quarta-feira, Agosto 30, 2006

Libaio, um branco da Toscana

Um Chardonnay de 2005 engarrafado pela Ruffino. Com indicação Toscana. Descoberto numa secção de vinhos estrangeiros, num hipermercado normalíssimo. Num daqueles dias em que um homem acompanha a sua mulher nas compras. Importado pela Vinalda.
Fruta branca, madura, refrescada por aparas de erva verde. Num registo ameno e simples. Sem grandes dificuldades na análise.
Na boca esteve limpo, fresco e directo. Sem grandes virtudes, mas sem grandes defeitos. Bebe-se e esquece-se. Num estilo consensual, que será do agrado de muitos consumidores e que poderá acompanhar dois bons dedos de conversa. Também precisamos destes vinhos.
Para beber e não pensar muito nele. Se o fizermos, podemos acabar por chorar os €6 que ele custa. Por isso, evitei sempre cair em sentimentalismos enquanto o bebia. Com menos euros encontramos vinhos brancos lusos muito mais interessantes.
Durante a refeição (acompanhou uns singelos linguadinhos do rio com arroz de tomate e pimentos), cumpriu o seu papel. Nada mais.
Nota Pessoal: 13

segunda-feira, Agosto 28, 2006

A Ribatejana Casa de Atela

Um produtor que vive na lezíria, na terra do campino, em Alpiarça. Deixo-vos alguns apontamentos sobre dois varietais produzidos pela Sociedade Agrícola da Gouxa e Atela. Andei na rede a vasculhar informações que nos ajudassem a conhecer melhor esta casa ribatejana. O que encontrei tinha pouca substância. Ambos provados em prova cega.

Casa da Atela Syrah 2004. Uma cor muito bonita, que não fazia adivinhar o que trazia lá dentro. Parecia que era um pouco menos concentrado que o habitual. No entanto, a história que contou foi um pouco diferente.
O impacto aromático estava repleto de fruta madura, que vinha envolvida por chocolate e tabaco. As fugazes sugestões vegetais lutavam para conseguir refrescar o conjunto, dando-lhe mais alegria e clorido. Apesar de algum peso, apresentou-se um registo limpo e directo.
Na boca, pareceu-me um pouco estranho, algo incaracterístico. Tive problemas em definir o que estava a provar. No entanto, deu para sentir uns taninos algo espigados, com vivacidade e turbulência a mais, que provocavam um nível de secura na boca para além do desejado. O corpo parecia não aguentá-los. Final picante, com algum ardor.
Pareceu-me ainda jovem, a necessitar de castigo. Ficar mais algum tempo na garrafa para ver se acalma um pouco, não lhe vai fazer mal. Eu posso esperar. Acredito que é capaz de se tornar mais interessante, para mim. Nota Pessoal: 13,5
Casa da Atela Merlot 2004. A cor da moda. Opaca, escurissíma. Um buraco negro.
Inicialmente muito fechado e com pouco para oferecer. Com o indispensável tempo de espera, começaram aparecer impressões doces que se mantiveram sempre presentes. Amoras e ginjas doces, compotas e bombons, que lembravam o mon cheri (que eu nunca gostei). E o desfile açucarado continuava com as passas e os figos (neste momento, lembrei-me daqueles figos que vêem cobertos de açúcar em pó). Para quem é guloso ficaria satisfeito, é certo!
Na boca, comportamento um pouco constrangedor. Seco e directo. Entrava e rapidamente desaparecia, num final abrupto, deixando-nos pouco para contar. Foi o primeiro merlot que provei. Desta forma, não consigo estabelecer grandes comparações. De qualquer modo, não morri de amores por ele. Nota Pessoal:13

sexta-feira, Agosto 25, 2006

Passei completamente ao lado...

