quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Não percebi! Preciso de perceber

Professor Virgílio Loureiro diz o seguinte no blogue do Hugo e que passo a citar: "Só quem não quer perceber é que acredita que a prova pode ser racional. Alguns ingénuos (ou principiantes, ou ignorantes) talvez acreditem na "objectividade" das notas atribuídas aos vinhos, mas quem as atribui há muito que não é ingénuo." 
Sem querer avançar com teses conspirativas desnecessárias, creio que tais comentários apontam, assim me pareceu, para mais qualquer coisa numa simples nota de prova do que uma simples nota de prova. Que, e a leitura é minha, ao ser classificado este ou aquele vinho e por arrasto este ou aquele produtor, são ou estão a ser ponderadas determinadas variáveis que podem ser mais ou menos desprezíveis e que influenciam ou não o resultado final da dita nota de prova. Reconheço que possa estar a fazer uma interpretação (muito) abusiva e indevida das palavras escritas pelo autor.


A titulo pessoal, sempre assumi que falar de um vinho e classificá-lo, despido de qualquer laivo de influência, é tarefa para predestinados. De qualquer modo, importa perceber o que é que o professor quer dizer ou queria dizer. Eu, tal coscuvilheiro, gostava de saber, ser esclarecido. Se não, ficamos como se costuma dizer na gíria popular, a meia missa e a pensar no que não se deve pensar. Ou, ainda, no universo das bocas para o ar. É que eu posso atirá-las.

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Dias Tramados...

A pior coisa que pode acontecer a um gajo é acordar irritado, pronto para disparar em todas as frentes. Fica-se, logo pela madrugada, com vontade de gritar bem alto uma porrada de impropérios, sem qualquer razão aparente. Atirar para o ar o que vai na porra da alma, se a tiver. Clamar por tudo e nada. Pior, ainda, é estar na casa de banho completamente lixado com tudo, a olhar para o maldito espelho que nos diz quem somos, e sem vontade de fazer nada. Mesmo nada.


Vem ao de cima o lado mais primário, mais rude, sem qualquer laivo de educação, sem qualquer regra de boa conduta. Quebrar todas e mais algumas normas de menino falsamente bem comportado. E um tipo fica mais encolerizado, porque tem que manter a porcaria da aparência. Uma tremenda chatice. Vai ser um dia de merda...

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Quinta do Cardo: O Espumante

Para começar a semana, num registo descomprometido, leve e sem grandes rodeios. Coloquemos esta pequena homilia no grupo de aconselhamentos que costumamos fazer aos amigos, aos vizinhos, em modo de dica de café da manhã. 
  


Um espumante que francamente gostei e sorvi até à última gota, até à última bolinha. Não importa como foi feito, se foi manipulado, alterado, martelado para ser o que é. O que sei, o que importa, é que bebi este espumante com grande prazer. Curti a secura, apreciei o controle de doçura, revelando uma austeridade que não estava, de todo, à espera. Um belo espumante. Fiquei fã. O resto serão deambulações. 

domingo, janeiro 31, 2016

Revista de Vinhos e os Blogs

Com todos os defeitos e virtudes, a Revista de Vinhos (RV) foi e ainda é, até ao momento, o único órgão de comunicação social, de largo espectro, que referenciou todos os blogs portugueses que se dedicavam, bem ou mal, ao assunto do vinho, não deixando nenhum de fora. Na altura, época primitiva, foi um acto de arrojo. A malta ficou toda inchada. Provavelmente, ninguém se lembrará ou tem ideia dessa edição. Depois disso, foi um corropio. Surgiram blogs por todos os cantos, como cogumelos. Nada contra, pelo contrário.
Foi se calhar, foi de certeza, o reagente para que os blogues portugueses passassem do total obscurantismo que padeciam e ainda padecem, em larga medida, para um mundo menos cavernoso, um pouco mais real. É verdade que, na altura, tudo era demasiado imberbe, muito rudimentar. Hoje ainda o é, queiram ou não queiram. Concordem ou não.
E porque estamos nas vésperas da atribuição dos prémios excelência por parte da Revista de Vinhos, imaginemos, agora, que a dita revista tinha a veleidade de atribuir um prémio, não de excelência, que a blogoesfera portuguesa não merece, mas uma menção honrosa ou algo semelhante a um blogue, na área dos vinhos ou da gastronomia. O que seja. Creio que as coisas iriam piar de forma bem diferente. Porque o que temos, neste momento, roça o alegórico, a piada burlesca. 
E no meio desta alqueirada de blogues que existem, atreveriam-me a dizer que nenhum blogue de vinhos iria ganhar qualquer coisa. Eu apostaria as minhas fichas todas, sem qualquer dúvida, em blogues mais transversais, mais eclécticos, com mais qualquer coisa para dar, que não seja o mesmo de sempre. Que tivesse um pouco mais que aquela foto bonita, com meninos aos saltos ou com cores manipuladas, um copy paste. Querem arriscar? 
Já agora e porque fiquei meio confuso, nos últimos dias, quantos prémios W existem? 

