Pingas no Copo

Um espaço feito por um amador para amadores que gostam de beber, provar, degustar sem rodeios e sem preconceitos...e com muita paixão! pingasnocopo@hotmail.com

Sexta-feira, Maio 23, 2008

Cartuxa Branco 2006

Curioso. Tive muito tempo sem tocar nele. Era um daqueles vinhos que eu achava ser o melhor. Lembro-me, com um leve sorriso, o que dizia sobre ele. Passaram anos e parecia-me que andava vulgar e normal, sem qualquer ponta de interesse.
Atacado por indecisões enófilas (não sabia o que escolher para acompanhar uma corvina no forno) dou comigo novamente com um Cartuxa Branco (da colheita de 2006).
Apresentou-se com sensações petroladas (que gosto muito). Durante alguns minutos, os cheiros a combustível, cabeça de fósforo (outra invenção minha) dominaram tudo que ia saindo do copo. Foi aliviando (ao preço que estão os derivados) através de uns quantos fardos de erva. Fresca e seca. Era curiosa a simbiose entre os dois estados. Não havia predominância de nenhum deles. Manteve-se, assim, um bom bocado.
Ao longo da prova começaram a surgir, por todo o lado, aromas a fruta. Fruta de perfil tropical, onde o ananás e a lima pareciam quer dominar a seu belo prazer. Pelo meio, ia sentindo um original cheiro a pimenta branca. Por muitas voltas que a cabeça dava, daqui não saí. Não consegui encontrar melhor comparação.
Na fase terminal, naquela em que só queremos beber descontraidamente e desfrutar o vinho, cacei um toque floral. Dava a impressão que tinha sido regado pelo orvalho.
Na boca, os sabores revelaram-se cordatos, com uma acidez bem integrada, natural (ou artificial, mas bem disfarçada). Este aspecto merece reflexão (da minha parte). De um momento para o outro, alguns vinhos brancos alentejanos começaram a possuir uma acidez muito cortante. Em alguns casos, parece que foi metida lá.
Voltemos ao vinho. Mastigavam-se pedaços de ananás, um pouco de pêra e maçã. Tudo bem regado pela lima. Num registo liberto de exuberância e exageros.
Um branco ponderado, austero e com um bom nível de complexidade. Permite que seja bebido sem qualquer tédio.
Em vez de terminar com o fatídico gostei (é o que interessa, pois não tenho habilidade para ir mais além. Aliás, continuo com muitas dúvidas sobre a capacidade de dizer bem do que não se gosta), digo-vos que foi um feliz regresso. Nota Pessoal: 15,5

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Vinha de Saturno Alentejo Tinto 2004

Não é, decididamente, um vinho para beber todos os dias (acho eu). O que encerrava dentro da garrafa estava repleto de intensidade, de força e de exuberância. Chamei-lhe: um vinho superlativo. Impossível virar a cara e ficar indiferente. Mesmo aqueles que bradam aos céus pedindo por outros géneros, acabariam por beber uns valentes tragos e, no fim, gostar. Somos cata-ventos. Viramos consoante o que vamos ouvindo. Outrora pedíamos vinhos pujantes. Agora pedimos coisas mais leves, com mais elegância (Adjectivo que usamos bastas vezes. Tornou-se banal. No fundo não sabemos muito bem o que quer dizer).
Custou a acordar, a erguer todo o peso que tinha. Percebia-se que o músculo era enorme.
Transbordava com sensações negras, escuras, pretas. Nesta fase veio à (minha) cabeça a imagem da azeitona preta esmagada, quase em pasta.
A barrica imprime ao tinto uma irresistível atracção.
Largando este entretém inicial que serviu apenas para ocupar mais linhas, reparei que este alentejano (da Herdade do Monte da Cal) apresentava um registo aromático em que a fruta parecia estar cristalizada e bem regada com farto caramelo. Alguma sultana ia dando sinal, de tempos a tempos. Reforçava a sensação exótica (a madeira também ajudava) que o vinho teve durante muito tempo.
A menta e a especiaria combinavam umas vezes com o chocolate, o coco, a baunilha e o tabaco, outras vezes juntavam-se à fruta caramelizada.
Os sabores eram gordos, amplos. Conseguíam, apesar do peso evidente, da doçura, apresentar-se equilibrados. O final era marcado pelos tostados. Guloso.
Se tivesse um pouco mais de frescura, se cortasse no peso e eliminasse algumas gorduras excedentárias, tínhamos (aqui) um vinho preparado para outros voos (mais uma crença pessoal, entre tantas). Apesar de tudo e de todos, gostei francamente. Dispensa comida. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum:
Percebia-se que havia algo de luxuoso no vinho e que provavelmente não lhe faltou nada.