Dois exemplos de vinhos que se apresentaram cheios de exageros. Para mim, pelos maus motivos. Outros não pensaram da mesma forma e dirão o contrário. Mas a vida é mesmo assim.
Querem ser agredidos? Gostam de sofrer? Peguem em mais um vinho cheio de pujança, de álcool, de aromas químicos e com as tradicionais notas de tinta da china. Breves sugestões vegetais e balsâmicas que lutavam para refrescar o líquido e dar alguma graça.
Performance igualzinha na boca. Com álcool a ditar as regras, com agressividade acima do suportável. Um final que durava muito. Pudera! No meio disto tudo, já me ia esquecendo do nome do vinho. Um Douro chamado Brites de Aguiar 2005, nascido em São João da Pesqueira e com uns valentes 15,5% de graduação alcoólica. Provado em prova cega. Uma nota positiva para o bonito rótulo que este vinho do Douro trazia.
Nota Pessoal: 12
Pouco irei dizer sobre mais um vinho algarvio. Pouco mesmo! Daqueles momentos que pretendo esquecer o mais depressa possível. Foral de Albufeira Reserva??? 2004, do produtor Morgado da Torre. Provado às cegas.
Do copo saltaram rapidamente notas que me fizeram imaginar, ainda deu para imaginar, que estava numa cavalariça, dada a pujança de aromas característicos destes locais onde os cavalinhos ficam a descansar todos os dias. Conseguem imaginar? Estrebaria, estábulo, suor.
Na boca? Nem sei!
Nota Pessoal: 9,5



quinta-feira, Agosto 24, 2006

Um vinho que Anima

Vinhos que nos transportam para dimensões nunca imaginadas são cada vez mais raros, neste mundo enófilo. As receitas estão dadas, os métodos desenvolvidos e os resultados são sempre os mesmos. Há que oferecer vinhos escuros, alcoólicos, brutos e arrepiantes. Mas o que me impressiona mais é que a malta gosta e aplaude efusivamente todos estes líquidos. Que fazer?
Pessoalmente devo ser uma ave rara. Um espécime estranho e esquisito, com a mania de querer ser diferente dos outros. Fujo a sete pés de todos os vinhos que me agridem. E aqui para nós, não é só com os vinhos. Os que me rodeiam olham para mim como se de um alien se tratasse. Com tiques a mais, dizem eles. Ultimamente tenho pensado na possibilidade serem sinais de alguma doença do foro psiquiátrico.
Toda esta prosa serviu para quê? Falar de um vinho que provei, no verdadeiro sentido da palavra porque havia muitos outros para provar e dizer de minha justiça. Não a suprema! Essa virá mais tarde e não serei eu que a irei ditar.
Um vinho de mesa (sem indicação de região demarcada e ano de colheita) que veio do Torrão, Concelho de Álcacer do Sal. Ali paredes meias com o Rio Sado e o Atlântico. José da Mota Capitão é o produtor. Herdade do PortoCarro é nome do abençoado sítio onde o Anima L4 é pensado, desenhado e construído. E muito bem.
Uma pinga que libertou lindas notas balsâmicas e vegetais. Fetos frescos e flores libertavam um perfume que nos fazia viajar para um local muito mais interessante do que este planeta chamado Terra. A torrefacção despertava de forma suave, elegante, sem agressões. A baunilha aparecia, ia embora, voltava aparecer, sempre de forma delicada. Tudo num registo meigo, elegante e muito cavalheiresco. Com uma complexidade que começa a rarear.
Na boca, voltou animar-me. Entrou pedindo licença. Andou nas cavidades da minha boca de forma muito educada, sem grandes espalhafatos. Fresco, suave e muito saboroso. Um final delicado, deixando na memória um bonito rasto.
Segundo o que diz a Revista dos Vinhos só é vendido à porta da Adega, a um preço de 20€. Quanto à nota, e para não inventar muito, atribuo-lhe a mesma classificação. Nota Pessoal: 17