quarta-feira, janeiro 27, 2016

W, o outro reino do Absurdistão

Em tempos existiu uma revista que comprava religiosamente todos os meses e servia de companhia nas minhas viagens de ida e volta para a universidade. Não perdi nenhuma edição, estando cuidadosamente guardadas e arquivadas. A Grande Reportagem permitia-nos ver o mundo. Viajava-se com ela, sem sair do país, muitas vezes sentados no sofá, no banco do autocarro ou na atravessia do rio. Começou a decair, a revista, quando MST abandonou o projecto. Acabando por esfumaçar-se. Foi pena.
Uma das edições mais marcantes, se a memória não me falha, tinha o título No Reino do Absurdistão. Eram relatados, dentro do possível, alguns aspectos do quotidiano norte-coreano, naturalmente encenados e mecanizados. Destinados a mostrar ao estrangeiro que visitava a mui democrática e imaculada Coreia do Norte a efusiva alegria com que se vivia naquele país.
No artigo, se bem me lembro, eram descritas uma porrada de passagens que roçavam o hilariante, o absurdo, em que a realidade era tudo, menos a verdadeira, fosse ela boa ou má. Uma das cenas mais disparatadas acontecia num pressuposto museu, onde existia algures um mapa-mundi picado por umas luzinhas, do tipo daquelas que colocamos nas árvores de Natal, em cima de países amigos ou visitados pelo grande líder. Essas luzinhas acendiam para mostrar ao povo a imensidão de gente que estava do lado deles. O problema é que alguns desses países já tinha deixado de existir. O bloco de Leste tinha sido desmembrado ou desaparecido. Logo, a realidade que estava a ser mostrada ao simples norte-coreano já não existia. Era virtual ou escondida. Recordo que, nesse museu, estava exposto, entre outras peças de valor incalculável, um leitor de cd's. Uma prenda que o grande líder partilhava com o seu povo.


Em W, um reino que existe na terra do nunca, podemos fazer alguns paralelismos. Temos um líder que põe e dispõe, que acena à multidão, para que esta agradeça, sem saber muito bem porquê. É ajudado por um conjunto de presumíveis amigos que sussurram aos seus ouvidos e lhe contam o que se passa fora do palácio, ajudando-o, neste modo, na governança do reino. É, portanto, omnipresente e omnipotente.
No dia dos juízos, a turba costuma bater palmas efusivas ao que vai dizendo, mesmo que não entenda nenhuma das suas palavras ou que não esteja convencido ou acredite no que está a ouvir. Sem questionamentos, pois pode dar azo a movimentos persecutórios e de excomunhão, por parte da plateia. A reflexão e a dúvida são vistas com maus olhos e são encaradas como actos mal dizentes, de quem está contra tudo e contra todos, só por que sim. É que alguém, um dia, pode cair nas boas graças do líder e ser condecorado. E uma condecoração é uma condecoração, seja ela qual for. Ámen.

terça-feira, janeiro 26, 2016

O Mundo ao contrário

E comer choco frito fora de Setúbal? Leitão longe da Bairrada? Uma açorda de cação no Norte? Uma francesinha no Sul? Ou ainda comer peixe e marisco fresco, na Guarda? Ou a malfadada bifana na raia minhota? 


Quem não costuma descobrir aqueles recantos, em lugares profundamente inusitados, com aqueles petiscos que não são de lá, não são deles, tendo sido apropriados de forma mais ou menos indevidamente, mas que são reproduzidos na perfeição? Quem não desrespeita, regularmente e ostensivamente, as tradições e opta por sair dos habituais caminhos de peregrinação gastronómica? E viver num mundo ao contrário? Ou acha que os dogmas são para cumprir cegamente e sem qualquer questionamento? Eu, pecador me confesso. 

domingo, janeiro 24, 2016

Comidas: No tempo da minha mãe

Encostado no sofá, embebecido naquele estado de letargia tão típico de domingo, passa pela minha cabeça uma panóplia de imagens, sabores e cheiros que (quase) nunca mais senti. A pele ficou eriçada e o coração resolveu palpitar ainda com mais força.
Apesar da enorme miscelânea, era possível sentir os cheiros que saíam das panelas. Quase que as visualizei, quase que toquei nelas. E em redor delas e dos tachos, surgia uma figura loura e meia anafada, em postura de maestro, estabelecendo o ritmo do fogão, do forno, das cozeduras, dos tempos. Primeiro isto, depois aquilo. Tudo coordenado.