Terça-feira, Maio 13, 2008

Quinta do Monte D'Oiro

Estes foram provados em simultâneo com os Garrafeira da Tapada de Coelheiros. A prova (que dividi, aqui, em duas partes) tinha sido fruto da cabeça de alguém. Tornou-se um interessante comparativo entre dois produtores de topo.
Partilho, agora, as minhas impressões sobre três vinhos da Quinta do Monte D’Oiro. Reservas de 1999, de 2001 e 2003.
Não é a primeira vez que falo sobre eles. Nas primeiras páginas deste diário pessoal, lembro-me de ter escrito umas linhas. Nessa altura, foram feitas as pazes entre mim e eles. Durante muito tempo, não consegui compreender este syrah (com uma pitada de viognier) da Estremadura. A enorme falta de experiência (que continua a existir. Agora, anda aparentemente disfarçada) contribuía decididamente para isso.
Tal como os outros, estes foram provados em prova cega.

Quinta do Monte D’Oiro Reserva 1999

Curiosamente este tinto pareceu-me jovem, com mais força que os seus irmãos mais novos. Havia uma intensidade que apontava para anos recentes (só depois de ver o rótulo, reparei no enorme erro). Foi frontal na apresentação. Directo e peitudo na abordagem. Senti, durante algum tempo, um valente odor a verniz que combinava com lousa, grafite e carvão. Aqui o tempo (da prova) correu a (seu) favor. Atenuadas as primeiras emoções, chegou a vez de cheirar chocolate preto, amora preta (sabem, certamente, das dificuldades que tenho para identificar cores) e um conjunto de fumados. O meu nariz, pouco contente com o que ia caçando, conseguiu ainda imaginar sensações a rosas, a violetas. Pareciam aqueles ramos que se oferecem na despedida. Perfumava o ar.
O paladar era fresco. A força estava (bem) controlada pelo corpo. Gordo, amplo e equilibrado. O final era longo. Nota Pessoal: 17

Quinta do M
onte D’Oiro Reserva 2001
Recordando algumas coisas que já disse (escuso de maçar-vos mais uma vez), sinto que este vinho continua a apresentar excelente estado de saúde. Para mim, é um tinto que vence pelo perfume que está constantemente a largar cá para fora. A madeira sabe bem. Está ali para enriquecer, para melhorar. Não é a estrela principal. Devido à falta de comparativos, só surgem na cabeça palavras como: acetinado, aveludado, elegante e fino.
O paladar não destoou, nem um pouco, do que tinha cheirado. Longo no prazer. Um vinho que não é para nós.
Depois nem sempre é fácil escrever sobre o que (mais) gostamos. Nota Pessoal: 18

Quint
a do Monte D’Oiro Reserva 2003
Os aromas que entravam no nariz estavam repletos (mais uma vez) de intensidade. Havia profundidade, sem nunca perder elegância e finesse. Tudo andava em redor do chocolate em pó, pó de talco, tabaco. Pelo meio, fiquei com a ideia que um cheiro a encerado tentava transmitir a este tinto um ar mais aristocrático, fazendo lembrar aqueles salões, amplos e cintilantes. Parecia quer mostrar dimensão, amplitude.
Depois continuou a evoluir numa lógica doce, mas terrivelmente insinuante.
Na parte final, reapareceram as folhas de tabaco trazendo atrás ervas aromáticas. Concluíam o tratado aromático.
Os sabores sugeriam harmonia e frescura (comum em todos eles). Fino desde a entrada até à saída. Nota Pessoal: 17,5

Post Scriptum:
Destapadas as garrafas, reparei que a balança estava inclinada para os estremenhos.