Post Scriptum: Este Anima é do ano 2004

terça-feira, Agosto 22, 2006

Espinhosa segundo Magalhães Coelho

Mais uma viagem pela minha região, o Dão. A minha paixão. Nunca escondi esse sentimento, nem mesmo da minha mulher. Ela entende e perdoa-me.
Por várias vezes, olhei para duas singelas botelhas que dormiam descansadamente na minha garrafeira. Tardava o momento para voltar a falar com o líquido que elas encerravam. Acabou por acontecer nos longos e frutuosos dias que passei na Beira, junto da família.
Situada em pleno planalto de Vila Nova de Tazém, concelho de Gouveia, a Quinta da Espinhosa foi, no passado, conhecida pelos seus Dão Colibri. Um vinho que as pessoas lá da Terra conheciam e ainda falam. Pessoalmente só vi os rótulos. Eram curiosos, com imagens do passarinho a bater as asas.
Actualmente podemos encontrar vinhos estagiados em carvalho americano, em carvalho francês ou simplesmente em inox. Varietais, bi-varietais, lote. Um conjunto de opções interessantes.
Para vos dizer o que acho sobre este produtor, de forma muito resumida, vou citar-vos o que refere o jornalista José António Salvador no seu guia 2003, o último que lançou. Página 244. "Um Dão retinto e rústico. (...) Para quem ainda põe retincências à qualidade dos vinhos do Dão, talvez comece a mudar a opinião se encontrar o Quinta da Espinhosa Reserva 2000". Eu acrescentaria o seguinte: e o Reserva 2001. São daquelas experiências que um enófilo não deve perder. Fazem-nos crescer.
Quinta da Espinhosa Reserva 2000
Revelou uma cor muito bonita, violeta. No copo mostrou-se espesso, pastoso, com alguma gordura a escorrer pelas paredes de cristal.
Aromaticamente calmo, elegante, sem grandes evidências. Muito aristocrático. Silvestre na fruta e nas flores que oferecia. Frescura balsâmica. Madeira bem envolvida, proporcionando suaves toques de café e cacau.
Na boca revelou-se saboroso, atraente e selecto. Com taninos e acidez discretos, sem grandes agressões ao palato. De abordagem relativamente fácil, consensual. Não se esqueçam que estamos a falar de um vinho do Dão. É, portanto, e acima de tudo, um vinho que identifica uma região, que mostra todo o seu verdadeiro carácter.
Nota Pessoal: 15,5
Quinta da Espinhosa Reserva 2001
Tal como o seu irmão mais velho, a cor que apresentava mostrava alguma densidade e brilho. Os aromas a frutos silvestres, que despoltavam do copo, faziam recordar amoras, envolvidos por uma profusão de cacau e tabaco, proporcionadas por uma madeira correctamente colocada. A baunilha soltava-se alegremente, juntamente com folhas secas, tundra e carqueja. Flores, muitas flores silvestres. O mestre Magalhães Coelho sabia o que fazia...
Na boca os taninos e acidez estavam bem vincados. Espesso e mastigável. Secura muito agradável. Com personalidade, a pedir cuidado na prova e atenção. Uma pequena distracção é suficiente para perdermos uma interessante lição.
Tentem encontrar. Se gostarem, fico contente. Se não, tudo bom na mesma!
Nota Pessoal: 16,5

Posfácio

É a minha pequena e simples homenagem ao enólogo Magalhães Coelho. Um senhor que fez muito pelo Dão, que andava preso do granel e das práticas erróneas que iam colocando esta região num abismo sem retorno.
Juntamente com outros senhores do Dão, trabalhou durante muito tempo com Álvaro Castro, da Quinta da Pellada, tentou inverter a situação apostando na criação de belos vinhos que pudessem dignificar uma região, que no passado foi o berço dos melhores tintos portugueses.

segunda-feira, Agosto 21, 2006

Breve passagem pela Beira Interior (Parte II)

Finalizando a viagem pela Beira Interior, iniciada com três Pingas da COOP de Figueira de Castelo Rodrigo, dedico-me desta vez a mais dois vinhos brancos, oriundos da Quinta do Cardo. Continuo no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Esta Quinta da Beira Interior pertence ao universo da Empresa Companhia das Quintas, que possui ainda mais três espaços de produção de vinho, espalhados pelo país.
A Quinta da Romeira, na Estremadura, que recentemente lançou um colheita tardia, que pessoalmente achei interessante. O preço é que não cativa muito. A velha a crise ainda não nos largou e pelo que parece ela ainda vai continuar para mim (o patrão da minha patroa, que é o Ministro das Finanças parece ter dado ordem para que no próximo OE não entrem verbas necessárias à progressão das carreiras).
A Quinta da Farizoa, no Alentejo. Aprecio o branco. Estagiado em madeira, apresenta uma boa relação preço qualidade e é indicado para fazer dueto com um bom prato de peixe gordo assado no forno ou com o nosso tradicional e fiel amigo: o bacalhau (uns dizem que o fiel amigo é o cão, em que ficamos?).
No Douro possuem a Quinta da Cova da Barca, situada em Freixo de Espada a Cinta, não muito longe do Penedo Durão (um local que vos aconselho a visitar. Uma paisagem deslumbrante...). Depois dos meus inevitáveis desvios, que às vezes me levam para caminhos bem longes, falemos então das Pingas.