Domingo era dia de estufado, geralmente de carne de vaca, ou de um assado no forno. Quase  sempre acolitados por batatas assadas, por um arroz de manteiga, também feito no forno. E uns grelos, preferencialmente de nabo, quando os havia, um esparregado, umas couves cozidas e temperadas com azeite e alho. Outras vezes tínhamos o cozido, a feijoada na versão transmontana, a dobrada, pois nunca lhe chamámos tripas. Era tudo tão simples, tudo tão prosaico, mas tudo tão saboroso.


O Sábado era o dia do peixe. Era o dia de ir à praça, ao mercado ou feira para comprar o necessário para as viandas da semana seguinte. Aproveitava-se para trazer um pargo, ouvia falar do legítimo, uma pescada com calibre grado ou ainda, no tempo certo, as sardinhas, os carapaus, o peixe-espada para grelhar ou para fritar.


Tanto no Domingo como no Sábado, ao final do dia, havia sempre um petisco, qualquer coisa para picar. Moelas, pipis, língua de porco assada. Coisas deste género e que agora soam a barbárie. 
E aquele arroz de couve bem caldoso? Recheado por pequenas costelas de entrecosto que tinham estado a apurar na caçoila de esmalte no meio de vinho, alho, louro e pimentão em pó, que reconfortava no meio da semana. Ia-se para a cama alegre, aconchegado, perfeitamente saciado.
Com a idade, comecei a achar que a melhor comida era outra. Devia ser mais refinada, cheia de técnicas e mais técnicas, apresentada de forma geométrica, com tudo certinho e no lugar. Escorracei os comeres de outrora. Estupidamente.


Agora que já não tenho a tal figura de que vos falei há pouco, sou assolado por um desejo enorme de recuperar, sacar do esquecimento, todos aqueles sabores que, um dia, expulsei para longe de mim. Actos de um burgesso: Eu.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Bifana de Vendas Novas? Não, obrigado!

Não é uma critica gastronómica, é antes um acto público de perplexidade pessoal e ao mesmo tempo de libertação. Digamos que é, acima, de tudo uma declaração pública.
Sempre olhei como muita estranheza para fama desmedida que as bifanas de Vendas Novas revelam. Nunca consegui perceber a razão, o motivo para tanta reputação desta sandes de carcaça torrada, com um bife de porco, super fino e batido até à exaustão, perdido no meio do pão e com um molho que dizem ser o Segredo.
Ano após ano, e após centenas de passagens ao longo daquela incontornável rua da bifana, onde cada restaurante alega ter as mais genuínas, continuo a ficar impressionado com as filas, com as multidões que se dirigem para comer o pouco excitante acepipe. Ainda observo com pasmo, ao fim de tantos anos, a satisfação dos diversos comensais e o rodopio de travessas a ser colocadas em cima das mesas. Chegam cheias e rapidamente são devolvidas vazias. 


Para meu regozijo, consegui encontrar na autodenominada capital da bifana, um espaço meio escondido que tenta quebrar com a ditadura bifaniana. Antiga tasca reconvertida, permite ao viajante parar por breves momentos, beber um copo de vinho, servido de forma muito decente e comer algo que não seja a fatídica e cansativa bifana, apesar de a ter, mas numa abordagem algo diferente e aparentemente mais saborosa. Sem complicar, sem ser o que não pretende ser, podemos aqui optar por um conjunto de opções rápidas, bem apresentadas e bem conseguidas e seguir viagem com outro estado de espírito.


A Hamburgaria Nacional é, a partir deste momento, o meu cais de descanso, bem longe do barulho, da confusão das travessas cheias de carcaças preenchidas por um pedaço de carne de porco que é quase virtual. Acabou o meu suplicio. 

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Nada Secreto

Quem nunca espreitou pelo buraco da fechadura para saber o que se passa no outro lado da porta? Espia-se com o intuito de descortinar um qualquer segredo, com o intuito de ficar a saber o que não se podia ou não se devia saber. Algo que dê para encalacrar alguém.


Mas na maioria das vezes o que se escuta e ouve por detrás da porta, pouco ou nada tem de relevância. As expectativas saem geralmente defraudadas.


É uma chatice quando escutamos nada de interessante, não compensado, de todo, o risco de ter estado de cócoras a espreitar pelo buraco, sem necessidade nenhuma. Enfim.