Quinta-feira, Maio 08, 2008

Garrafeiras da Tapada de Coelheiros

É decididamente, para mim, mais um caso em que o meu conhecimento é maioritariamente literário (acreditem que gostaria que fosse diferente). Os vinhos produzidos por este produtor custam uns valentes euros. O dito Tapada de Coelheiros normal raramente baixa dos 20€. Muito caro para uma coisa que é chamada de normal. O cenário adensa-se com os Garrafeiras. Aqui a barreira dos 50€ é facilmente transposta. Verdade seja dita, tenho uma leve sensação (que se baseia meramente em crenças pessoais) que anda por aí uma enorme loucura em redor de vinhos que têm a etiqueta 50. Parece ser condição essencial um produtor brindar-nos com tais preços. Só assim é que poderá ser um verdadeiro Topo.
Olhando para os meus apontamentos que andam por casa, lembro-me da (enorme) desilusão que tive ao provar o Garrafeira de 1996. Dizia-se (não sei se ainda se diz) que este vinho era qualquer coisa de extraordinário, um exemplo de complexidade, de finura. Andou debaixo de olho durante muito tempo. Chegou-se a dizer que não era um tinto para todos. Que dificilmente seria interpretado (devidamente) por gente normal.
Recentemente reencontrei-me novamente com o Garrafeira de 1996. Agora surgia acompanhado por outros Garrafeiras: 1999 e 2000. Foram provados às cegas (é importante referir esta variável?).

Tapada de Coelheiros Garrafeira 1996
Olhando para as minhas (fracas) memórias enófilas, acabei por reparar que existia coincidência entre este momento de prova e outro que já tive.
O vinho, enclausurado dentro desta garrafa, revelou, aparentemente, uma face muito vegetal, com a fruta quase ausente. Os sinais que largava eram muito fugazes. Por largos momentos, não detectei qualquer pista.
A prova ia desenvolvendo-se com sensações florais. Sem grande intensidade e meio débil. Umas nesgas de pimenta e uma ou outra especiaria tentavam, sempre que podiam, dar maior complexidade e amplitude aromática a este tinto alentejano. O esforço acabou por ser (um pouco) inglório. Foram incapazes de catapultá-lo para outros voos. Estaria no fim de viagem?
O paladar, apesar de possuir um nível de frescura muito aceitável, com os taninos e a acidez a pedirem um prato com algum tempero, mostrava-se (assim pareceu) parco de sabores. Nota Pessoal: 14

Tapada de Coelheiros Garrafeira 1999
Um salto enorme entre este e o primeiro. Mais estruturado, mais cheio, tantos nos aromas, como nos sabores. Durante algum tempo manteve-se fechado, pouco conversador, dando poucas indicações sobre a sua personalidade.
O despertar iniciou-se com (muitos) odores tostados. Fiquei com a impressão que no pires ao lado estava o amendoim e a amêndoa torrada. Pelo meio, senti um cheiro mineral, que fazia recordar as minas de lápis, a lousa. Acabei por regressar, momentaneamente, à velha sala de aulas.
Calmamente (como um bom alentejano), a fruta surgiu em forma de ginjas, framboesas. Alguns licores faziam companhia, conferindo um aspecto mais viscoso, menos seco. O tempo, a duração da prova, fez-lhe bem. Foi um tinto que ajudou a inventar aromas. Longe da morte. Cheio de vida.
Os sabores mostravam força, compleição. Ao entrar pela boca, mastigava-se, saboreava-se. Conseguiu aliar, de forma muito coerente, a força com a elegância (quase esquizofrénico). No final deixava um rasto fresco, tendencialmente mineral.
Fazendo futurologia, acredito que temos um tinto que irá evoluir muito bem. Gostava de prová-lo novamente para saber se atirei ao largo ou se foi em cheio. Nota Pessoal: 16,5