Quinta do Cardo Síria 2005
Cometeria o exagero de dizer que este vinho branco é o menino ou menina bonita, como queiram, desta Quinta. É sempre com alguma curiosidade que olho para ele. Já lá vão algumas colheitas.
A tangerina, a laranja, a banana, bem como um pouco de doçura marcavam presença. Mais fresco, mais envolvente e insinuante que o Síria da COOP de Figueira de Castelo Rodrigo. Um vinho diferente, bem feito, certamente cheio de cuidados e que merece ser conhecido, mas ao preço a que ele é disponibilizado nas áreas comercias, no intervalo 7€-8€, colocam este vinho numa difícil relação preço qualidade, afastando potênciais compradores. É pena!
Para beber enquanto está jovem, cheio de força e vigor.
Nota Pessoal: 15
Quinta do Cardo Branco 2005
Elaborado a partir das castas arinto e síria.
Aromas limonados, muita pêra (não perguntem a qualidade). Casca de maça verde. Fundo mineral que refrescava e muito bem. Melão, banana e ananás.
Bom corpo, aparentemente com alguma gordura e ao mesmo tempo crocante. Todo ele bem vestido. Num estilo aparentemente consensual. Um vinho saboroso e pareceu-me ligeiramente mais fresco que o síria. Tem melhor relação preço qualidade que o seu familiar.
Nota Pessoal: 14,5
Post Scriptum
: O site da Companhia das Quintas está em construção. A informação disponível é muito pouco. É pena!

sábado, Agosto 19, 2006

Breve passagem pela Beira Interior (Parte I)

Nos longos dias que passei na Beira, fiz breves passagens por alguns vinhos da Beira Interior. Nada de especial, nada de extraordinário. De qualquer modo, representam um pouco o esforço que esta região raiana está a fazer para apanhar o comboio da modernidade. A ver vamos se consegue. Pessoalmente gostava. Era sinónimo de maior diversidade para todos nós. O consumidor, como sempre, fica a ganhar.
Escolhi para este primeiro momento a Adega Cooperativa de Figueira de Castelo Rodrigo. Figueira de Castelo Rodrigo é daquelas terras repletas de história, cheia de lendas medievais, que existem por toda a Beira. O concelho é banhado pelo Rio Douro na zona de Barca d´Alva (que pertence à região demarcada duriense). Aliás, Barca D'Alva é/era uma terra que conheço/conhecia muito bem. Ponto de ligação entre os distritos de Bragança e Guarda.
No passado cheguei a fazer o percurso de comboio, ainda a vapor, desde a Barca até Lisboa (a minha família paterna é de Freixo de Espada a Cinta). Era uma viagem longuíssima, cheia de peripécias, de momentos inesperados e de uma beleza ímpar, quase única neste país. Passava-se pelo Pocinho, pelo Pinhão, pela Régua. Lembro-me de umas velhotas que vendiam umas púcaras de barro com água bem fresquinha. E os rebuçados da Régua? A tradicional passagem pela Ponte Dona Maria, no Porto, que tremia à passagem vagarosa dos comboios, fazia com que muitos dos passageiros mais supersticiosos se ajoelhassem e rezassem aos deuses. Tudo isto parecem retalhos de uma história distante, bem longínqua. Mas não! São cenas dos finais dos anos 70 e princípios dos anos 80. Era eu um garoto, um puto. Agora, o comboio já não passa em muitos sítios. Dizem os entendidos que são sinais dos tempos! É a modernidade a caminhar para todos os recantos do nosso país. Estranho!?
Voltemos ao que interessa, isto é aos vinhos. Voltemos então a Figueira para beber um copo.
COOP Figueira de Castelo Rodrigo Síria 2005
Cor extraordináriamente clara. Pouco faltava para ser como água. Explosão de aromas doces, com fruta em calda, refrescado por algumas lembranças de mentol e hortelã. Tangerina, laranja aumentavam o leque de aromas disponibilizados. Pareceu-me na recta final encontar algum mel, bem como um raminho de rosas lá no meio.
Para beber enquanto está na força da sua juventude e sempre numa temperatura baixa. O eventual aquecimento no copo poderá prejudicar o vinho, tornando algo enjoativo e cansativo.
Sem nos fazer abrir a boca de admiração, é um vinho bem feito. Fará sorrir muitos de nós.
Nota Pessoal: 14