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Quinta da Zaralhôa

É um projecto que merece atenção, por parte de quem gosta de vinhos, de descobrir coisas novas, para quem gosta de encontrar lugares onde a natureza foi profícua em largar muitos e variados motivos de interesse. Se for o vosso caso, precisa de conhecer e relacionar-se com este produtor do Douro Superior. Aliás, não deixa de ser curioso que nos seus rótulos seja referido a sub-região de origem. Sinal de especificação, revela a origem sem qualquer embaraço. Estabeleci, naturalmente, comparações com outros produtores de outras bandas e que fazem também alusão ao local de onde vêem. Não escamoteiam a naturalidade. Outra curiosidade é relativa ao frontman. O Luis é um apaixonado e praticante de surf. 


Com uma aposta muito forte na exportação, só agora e muito lentamente é que se começam a ouvir, aqui e acolá, algumas referências aos vinhos da Quinta da Zaralhôa. Já era tempo, julgo.
Sem entrar em repetição, estou perante mais um projecto com o qual alimento, sabe-se lá porquê, uma relação de cumplicidade pessoal. Afinidades. 


Lançado recentemente, este vinho branco da colheita de dois mil e catorze vem enriquecer o portefólio da quinta. Um vinho que me pareceu francamente interessante, com uma característica que tendo a valorizar bastante: tem parcimónia aromática. Mostra-se, julgo eu, masculino, robusto, com energia, com frescura. Há ou havia, ainda, por ali um conjunto de impressões de difícil caracterização, o que aumentava a complexidade, a intenção e a vontade de compreender o que é e não é. Estando num estado de plena juventude, percebe-se, assim me pareceu, que temos aqui um vinho que deve ser conhecido pelo pessoal e que possui uma enorme margem de progressão.

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Maias

Matar saudades. Foi literalmente um momento para matar saudades. A oportunidade para recordar esta ou aquela ocasião. Limpar algumas teias da vista e (re)visualizar pessoas e cheiros. Sentir. Nada de estrondoso, de soberbo. Apenas passagens simples, desprovidas de riquezas, de qualquer ostentação. E sorrir à medida de cada gole.

Não fazia ideia que este rótulo ainda existia. Recordei com satisfação a primeira vez que bebi este vinho. Já lá vão uma porrada de anos. Um vinho volumoso, com estrutura, com densidade e frescura. E tudo isto, com um preço inusitado. 




Constata-se que não é preciso muito, apesar de pensarmos o contrário, de querermos o oposto, para que a satisfação possa ser vivida, alcançada, sem estarmos em constante estado de agonia porque o outro tem e nós não temos. É difícil libertar-nos deste emaranhado de desgostos, é verdade, mas é possível. 

segunda-feira, janeiro 11, 2016

O bacalhau, o tinto e o branco. O Branco, certamente!

Esta pequena resenha não pretende ser, por incapacidade do autor, um tratado ou explanação sobre as possíveis combinações entre o dito fiel amigo, dos portugueses, e o vinho. Muito menos uma abordagem gastronómica aos diferentes modos de confeccionar o bacalhau. Será, antes, uma declaração de gosto. 



Não há muito tempo surgiu no grande ecrã, vulgo tv, uma pequena reportagem sobre alguns aconselhamentos sobre vinhos a escolher para o Natal. Entre as propostas que foram sendo elencadas, surge uma pequena nota em que se refere, segundo a peça televisiva, que os enólogos aconselham ou aconselhavam vinho tinto para acompanhar o referido peixe. Não recordo que tivesse sido entrevistado qualquer enólogo sobre o assunto em causa. Não dei grande relevância, pensei que era mais uma daquelas tiradas típicas da comunicação social, até ao momento em que se começou a fazer eco, mais ou menos intenso, sobre qual seria o melhor arranjo: vinho tinto ou vinho branco.


Como quase todos os portugueses bebi, ou melhor acompanhei o bacalhau com vinho tinto, durante muito tempo. Era a tradição, a moda, logo tinha que respeitar e cumprir. Cumpria a norma, mas nem sempre com a satisfação devida. Mas era assim, tinha que ser assim. 



Com o alvitrar da possibilidade de reunir vinho branco com o bacalhau, comecei a abandonar  a velha máxima: é com vinho tinto. Experimentando na forma cozida, assada, frita, gratinada, conventual, à Bras, à Gomes Sá, à Zé do Pipo, panado, com múltiplas abordagens de vinho branco, os ganhos e acima de tudo a minha satisfação foi sendo cada vez maior. Tudo parecia fazer mais sentido, parecia combinar melhor. Esta opção, provavelmente, vem de encontro a uma opção de consumo que está cada vez mais enraizada: o domínio dos vinhos brancos sobre os vinhos tintos. As razões andam por aí explicadas.  



Regressando ao busílis da questão, advogo que a melhor combinação entre o eterno e fiel amigo é com vinho branco, nas suas mais diferentes abordagens, estilos, evoluções ou estágios. É o meu dogma. Também os tenho.