Tapada de Coelheiros Garrafeira 2000
Mais novo que o anterior, mas nem por isso mais interessante. Aqui, o ponteiro mudou completamente de direcção. Abandona a frescura, o mineral e aposta essencialmente na doçura, nas compotas. Fica a ideia (que pode ser errada) que estava mais redondo, quase sem arestas para limar. Com (muito) doce de tomate, com (bastante) marmelada. Uma parelha que dominava a escala. Davam poucas hipóteses para que outros surgissem. O tempero era feito, essencialmente, com canela e caramelo. Aparentemente monótono.
Os sabores, navegaram por entre (alguma) indefinição. Não estava claro para que lado tombava. Acidez, comum entre eles, era o elemento mais irrequieto. Muito dinheiro para o prazer que tive. Nota Pessoal: 15

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Do Minho para o Pingo Doce

Arrisquei, mais uma vez, em vinhos de supermercado. Em vinhos sem rótulo. O Pingo Doce foi, durante muito tempo, a única cadeia de supermercados a oferecer ao público menos abonado um conjunto de vinhos de marca própria. Fazia tempo que não escorregavam pela goela (manias). Desta vez, aventurei-me com dois brancos vindos do Minho. Um Alvarinho construído por Anselmo Mendes e um Loureiro da Quinta da Lixa. Ambos de 2007.

O primeiro com um cheiro redondo, com uma intensidade muito aceitável. Mostrou, na largada, uma combinação aromática que vagueava entre erva fresca e (muita) lima (em raspas ou em sumo). Notavam-se, pelo meio, algumas rodelas de ananás, misturadas com umas cerejas brancas (este ano, não terei oportunidade para sacar umas quantas da árvore). Continuando de volta dos aromas, dou comigo com uma sensação a louro. Um esforçado toque mineral tentava dar mais pica ao vinho. Gostei do que ia entrando pelas narinas.
Na boca senti sabores limados, frescos, com o mineral a tentar marcar presença. Tudo com duração muito mediana, mas suficiente para deixar na memória boas lembranças.
No essencial, está mais interessante no nariz que na boca. Se tivesse sido mais homogéneo, tínhamos um achado. Foi pena. Nota Pessoal: 13,5

O segundo surge, no copo, mais vegetal. Os cheiros têm menos pujança, menos intensidade. Um ramo discreto de flores brancas conseguiu, durante alguns minutos, dar graça a este branco. Olhando para o alvarinho, percebe-se a razão do preço (o loureiro custa menos de dois euros).
Os sabores pareceram-me relativamente parcos. Por momentos, senti um vazio desde a entrada até a saída da goela. Não tem nada haver com o primeiro. De qualquer modo, bebe-se. Nota Pessoal: 12,5

Post Scriptum: Será que as uvas que entraram nestes vinhos terão sido aquelas que sobraram? Pelo preço que custam, parece-me que estes brancos poderão ser, eventualmente, bebidos mais vezes (Estou a pensar no alvarinho).

Quinta-feira, Maio 01, 2008

Ermelinda Freitas Syrah (2005) e outros

Numa das últimas sessões do Núcleo Duro (um grupo de amigos que prova desde 2002), foram largados vários comentários sobre o novo Syrah da produtora Ermelinda Freitas. Tinha, já na altura, corrido muita tinta sobre este vinho. Abreviando a conversa, este varietal recebeu a mais alta condecoração, num desses enormes concursos internacionais que todos conhecemos. A partir daqui a estória tomou tamanha proporção que abriu o apetite a muitos consumidores. Não sou excepção. Sabemos quanto uma medalha pode valer. Mas a questão não era a medalha em si mesma (Existem outros vinhos que levam ou levaram insígnias). O busílis era o epípeto que este syrah tinha levado: O Melhor do Mundo.
Conversa feita, ficou decidido que o Melhor seria confrontado, em prova cega, com outros tintos da mesma casta. Os adversários podiam ser escolhidos livremente, sem qualquer restrição. Apareceram vinhos para todos os gostos e feitios.

