complexidade. Caminhou, entretanto, até ao pó de talco. Por breves momentos, voltou-me a recordar os cheiros do velho armário da avó.
Quando teve que mostrar o que valia, na minha boca, este permaneceu educado, cavalheiresco, educado. Sem grandes alaridos.
Num estilo suave e mais elegante que o Valdoeiro. Mais discreto, mais afinado, mais calmo, mais distinto. Uma bela surpresa, não só para mim, como também para muitos dos que se encontram a meu lado.
Nota Pessoal: 16,5

sexta-feira, outubro 06, 2006

Com este Barão não quero nada!

Existem vinhos que dificilmente irei gostar ou achar alguma graça ou piada. Vinhos que não entendo, não percebo. Ultrapassam os limites que pessoalmente estabeleci como aceitáveis. Muitos deles, têm nomes cheios de nobreza, são bonitos, vestem belos rótulos, viajam em garrafas caras. Enchem o olho ao consumidor. Não passam despercebidos, não senhor!
O que trazem lá dentro, no entanto, fica distante de todo o aparato visual e publicitário que os acompanha. A expressão: "A montanha pariu um rato" , é mais que adequada neste tipo de situações.
Barão de Perdigões Garrafeira 2001. Um alentejano produzido por Henrique Granadeiro, criado pelas mãos do enólogo Paulo Loureano, vai entrar direitinho para o leque de opções que eu dificilmente escolherei. Repleto de fruta madura, ou melhor sobrematura. Cheio de compotas variadas (sabem bem, mas com peso conta e medida). Muita ginja e licores. Demasiado concentrado, exagerado, com pouca elegância. Cansativo, enfadonho, mediano na boca, sem vivacidade. Por vezes, deu-me a ideia que queria comportar-se como se fosse um Porto (faltava-lhe apenas aguardente). Seriam problemas de personalidade?
Bom, sei que existem, por esse mundo fora, adeptos deste estilo de vinhos, não tenho dúvidas. Pouco me importa. O que me interessa é que eu não sou um deles. Provavelmente, estarei errado. Mas a vida está cheio de equívocos e eu não sou excepção. Nota Pessoal: 12
Post Scriptum:
Em termos de nobreza alentejana, o Marquês de Borba Reserva é, para mim, o eleito.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Uma fase penosa e difícil

Quando comecei com esta brincadeira, não tinha a ideia do trabalho que iria ter. A constante necessidade de escrever de forma diferente é, por vezes, extenuante e cansativa. A minha imaginação tem de estar sempre a laborar, sem parar! Como sabem, tudo o que escrevo, por aqui, é baseado nas mais variadas alucinações que vou tendo quando bebo uma pinga. Portanto, a consistência dos meus comentários é muito reduzida. Basta aparecerem perguntas mais complicadas que eu ficarei completamente descalço. Sem resposta, pois simplesmente não sei. Existem assuntos relacionados com o vinho que não me interessam. Para mim, o objectivo fundamental é ter prazer. É sobre isto que escrevo. Nada mais.
O pior é quando a minha imaginação pára, sem avisar. Fico a olhar para isto (o blog), sem saber muito bem o que fazer e o que escrever. É nestas condições penosas e difíceis que irei falar de duas propostas vindas e nascidas no Douro. Dois brancos. Duas novidades para mim. Dois vinhos com algum interesse. Não são extraordinários, é certo, mas merecem ser mostrados ao mundo. Vêm aumentar o leque de opções disponíveis no mercado. Tomem lá nota (se quiserem, é claro!).
Loboseiro (br) 2005, de Gustavo Alberto de Lemos do Valle Herds. (espero sinceramente que não me tenha enganado no nome). Lamego é o berço. Gostaria de vos esclarecer um pouco mais, mas infelizmente nada sei.
Mostrou uma cor bonita, algo insinuante. Abriu com aromas a combustível, que foram desaparecendo dando lugar primeiro ao vegetal, depois à fruta (tropical e branca). Uma combinação engraçada. Refrescado por sugestões minerais. Escala aromática com boa amplitude.
Fresco na boca, com o mineral e a fruta a marcarem presença. Aprumadinho. Final saboroso. Com algum equilíbrio e com uma prestação que achei interessante. Nota Pessoal: 14
Quinta de Porrais (br) 2005
. Sociedade Agrícola de Porrais é o produtor (Murça, Porrais-Candedo 5090 CANDEDO Murça. Fax: 259 549 496).
Aromaticamente libertou impressões minerais, envolvidas por uma valente quantidade de erva cortada. Até parecia o jardim do meu vizinho do lado. Bem tratado e sempre com a relva bem cortadinha. Ao contrário do meu. A leve presença de flores oferecia um pouco doçura ao conjunto.
Na boca, o lado doce pareceu-me voltar a aparecer. Num registo discreto, suave, que era abanado por uma acidez bem vincada. Pareceu-me ligeiramente inferior ao Laboseiro.
Nota Pessoal: 13,5

segunda-feira, outubro 02, 2006

Eu vou lá estar...

Ora aí está mais um Encontro com o Vinho, (Centro de Congressos de Lisboa, dias 4, 5 e 6 de Novembro de 2006) da responsabilidade da Revista de Vinhos. Um excelente momento para falar com os mais diversos produtores e perceber um pouco o que pensam e o que fazem. A altura ideal para provar algumas das pingas que irão sair para mercado, e uns quantos ensaios. Para isso, perguntem se não existe nada escondido por baixo da bancada. É aí que, muitas vezes, se encontram os líquidos mais interessantes. Os outros que estão visíveis, são velhos conhecidos nossos que encontramos quase todos os dias. Por isso, chateiem e não tenham vergonha.
Nas Provas Especiais temos:
Niepoort, Murganheira, Penfolds, Mouchão, Quinta dos Carvalhais, Beringer (Nappa Valley), Touriga Nacional e Portos Colheita. O preço de inscrição para cada prova especial é de 35€.
A novidade deste ano é a realização de um Festival Gastronómico, onde irão participar alguns restaurantes: Sessenta Setenta (Porto) ; Arcadas da Capela (Coimbra) ; Terreiro do Paço (Lisboa); Eleven (Lisboa); A Galeria Gemelli (Lisboa); Vírgula (Lisboa); 100 Maneiras (Cascais) e Vilamonte (Olhão).
Vai existir também um workshop "Aprenda com os Melhores", onde poderemos, por 50€, ter uma aula de cozinha com alguns dos melhores chefes a trabalharem em Portugal.
Já me ia esquecendo, vou lá estar no dia 4 de Novembro, sábado. O encontro terá mais dois dias. Dia 5, domingo, e dia 6, segunda-feira. Este último dia é dedicado aos profissionais, acho bem.


Post Scriptum: Tudo o que disse consta na Revista de Vinhos do mês de Setembro de 2006.