COOP Figueira de Castelo Rodrigo Branco 2005
Feito a partir de um lote com síria e arinto. Num estilo algo parecido com o Síria. Muito sinceramente não consegui descortinar grandes diferenças. Mas acredito que sejam resultantes de algumas limitações pessoais. Pareceu-me talvez mais ácido, talvez um pouco mais mineral. Mas o lado doce, lá estava. A curiosidade acabou por serem os cristais que apareciam no fundo copo. Um vinho bom para a petisqueira. Tipo uns peixinhos do rio assados, temperados com um molho picante.
Nota Pessoal: 13,5

COOP Figueira de Castelo Rodrigo Touriga Nacional 2004
Aromas limpos, francos. Fruta vermelha, ou preta (para todos os gostos) bem viva. A existência de um lado silvestre e vegetal, fazia sentir um rasto de caruma e balsâmico que alegrava e refrescava o conjunto.
Na boca, os taninos eram vivaços. Provocavam uma discreta secura nas genvivas. Levemente mastigável. Frutado e limpo.
Por menos de 3,50€ foi para mim um feliz achado. É pena haverem assim tão poucos. Faria corar de vergonha alguns dos nomes mais sonantes que andam por aí.
Para beber enquanto jovem, para se desfrutar de toda a sua alegria e irreverência (no bom sentido é claro!).
Nota Pessoal: 14,5
Post Scriptum: Visitem a Igreja de Escalhão. A Vila de Escalhão é a sede de freguesia de Barca D'Alva. Possui alguns pontos de interesse.

sexta-feira, Agosto 18, 2006

Quinta do Abrunhal Espumante

Um espumante proveniente do Dão, de um antigo sócio (Manuel Glória Pinheiro) da COOP de Tazém, que recentemente se lançou na aventura de produzir vinhos e espumantes alone. Tem assessoria enológica do famoso enólogo Rui Moura Alves, conhecido pelos seus bairradinos de estilo clássico, onde os lagares e a madeira avinhada são reis e senhores. Para muitos um enólogo controverso.
Mas falemos deste espumante branco bruto natural, da colheita de 2003. Segundo o contra-rótulo foram utilizadas as castas arinto, borrado de moscas e encruzado. Método clássico de bica aberta.
Inicialmente soltaram-se sugestões de combustível e muita fruta verde. Pareceu-me sentir um fundo mineral com alguma passa, envolvido em fortes impressões metálicas, que particularmente criavam alguma perturbação.
Na boca o lado metálico voltava a surgir de forma evidente, bem como a fruta verde. A bolha algo grossa. Acidez num registo elevado. Um espumante de estilo rústico, mais indicado para acompanhar uns pesados petiscos regionais, desenhado para viver dentro das paredes geográficas onde nasceu.
Pessoalmente falta-lhe algum afinamento, de modo a torná-lo um pouco mais moderno e consensual. Vamos ver como se vai processar a evolução deste espumante.
Nota Pessoal: 12,5
Post Scriptum:
Aqui para nós, e se a minha memória não me falha, é a minha primeira nota de prova de um espumante/champanhe. Raramente o faço. Reconheço que possuo enormes limitações na prova destes vinhos. Acontece-me o mesmo com os vinhos do Porto.

quinta-feira, Agosto 17, 2006

Falta pouco para voltar ao normal!