Peter Lehmann Stonewell Barossa Shiraz 1999 (Austrália)
Sempre que posso e a carteira deixa, compro uma garrafinha deste vinho australiano. É um tinto que deveríamos ter direito de beber muitas vezes. Este 1999 estava muito elegante e delicado. As sensações aromáticas mostraram-se cheias de especiaria, repletas de odores a chá. Num registo longe de intensidades desmedidas e afastado da brutalidade. Ao longo da noite, manteve-se no seu lugar, largando suavemente outros cheiros. As flores apareceram de tal maneira que as paredes do copo ficaram perfumadas. A baunilha, o caramelo, apesar de marcarem presença no vinho, estão muito calmos. Não ofuscaram, em demasia, os outros.
Na boca, desde a entrada até à saída, ele manteve-se gracioso, com a especiaria e o floral a imporem-se. Notava-se que vinha vestido de forma elegante e fina. Longe de morrer. Se puderem, provem. Nota Pessoal: 17

Montes Alpha Syrah 2004 (Chile)
Desde que caiu no copo, este tinto chileno (uma estreia para mim) soltou, cá para fora, um conjunto de aromas que prendiam o (meu) nariz logo no primeiro ataque. Notei que existia uma bela simbiose entre sensações a bosque, com alguns cogumelos encostados às árvores, e carradas de fruto preto suculento e fresco. O rodar dos ponteiros permitiu que o chocolate, o tabaco, o caramelo fossem quebrando as cordas, aumentando, deste modo, o prazer. De empatia quase instantânea.
Os sabores comungavam o (mesmo) registo dos cheiros. Bem suportados pela acidez. Fino e com uma elegância que merece destaque. Na essência, um vinho que, por ele só, dá prazer. Não necessita de comida, por perto, para brilhar. Nota Pessoal: 16,5

Herdade do Esporão Syrah 2005
(Alentejo)

A subida do mercúrio, aparentemente, prejudicou-o. Tornava-o, tendencialmente, um pouco pesado, com um nível de doçura relativamente alto. A fruta estava bem maturada. Rebuçados e gomas aprofundavam o tal carácter doce.
Olhando para a fase inicial, pareceu-me sentir algum mineral e uma breve sugestão a flores e terra. Chegaram a dar, durante algum tempo, a leve impressão que tinha defronte algo (bem mais) atraente e com maior nível de complexidade. Foi, no entanto, suficiente para animar a prova. Tudo num registo (muito) consensual e apelativo para todos nós.
Os sabores, apesar de gordos, amplos e um pouco pesados, estavam bem suportados pela acidez. Os tostados pressentiam-se na fase em que ele abandonava a boca.
Um syrah que, ao ser servido, deve estar refrescado. Deste modo, temos vinho para dois bons dedos de conversa. Nota Pessoal: 15,5

Ermelinda Freitas Syrah 2005 (Terras do Sado)
Um tinto com muito chocolate, com uma enorme quantidade de caramelo e baunilha. A caminhada aromática alonga-se com um forte cheiro a mentol, demasiado artificial. O after-eight era muito ostensivo. Dava a ideia que ele tinha sido criado em laboratório. Não era natural.
Ao continuar a cheirar, dei conta de um odor que colocava-me no meio de um roseiral. Chegava a incomodar este perfume estonteante.
Na boca, a intensidade aromática não tinha correspondência no paladar. Os únicos sabores que notei, no palato, foram as rosas (ou outras flores) e o artificial after-eight. Não tão consistente como o Syrah do Esporão.
É, apenas, um vinho muito trabalhado, feito para agradar. O preço, esse, como sabem é completamente despropositado. Nota Pessoal: 15

Herdade do Meio Syrah 2004 (Alentejo)
Aromas difusos, algo empoeirados. Assumo que tive dificuldade para perceber quem é quem. Aparentemente as imagens estavam distorcidas, pouco claras. De qualquer modo, tendia para o balsâmico. Cedro e pinheiro percorriam todo o espectro aromático.
A fruta apresentava-se pesada e passada, num estado revelador de (muito) pouca frescura. Na parte final, andava uma estranha impressão a camurça, a pêlo de animal. Um tinto que pareceu (muito) pouco syrah.
Na boca o comportamento tendia para o doce, roçando o enjoo. A causa estava, sem dúvida, naquela fruta passada. Sem vivacidade e algo chato.
Um vinho que, particularmente, não apreciei. Como sempre, justifico, este facto, com as minhas imperícias pessoais. Nota Pessoal: 14

