quinta-feira, Setembro 21, 2006

Monte Aljão, um Monte do Dão

Um produtor que não fazia a mínima ideia que fazia vinho. Conhecia-o apenas pela produção de azeite (tenho um tio que entrega azeite no lagar). Situado na freguesia de Cativelos, Concelho de Gouveia, mesmo ao lado da estrada (nacional 232) que vai de Gouveia a Mangualde. Muito fácil de encontrar. Basta perguntar...
Reza a história que foi em 1998, com 21 anos, que Sandro Santos Seabra comprou, com ajuda de um tio, a primeira parcela de terra com 1,2 ha de área. Apesar de não haver na família qualquer tradição vitivínicola, a ambição de fazer um vinho só dele, motivou-o, nesse mesmo ano, a plantar a primeira vinha. Actualmente estão 25 ha de vinha em plena produção. Divididas em três parcelas, das quais 3 ha são de vinhas velhas. Exclusivamente castas brancas. Não deixa de ser curioso. Não acham?
Todas as vinhas novas produzem as castas tintas: 11,5 ha de Touriga Nacional; 7 ha de Tinta Roriz; 2,5 ha de Jaen e 1 ha de Tinto Cão. Em 2004 foram feitas 60.00 garrafas, das quais 5.000 são de vinho branco. O objectivo é chegar, a médio prazo, às 250.000 garrafas. O portefólio deste produtor inclui o Cativelos tinto e branco (gama baixa), MonteAlvão tinto e branco e um Monte Alvão Reserva tinto. A responsabilidade enológica é de Anselmo Mendes. Produzem também azeites. Vamos então às pingas, que é o que interessa, pois a conversa já longa.
Cativelos Branco 2004
Na garrafa estavam misturadas as castas Encruzado, Bical e Malvasia Fina.
Pedra lascada, lembrando a saudável água mineral, depois de uma noite de excessos. Fruta tropical, que sugeria aromas de manga, ananás, envolvida com muita erva fresca. Depois surgiram umas notas muita curiosas, que gosto de sentir nos vinhos brancos. Folha de tomate, ou feijão verde, acabadas de serem regadas. Estão a imaginar a cena? Depois surgiram toques da hortelã e menta.
Na boca, comportamento mineral, com a fruta bem presente. Bom comprimento. Sem esmagar, é um vinho branco muito bem feito, cheio de sugestões aromáticas que farão sorrir os apreciadores de vinhos bem cheirosos e exuberantes. Nota Pessoal: 14,5
Monte Aljão Branco 2004
Mais sisudo, menos evidente que o seu mano lá de cima. Mais austero. Menos exuberância. Menos sorridente mas, para mim, mais misterioso. Mais complexo. Componente vegetal mais forte, com a fruta a parecer mais escondida na fase inicial. A mineralidade é a senhora que domina.
Na boca, o seu comportamento pareceu-me dizer que é capaz de aguentar bem na garrafa, durante mais algum tempo.
Aparentemente pareceu-me ser um vinho indicado para acompanhar um belo peixe gordo. Num estilo que aprecio mais. Nota Pessoal: 15,5
Monte Aljão Tinto 2004
Chegados à última estação. O tinto! Entraram no lote a Touriga Nacional e a Tinta Roriz. Pouco falador na apresentação. Na primeira impressão parecia que estava a entrar num lagar de granito, com todos aqueles aromas que se sentem e pressentem. Lufadas vegetais de boa qualidade iam aparecendo, dando a sensação de que me estava a bater na cara aquela brisa serrana, que tanto aprecio. O mineral, o balsâmico juntaram-se de forma progressiva, ajudando a perfumar o ambiente. Por lá ficaram. A fruta era silvestre, fresca, sem enjoos. No ponto. Momentaneamente apareceram notas suaves de tabaco e chocolate amargo. Com a elevação da temperatura, pareceu-me que andava por ali qualquer coisa mais exótica. Talvez especiaria, não sei! De qualquer forma gostei...
Na boca, entrou vivaço, fresco, com uns taninos bem apoiados pelo corpo. Equilibrado. Final médio, mas de boa qualidade. Para voltar a beber mais tarde. Nota Pessoal: 16
Post Scriptum: Não tenham medo de arriscar nos vinhos do Dão. Actualmente existem bons produtores que querem fazer melhor e diferente. Faz bem fugir, um pouco, ao domínio avassalador do Douro e do Alentejo. Pela diferença também se aprende.
Termino com mais um motivo de regozijo. Voltei a provar o Quinta do Corujão Grande Escolha 2004, desta vez em prova cega. E resultado foi brilhante. Foi aclamado por grande parte dos compinchas que estavam ao meu lado. Um belo vinho! Atribui nessa prova a nota de 16,5.

1 comentário:

Chapim disse...

Caro pingus mais um produtor a conhecer.

Este blog tem sido óptimo na descoberta das escolhas menos óbvias.

E o Dão continua a crescer. Brancos, tintos...