Bom, acabaram as minhas férias. Muito daquilo que pensava fazer, não fiz. Os felizes encontros com a minha família fizeram-me ficar nestes dias em Gouveia. Algumas das caras não as via há muito tempo. Fico contente por saber que ainda gostamos uns dos outros e que as distâncias não amolecem os nossos sentimentos. É bom!
No que respeita aos vinhos, fiz uma breve incursão pela Beira Interior. A COOP de Figueira de Castelo Rodrigo e a Quinta do Cardo foram as minhas escolhas. Reparei que a primeira está a trabalhar bem, que tem no mercado um conjunto de vinhos muito correctos e limpos, vendidos a preços muitos interessantes, capazes de envergonhar algumas marcas mais conhecidas. Veremos se é suficiente para sobreviver.
No Dão, andei às voltas com os vinhos do Concelho de Gouveia.
Conheci um produtor novo. Monte Aljão, em que a responsabilidade enológica é de Anselmo Mendes. Voltei a reencontrar-me com a Quinta da Espinhosa do saudoso Magalhães Coelho. A COOP de Tazém esteve várias vezes presente na minha mesa. Ela é a rainha da produção em Gouveia. A entrada do actual enólogo provocou um enorme salto qualitativo nos vinhos produzidos por esta COOP. O garrafeira 2000 e os varietais são um exemplo disso. Breve passagem pela Quinta do Abrunhal para provar um espumante branco. O enólogo Rui Moura Alves dita as regras.
Irei brevemente começar a escrever sobre o que provei, neste longo período de descanso. Haja muita inspiração e vontade para o fazer. Para já, deixo-vos a lista dos nomes. Espero que vos desperte algum interesse.
  • COOP Figueira de Castelo Rodrigo Branco 2005;
  • COOP Figueira de Castelo Rodrigo Síria 2005;
  • COOP Figueira de Castelo Rodrigo Touriga Nacional 2004;
  • Quinta do Cardo Branco 2005;
  • Quinta do Cardo Síria 2005;
  • Quinta do Abrunhal Espumante Bruto Natural Branco 2003;
  • Quinta da Espinhosa Reserva Tinto 2000;
  • Quinta da Espinhosa Reserva Tinto 2001;
  • Vinhos do produtor Monte Aljão, Dão.

quinta-feira, Agosto 03, 2006

Deixo-vos novamente

Bom, agora que vos deixei mais alguns textos para lerem, vou até à minha segunda parte das férias. Mais para o Norte. Assentarei a minha base em Gouveia, Beira Alta, Dão, Serra da Estrela, bem perto da Quinta da Pellada, das Maias, do Corujão, da COOP de Tázem, da Espinhosa e não muito longe dos Roques. Depois irei até ao Douro (João Roseira vou comer o tradicional cabritinho nas Varandas da Régua e fazer o percurso até ao Pinhão de carro, voltar para trás para São João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Coa), Ciudad Rodrigo, Salamanca, Zamora. Terras que há muito fazem parte do meu imaginário. Espero provar boas Pingas, para partilhar.
Levarei a Revista dos Vinhos edição 200 para ler com mais atenção. Pelo que vi muito ao de leve, fiquei algo desiludido. Esperava um pouco mais. Não me perguntem o quê, porque sinceramente não sei. Em tempo de férias os meu neurónios quase não trabalham. O calor dá cabo de mim. Para quem a compra a RV como eu todos os meses religiosamente, uma edição menos bem conseguida não vai alterar o olhar que tenho sobre ela. Concordo com o Nuno sobre este assunto e já o transmiti na casa dele, isto é no blog.
Estão agora três Blogs em férias, por isso peço que tomem conta deles todos. Pode ser?
Sempre que puder venho dar aqui uma olhadela para ver o que se passa e responder aos vossos comentários.

Quinta do Valdoeiro Syrah, agora de 2004

Um regresso a um vinho que já tinha provado na sua versão de 2003.
Cor profunda, quase opoca. Na linha dos outros vinhos produzidos pelas Caves Messias.
No aromas, sobressaiam muitas notas de café e muitos tostados, bem como chocolate preto, combinados com fruta preta. Muito espesso.
Na boca, pareceu-me algo desinteressante. Com uma estrutura aparentemente debilitada, incapaz de aguentar grandes viagens, bem como suportar os taninos e acidez. Aliás, esta dupla provocava um excesso de secura nas minhas genvivas. Final médio e seco.
Pareceu-me francamente inferior ao seu irmão mais velho. Num registo directo, sem grandes complexidades. A minha opinião.
Nota Pessoal: 14,5