Jester Shiraz Vintage 2004
(Austrália)

Por muito que digam o contrário (e o já o disseram), continua a ser um vinho que não gosto. Podia ser, até, o melhor do mundo.
Voltou a revelar uma face muito química (que ultrapassa o inadmissível), com muitos torrados. Quase queimado. Bastante intenso, extraído e com poucos pontos que pudessem dar interesse.
Nesta prova, surge com outro aroma e sabor: Metálico. Abonou pouco em seu favor.
Apesar de tudo, um pouco melhor na boca. Mas nada que o levasse para outros voos. Entre os oito provadores presentes, foi o mais consensual. Ninguém gostou. Nota Pessoal: 13,5


Uma coisa é certa, estes vinhos bebem-se sem precisar da comida por perto.

Segunda-feira, Abril 28, 2008

E assim foi em Vila Viçosa

Merece que se diga que foi uma bela tarde e uma reconfortante noite. Sem formalismos, longe de discursos elaborados. As perguntas e respostas saltavam, sem qualquer rigor, sem preconceito ou medo em falhar. Às vezes, encostado num pilar dos claustros, a conversa durava mais um pouco. Havia sempre uma estória para contar, para partilhar. Os vinhos, esses, acabavam por servir de acompanhamento. Não é essa a sua função?
No entanto, e por entre tantos dedos de conversa, deixo aqui o nome de alguns vinhos:

Alves Sousa Reserva Pessoal Branco (Douro) 2001.
Qualquer comparação com outro vinho branco é puro abuso.

Alves de Sousa Reserva Pessoal Tinto (Douro) 1999.
Pena o preço. Um tinto que continua cheio, perfumado.

Dona Berta Rabigato Reserva Vinhas Velhas (Douro) 2007.
Um branco fresco, crocante. Um belo vinho do Engenheiro Verdelho.

Quinta da Gaivosa (Douro) 1992.
Como um vinho envelhece com dignidade e sem perder requinte.


Redoma Branco Reserva
(Douro) 2007.
Escuso de perder tempo. Todos o conhecem.

Cortes Cima Reserva (Alentejo) 2004.
Moderno e impossível de resistir.

Altas Quintas Reserva (Alentejo) 2005.
Um alentejano das montanhas. Fresco, desafiante. Está ainda muito jovem.

Quinta da Vegia Reserva (Dão) 2005.
Elegante e fino. Uma paixão pessoal.

Quinta dos Roques Encruzado (Dão) 2007.
Mais um digno descendente desta família.

Flor das Maias (Dão) 2005.
Algo de interessante está para surgir.

Anima L5.
Diferente do L4, mas a marca da sanviogese continua bem vincada. Guardar ou partilhar com quem aprecia coisas boas.

Herdade PortoCarro (Terras do Sado) 2005.
Mais estrutura, mais vegetal. Menos imediato, menos consensual.


Niepoort Colheita (Porto) 1983.
Para beber e desfrutar.


Tudo isto nos Claustros do Convento dos Capuchos, onde o maestro do Copo de 3 (acredito que irá fazer um registo bem mais elaborado e digno que o meu) acantonou as hostes, vindas de todas as partes da Lusitânia.

Domingo, Abril 27, 2008

Rodeio Dão Colheita 2006

Depois do tinto, surge o branco (feito a partir de Encruzado, Bical, Malvasia-fina e Cerceal). Escuso de dizer, mais uma vez, que não sabia que existia. Iria repetir as mesmas palavras (que não é raro). Salto já para as (minhas) considerações.
Cor clarinha, brilhante.
Os aromas apresentaram-se com um registo demasiado discreto. Pouco esclarecedores e (sempre) muito frágeis. Tive que deixar subir a temperatura para entender, um pouco mais, o que andava por ali. Fui descortinando sugestões a ananás e eventualmente a calda de pêra, mas sempre numa pose pouco ostensiva. Mais intensidade não lhe faria nada mal. Senti, ainda, uns quantos cheiros a erva e a feno. Abusando do meu nariz, ou puxando pela minha imaginação, ficou no ar uma ténue tentativa para que o mineral fosse sentido.
Por muito que desse volta à cabeça, não conseguia descobrir neste branco do Dão um interesse por ali além. Tudo muito igual.
Os sabores, apesar de possuírem razoável frescura, reconheci pouca coisa. A sensação de enorme vazio era considerável. Mais uma vez, forçando a imaginação, o vegetal era o único sabor que esforçava-se para animar a boca. Final curto e de pouca memória.
Um branco que achei (muito) mediano. Olhando para o tinto, não tem nada haver. Nota Pessoal: 12,5

Post Scriptum:
Reparei, só agora, que tinham passado dois anos.

Terça-feira, Abril 22, 2008

Quinta do Abrunhal 2006

Apesar de ter nascido lá no meio da terra, nunca tinha olhado para ele de forma séria. Tendia sempre para outros vinhos. Achava que não traria nada de novo e serviria, apenas, para perder tempo. Puro engano!
Este tinto do Dão, proveniente da zona de Vila Nova de Tazem, é feito com o apoio do enólogo Rui Moura Alves. Quinta do Abrunhal é propriedade de um antigo sócio da Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazem.
Desponta com fartas sugestões a morango, a framboesa e a cereja, a pastilha elástica com os mesmos sabores e (mais uma vez) a rebuçado bola de neve. Tentava apresentar-se com um ar modernaço. Sinceramente, não estava à espera (é um daqueles vinhos que estagia em tonéis de madeira). Os aromas aprofundaram-se com notas de cacau e um pouco de alcatrão (foi o que veio à cabeça).
Numa fase (bem) mais adiantada, salta qualquer coisa que fez lembrar casca de árvore. O mais espantoso, do meio de tudo aquilo, foi cheirar um razoável molho de ervas aromáticas. Escuso de referir nomes. Fiquei admirado.
Na boca mostrou ser um tinto sedoso e aveludado. Muito fresco e agradável. Os frutos envolviam-se com o tal cacau, formando um bloco coeso e espesso. Um leve fumo, meio discreto, sentia-se quase no fim. O álcool estava bem acorrentado ao corpo. Não se notava.
Sendo saboroso e guloso, este tinto do Dão não chateia, longe disso (tinha uma finura que não estava à espera).
Uma (autêntica) pechincha que merece ser conhecida.
Feito para ser bebido, enquanto está jovem (não acredito que tenha cabedal para durar muito). Para desfrutar. O resto são estórias. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Se este vinho tivesse um pouco mais de chama, mais alma, acredito que poderia ser muito melhor. De qualquer maneira, gostei.

Domingo, Abril 20, 2008

Rodeio Dão Reserva 2002

Conheciam este tinto do Dão engarrafado pela Quinta de Darei? Vi-o no meio de uma prateleira, enfiado lá no fundo. Pediam por ele 7.99€. Trouxe-o, naturalmente, para casa. Não fazia a mínima ideia que a Quinta de Darei tinha enriquecido o seu portefólio com um Reserva de 2002 (engarrafado em Junho de 2004). Havia, da minha parte, muita curiosidade em perceber que vinho era este.
Austeridade surpreendente. Fechado inicialmente, com os cheiros da madeira a dominarem a seu belo prazer. Pouco evidente. Parecia querer desafiar. Desmontar as minhas fragilidades (que são muitas). Não podia ser. Era um tinto de 2002, o tal ano maldito.
Nas calmas, deixei que ele fosse despertando. Os frutos silvestres começam a desviar o efeito da madeira. Balsâmicos (há muito que não falo neles) e pinheiro refrescavam o que ia saindo de dentro do copo. Sempre com contenção e mantendo austeridade. Nada de floreados sem sentido e discursos inócuos.
Um ar perfumado por rosas e violetas solta-se quase no fim. E a madeira? Essa, volta na volta, oferecia-me cacau em pó, fumo, uma nesga de canela e caramelo.
Em termos gerais, os aromas sugeriam um bom nível de complexidade (não estava decididamente à espera). Existiram momentos em que tive de imaginar o que poderia estar ali.
O paladar era sadio. A acidez tinha sido colocada de modo que ele não perdesse frescura. Mostrava músculo e nervo enquanto andava pela boca. Tinha alma. Quando ia embora, ficavam sensações balsâmicas e tostadas.
Um tinto do Dão, com 12,6% de graduação alcoólica. Fiquei com a leve ideia que tinha estrutura, cabedal, para continuar a evoluir. Não deu qualquer indicação que o final estava para breve. Foi uma grande surpresa. Muito grande. Quando a madeira ficar mais controlada, acredito que será ainda melhor. É uma aposta minha. Nota Pessoal: 16