quarta-feira, Agosto 02, 2006

Dois Rabiscos

Aproveitando tal brecha nas minhas férias e antes de voltar a ir embora, queria partilhar com vocês uns rabiscos que fiz sobre dois vinhos bebi. Ambos já foram avaliados pela Revista dos Vinhos. Os meus comentários desviam-se um pouco daqueles que foram proferidos pela aquela revista da especialidade. Por isso, nada de fazerem comparações entre eles. Vocês sabem muito bem que tudo o que eu escrevo baseia-se simplesmente no meu gosto e como tal tem pouca validade ou nenhuma.
Mythos 2003, um vinho ribatejano produzido pelo Centro Agricola do Tramagal que é conhecido por produzir vinhos com denominação Casal da Coelheira. Sou um adepto confesso do Casal da Coelheira Chardonnay. Um vinho branco muito correcto, vendido a um preço decente.
Mas falemos deste Mythos. Um vinho de lote elaborado através das castas Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet. Com estágio em barricas de carvalho francês.
Cor bem concentrada. Com muitos aromas químicos. Tinta da China. Um lado mineral, que fez pensar no carvão meio húmido. Havia, também, qualquer coisa nele que me fazia lembrar os lagares, o cheiro que eles transmitem. Sugestões vegetais que pareciam tentar atenuar alguns dos excessos que andavam por ali. Não o conseguindo cumprir na totalidade o seu objectivo. Pelo menos, assim acho.
Na boca o seu comportamento andou perto dos aromas que transmitiu. Com taninos robustos, com força e vigor (talvez demais). Parece ter o estilo deste vinho. Um perfil que tende a alastrar por todas as zonas produtoras deste nosso Portugal. Pessoalmente este caminhar cansa-me um pouco. São vinhos muito bem feitos, com muita extracção, que impressionam os sentidos, mas que criam algum desgaste. De qualquer maneira, aqui está a minha opinião.
Nota Pessoal: 15


A outra proposta é o Quinta das Maias 2004, da responsabilidade da Sociedade Agrícola Faldas da Serra, conhecida por produzir os vinhos Quinta dos Roques. Um conhecido vinho do Dão que agora veste um novo rótulo. Sinal de inovação. Concebido a partir das castas Touriga Nacional, Jaen, Alfrocheiro e Tinta Roriz.
Um registo aromático muito interessante e que francamente gostei. Muito silvestre, cheio de sugestões de terra húmida, musgo e mato. Algum silex. Muito balsâmico. Pareceu-me nesta altura um vinho diferente, com uma personalidade curiosa. O pior veio depois.
Algo doce na boca, com taninos muito espigados e agressivos. A acidez estava num registo altíssimo, deslocada de tudo. Parecia que estava perante um grupo de músicos que não funcionavam como uma orquestra. Cada elemento parecia querer sobressair, tentando tocar mais alto que o seu companheiro do lado. Foi pena, muito mesmo. Prometia muito no início. Será que o tempo, o famoso aliado do Dão, vai ajudar a amaciar e equilibrar a boca? Pessoalmente gostaria...
Nota Pessoal: 14

terça-feira, Agosto 01, 2006

Encontrei-me com o velho Duque

Fazia tempo que não bebia o Duque de Viseu Branco. Um dos vinhos portugueses com mais história que anda por aí. O próprio nome transmite história. Pertence ao universo Sogrape, oriundo da Quinta dos Carvalhais, bem no coração do Dão. Aqui para nós, foi com ele que verdadeiramente me iniciei nas lides enófilas. Já lá vão alguns anos. Gostava francamente e bebia-o regularmente. Era uma paixão. Julgava que estava perante um dos melhores vinhos nacionais. Com o tempo, com aparecimento de outras marcas, fui deixando para trás o Velho Duque. Nunca mais voltei a bebê-lo. Nem tinto nem branco. Até que nestas férias, ao passar por um supermercado peguei numa garrafa de 2004 e pensei cá para comigo: "É desta que vou voltar a falar com ele."
Cor que tinha caminhava para um amarelo torrado. Aromaticamente tinha um registo muito elegante, com a presença de alguma oxidação ou evolução precoce (causada provavelmente pelo deficiente armazenamento que teve), mas com um bonito perfume. Fruta em calda, pensem no ananás e pêssego em lata. Os citrinos apareciam por lá na forma de laranja e tangerina. Leve lembrança de mel. A presença do limão dava vivacidade ao conjunto.
Na boca, a linha elegante e fina mantinha-se, sem qualquer desvio. Certinho e aprumado. Com uma duração média/curta, mas ainda saboroso.
Acabou por ser uma conversa animada, calma e muito interessante. Deu para ouvir algumas das histórias que ele me tinha para contar. Nunca se devem abandonar os velhos amigos.
Nota Pessoal: 14,5