Quinta-feira, Abril 17, 2008

M. Chapoutier Belleruche 2005

Comprei este vinho sem saber o que era, o que valia. Sei, apenas, que custou quase 10€ (Intermarché de Gouveia). Foi, simplesmente, (mais) uma ténue tentativa para provar vinhos lá de fora. O único pensamento (que tive) era não gastar euros à toa. Dito de outra forma, perante o preço, a garrafa e a estética do rótulo achei que não teria um grande prejuízo se, eventualmente, o vinho fosse para o lixo. Acredito que seja um crime dizer isto (para vocês).
Referências sobre o produtor? Como sempre, andei pela rede a vasculhar informações sobre os responsáveis deste tinto. Se quiserem saber, saltem até aqui. No essencial, e de forma (muito) superficial, fiquei com a leve ideia que estava perante um produtor que trabalha vinhos na França e na Austrália.
Regressemos ao tinto em questão. Abre com fruta. Era (muito) evidente a sensação frutada. Cheguei a pensar que o iria colocar rapidamente de lado. Amainou, e ainda bem, por causa da frescura que foi saindo lá de dentro. Parecia (a frescura) ter uma certa inclinação para o vegetal. Tornou-se num fiel aliado. Conseguiu sustentar o temível peso da dita fruta. Depois, partindo do principio que irão perdoar-me os excessos, havia um odor, um cheiro, um aroma tendencialmente mineral. Achei curioso. Estava a enriquecer o vinho.
Por entremeio a força da fruta ressurgia, marcando o (seu) comportamento. Por ali ficou.
Os sabores eram frescos e frutados. Os taninos ofereciam uma leve secura às gengivas. A estrutura revelava interessante amplitude, com uma saborosa gordura. Sedoso. Final agradável.

Não é, para mim, um tinto do outro mundo. É, simplesmente, um vinho que veio de outra terra. Sabe bem, é guloso e pede sempre mais um gole. Se no rótulo não estivesse escrito Côtes-du-Rhône, diria que era de qualquer parte do mundo. Nota Pessoal: 14,5

Terça-feira, Abril 15, 2008

Síria D'Aguiar 2006

Outro Síria ou Roupeiro como dizem cá para baixo. Pessoalmente, não sabia que este D'Aguiar era feito a partir desta casta. Foi ao girar a garrafa que mirei no contra-rótulo o nome da uva.
No início o odor, que rodopiava em redor do copo, sugeria pêra e um pouco de maçã. Libertou, após algum tempo, umas quantas flores brancas. Entretanto foi largando, nas calmas, alguns toques a erva fresca que combinavam com um pouco de feno. Era como se a juventude e a velhice estivessem entrelaçados.
Não encontrando melhor comparação, uma leve sensação a pimenta branca (um abuso) e folha de figueira proporcionavam ao vinho um bom nível de interesse.
Nunca entrou pelos caminhos da exuberância. Conseguiu manter uma saudável contenção e discrição.
De relance, reparei que vagueavam pelo ar meia dúzia de gomos de tanja e laranja.
O paladar, apesar de fresco, era curiosamente circunspecto. Usava a acidez, apenas, para manter o vinho a mexer. Os sabores andavam entre o vegetal, a pêra (mais uma vez) e um pouco de casca de laranja. No final ficava qualquer coisa que lembrava a lima.
Um vinho branco muito aprazível, calmo. É daqueles que se vai bebendo sem notarmos por isso.
Para o preço que pedem (a rondar os 3€) não está nada mau. Nota-se, tal como os seus parentes da Quinta do Cardo e da Coop de Figueira de Castelo Rodrigo, que foi feito para beber na juventude. Guardá-lo não acrescentará nada. Nota Pessoal: 14

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